Há quem diga que o vinho nasceu para ser apreciado. Eu gosto de pensar que ele nasceu para ser vivido.
Muito antes de despertar o interesse de estudiosos, sommeliers e enólogos, ele já ocupava um lugar à mesa das famílias, nas celebrações, nos reencontros, nas despedidas e nas conversas que, sem percebermos, mudam o rumo da vida.
Aprendi isso viajando. Cada vinícola que conheço, cada taça dividida numa mesa longe de casa, me mostram um pouco mais desse lado do vinho que nenhum curso ensina.

Fernanda Begiato durante uma degustação na vinícola Decero, em Mendoza, Argentina (Foto: Acervo pessoal)
Quase ninguém se lembra do vinho servido em um almoço comum de uma terça-feira. Mas é provável que se recorde da garrafa aberta durante uma viagem inesquecível. Da taça erguida para celebrar o nascimento de um filho. Do rótulo escolhido para um pedido de casamento. Ou daquele vinho simples, compartilhado entre amigos, que se tornou memorável não pelo preço ou pela fama, mas pelas histórias que nasceram ao seu redor.
Minha memória às vezes falha. Mas alguns rótulos eu não esqueço. O vinho possui esse raro talento de transformar instantes em lembranças e de preservar emoções muito depois que a última taça é esvaziada.
É comum imaginar que esse universo seja complicado, cercado por palavras em francês e termos reservados aos especialistas.
Terroir. Assemblage. Taninos, acidez, mineralidade. À primeira vista, tudo isso parece um idioma próprio, que precisaria ser dominado antes mesmo do primeiro gole.
Mas a verdade é exatamente o oposto.

Vista dos vinhedos e da Cordilheira dos Andes durante visita a Mendoza, na Argentina (Foto: Acervo pessoal)
Antes da técnica, o vinho é experiência. Antes do conhecimento, é sensibilidade. Antes de ser uma bebida, é cultura, memória, arte e um convite para desacelerar. Cada garrafa carrega a expressão de uma terra, de um clima, de pessoas e de tradições que atravessam gerações. Cada taça pode revelar muito mais do que aromas e sabores: ela conta histórias.
É esse o convite desta coluna: o mesmo que me faz atravessar vinícolas de outros países só para entender uma taça um pouco melhor.
Nas próximas edições, vamos percorrer esse universo com calma. Conhecer regiões, uvas, personagens, curiosidades e experiências que fazem do vinho uma das mais fascinantes expressões da cultura humana.
Não para decorar palavras difíceis, mas para descobrir que, quando entendemos a história por trás de uma taça, ela nunca mais terá o mesmo sabor.

Fernanda Begiato durante visita a uma vinícola (Foto: Acervo pessoal)



