Cinco semanas de greve geral, 59 bloqueios ativos, quatro mortos e um presidente de seis meses no limite. Por trás das barricadas, a sombra de um homem acusado de abusar de uma menina de 15 anos.
Em outubro de 2025, a Bolívia fez o que parecia improvável: encerrou quase duas décadas de domínio do MAS nas urnas. Rodrigo Paz, senador centrista do Partido Democrata Cristão, venceu o segundo turno com 54,96% dos votos — a primeira alternância de poder por via eleitoral na história recente do país. A promessa era de reconstrução. A realidade, seis meses depois, é outra. O país está em colapso.
O estopim
Os protestos tiveram início no começo de maio em diversas regiões do país, com epicentro em La Paz e El Alto. A Central Operária Boliviana convocou greve geral por tempo indeterminado com pautas econômicas: reajuste salarial de 20%, melhorias no abastecimento de combustível e revogação da Lei 1720.
O estopim definitivo foi uma lei sobre propriedades rurais promulgada por Paz em abril, interpretada pelos camponeses como entrega de terras ao agronegócio. O governo recuou e revogou a lei em 12 de maio, dando 60 dias para o Parlamento discutir um novo texto. Não adiantou. O que começou como pauta trabalhista virou exigência de saída do presidente.
A crise humanitária
La Paz tornou-se o epicentro dos bloqueios que provocam escassez de alimentos, medicamentos e combustível. Nos hospitais, a falta de insumos básicos e oxigênio forçou a suspensão de cirurgias. Pelo menos quatro pessoas morreram por não conseguirem atendimento médico — incluindo uma criança de 12 anos. Segundo o próprio presidente Rodrigo Paz, a crise já custou 600 milhões de dólares à economia boliviana — a pior em 40 anos.
Na segunda semana dos protestos, a Argentina enviou um avião Hércules C-130 da Força Aérea com 12 toneladas de frango congelado para El Alto. Sinal de quão crítico o desabastecimento havia chegado.
A semana que mudou o jogo
Na quarta semana consecutiva de bloqueios, os números escalaram: 59 pontos de interdição ativos em seis dos nove departamentos, reunindo agricultores, mineiros, sindicatos e moradores de El Alto.
Vestidas de polleras — as saias tradicionais dos Andes —, milhares de camponesas também desfilaram em La Paz, juntando-se a uma marcha de motoristas em greve que paralisou os transportes públicos.
Manifestantes armados de explosivos, paus e pedras chegaram a invadir a Plaza de Armas, onde fica o Palácio Quemado, sede do Executivo.
A resposta de Paz veio na quarta-feira, 27 de maio: o presidente promulgou a revogação da Lei 1341, que limitava seus poderes para decretar estado de exceção — aprovada no Senado no domingo anterior e na Câmara em sessão online na terça. Com a mudança, Paz pode agora acionar o Parlamento, que tem 72 horas para autorizar o uso das Forças Armadas para desbloquear as estradas.
Na quinta-feira, 28 de maio, Paz foi ainda mais direto: "O país precisa de ordem. O tempo está a esgotar-se." E avisou: "A crise aproxima-se do ponto de rutura." Ao mesmo tempo, apelou ao diálogo — e mandou um recado às forças de segurança: "Sintam-se seguros, o vosso povo apoia-vos."
Até a publicação desta matéria, o estado de exceção ainda não havia sido decretado. Mas o caminho está aberto — e o presidente deixou claro que não hesitará em usá-lo.
A mão de Evo Morales
O governo de Paz tem um nome para o que está acontecendo. Evo Morales, ex-presidente socialista e fundador do MAS, é alvo de mandado de prisão renovado em maio sob acusações de tráfico humano e abuso sexual de menor — uma menina de 15 anos que ele engravidou durante seu mandato. O dirigente máximo da Central de Trabalhadores, Mario Argollo, também tem ordem de captura e está foragido.
O governo denuncia o que considera uma tentativa de "perturbar a ordem democrática" e acusa Morales de alimentar a contestação para impedir sua própria prisão. O ex-presidente rejeita ter convocado os atos e atribui as mobilizações ao "ajuste estrutural que recai sobre os pobres".
O xadrez internacional
A crise boliviana ganhou dimensão regional. O governo norte-americano declarou apoio explícito a Paz e, ao lado da coalizão Escudo das Américas, enviou ajuda logística e médica. Argentina, Chile e Peru contribuíram com mantimentos.
Do outro lado, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, declarou apoio aos manifestantes, chamando o quadro de "insurreição popular". Em resposta, o governo boliviano expulsou a embaixadora colombiana e a declarou persona non grata. A União Europeia, com Alemanha, Espanha, França, Itália e Suécia, emitiu comunicado de preocupação com a escalada.
O que está em jogo
A Bolívia elegeu Rodrigo Paz justamente porque estava exausta de duas décadas de socialismo do MAS. A conta deixada — inflação, falta de dólares, desabastecimento de combustível, a pior crise econômica em 40 anos — foi o argumento eleitoral de Paz. Agora, essa mesma conta é usada para derrubá-lo, por quem a gerou.
O paradoxo boliviano é brutal: um presidente eleito democraticamente para reformar um país quebrado, acossado por barricadas erguidas em nome de um homem que foge de uma ordem de prisão por abuso sexual de menor.
O ponto de rutura está próximo. A questão é quem chega lá primeiro.


