Este texto é sobre algo que ainda está longe de ser compreendido como deveria: o suicídio de 39 agricultores no Rio Grande do Sul.
Desde julho de 2024, trinta e nove pessoas do meio agropecuário gaúcho tiraram a própria vida. Para quem está fora do campo, isso pode parecer distante.
Mas tente imaginar o seguinte.
Uma família que vive da mesma terra há anos. A casa construída ali. Os filhos criados ali. A rotina que começa antes do sol nascer.
Agora imagine ver tudo isso sendo levado pela água. Foi o que aconteceu.
Em setembro de 2023, o estado enfrentou enchentes severas. Em dezembro, novamente. E, quando muitas famílias ainda limpavam a lama, tentando salvar o que restou, abril de 2024 trouxe outra enchente ainda mais devastadora, que atingiu 478 dos 497 municípios do Rio Grande do Sul.
Casas foram destruídas. Terras ficaram comprometidas. Galpões e máquinas, que são o meio de trabalho, foram perdidos. E, mesmo assim, essas pessoas tentaram recomeçar.

Casas e estruturas destruídas após as enchentes no Rio Grande do Sul (Foto: Arquivo pessoal)
Só que recomeçar, no campo, não é simples.
Para plantar novamente, é preciso dinheiro. E, para conseguir esse dinheiro, é preciso oferecer garantias aos bancos.
Muitos colocaram em risco o que ainda tinham: a própria terra, os maquinários, o patrimônio de uma vida inteira.
Agora imagine outra situação.
Você sempre pagou tudo em dia. Construiu sua vida com base na responsabilidade. E, pela primeira vez, você não consegue cumprir um compromisso.
No campo, isso não é apenas uma dívida. É algo que atinge diretamente a identidade da pessoa. Porque ali, mais do que contrato, existe a palavra.
Com as perdas e as dificuldades climáticas que vieram depois, muitos não conseguiram manter os pagamentos como sempre fizeram.
E então começaram as cobranças.
Máquinas sendo recolhidas. Risco de perder a terra. A sensação de que não há mais como recomeçar.
Agora imagine voltar para casa depois disso.
Sentar à mesa com a família, olhar para os filhos e não ver uma saída.
Foi nesse contexto que começaram a acontecer os suicídios.
São 39 agricultores gaúchos que tiraram a própria vida.
Entre essas histórias, há uma que resume o que muitas famílias viveram.
A de uma mulher agricultora que viu a água levar tudo. A terra onde nasceu, cresceu, construiu sua família e criou seus filhos. Depois disso, ela não conseguiu continuar.
E, quando se tenta encontrar informações sobre ela, não há registros. Como se sua história tivesse ficado restrita àquela comunidade, àquela estrada, àquelas pessoas que conviveram com ela.
Agora pense na família que ficou.
Na casa em silêncio, na cadeira vazia, nos filhos tentando entender o que aconteceu. Essa é uma parte da história que não aparece em números.
Há ainda outra questão importante. Essas mortes não estão sendo amplamente divulgadas. Não chegam com força aos grandes centros. Não geram a comoção que deveriam.
Enquanto isso, surgem interpretações simplistas. Pessoas dizendo que produtores “não pagaram” ou “deram calote”, sem conhecer a realidade por trás dessas histórias.
Também se fala em apoio psicológico. Mas quem vive no campo foi formado para sustentar a família, para resolver, para seguir em frente. Muitos não procuram ajuda. Suportam até onde conseguem.

Moradores organizam doações para famílias atingidas pelas enchentes (Foto: Arquivo pessoal)
O que está acontecendo não é falta de força. É o acúmulo de perdas, de pressão e, principalmente, a perda da possibilidade de continuar.
Quando alguém perde a condição de trabalhar, de sustentar a própria família e de manter sua história de pé, não se perde apenas renda. Perde-se o sentido.
E, quando o sentido desaparece, a esperança também.
Talvez a pergunta mais importante seja: por que isso ainda está acontecendo em silêncio?
Porque essas 39 vidas não são apenas do campo. Elas fazem parte de algo que chega à mesa de todos nós.
E nenhuma família deveria passar por isso sem ser vista.
Se você ou alguém próximo estiver passando por um momento difícil, é possível buscar apoio gratuito e confidencial no Centro de Valorização da Vida pelo telefone 188 ou pelo site (chat 24h).



