Design & Arquitetura

Cidades projetadas por homens funcionam para mulheres?

Por
Eliene Lucindo

3/20/2026

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Vista aérea de Brasília, uma das cidades planejadas mais emblemáticas do mundo. O debate contemporâneo sobre urbanismo questiona quem participa das decisões que moldam a vida urbana (Foto: Canva)

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A forma como as cidades são planejadas revela quem participa das decisões e quem fica de fora delas

A cidade começa às seis da manhã.

Ela acorda, organiza a rotina da casa, prepara filhos, resolve demandas, trabalha, cruza a cidade duas, três, quatro vezes no mesmo dia. Pega transporte público, caminha com bolsa, mochila, às vezes carrinho. Volta à noite. Calcula rotas iluminadas. Evita ruas vazias. Ajusta horários.

A vida urbana da mulher é múltipla, fragmentada e dinâmica.

Agora a pergunta que incomoda:
quem está projetando essa cidade?

A maioria que não decide

Mulheres representam grande parte da população urbana e são usuárias intensivas dos serviços públicos. Ainda assim, continuam sub-representadas nos espaços onde as decisões são tomadas — conselhos de planejamento, secretarias de urbanismo, grandes escritórios que definem diretrizes estruturais.

Estão na base.

Mas não estão na mesa.

Quando a experiência de quem vive o espaço não participa da sua concepção, o resultado é previsível: cidades que funcionam parcialmente. Iluminação insuficiente. Transporte desenhado para deslocamentos lineares, não para rotinas encadeadas. Praças pouco seguras. Banheiros públicos escassos. Calçadas que não comportam carrinhos, bolsas, idosos, crianças.

Não é sobre ideologia.

É sobre funcionalidade.

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Calçadas, transporte e infraestrutura urbana raramente consideram as múltiplas demandas da mobilidade feminina (Foto: Adobe Stock)

A lógica invisível da vida feminina

O planejamento urbano tradicional foi estruturado a partir de uma lógica produtiva masculina: casa–trabalho–casa.

A vida feminina raramente segue esse traçado simples. Ela opera em rede. Trabalho, escola, mercado, cuidado com familiares, múltiplos horários, múltiplos trajetos.

Quando essa complexidade não é considerada, a cidade vira obstáculo.

E isso tem impacto direto na segurança, na mobilidade, na autonomia financeira e na saúde mental.

O que muda quando mulheres participam das decisões

Muda a prioridade.

Iluminação deixa de ser detalhe estético e vira infraestrutura essencial.

Transporte deixa de ser apenas deslocamento e passa a ser segurança.

Espaço público deixa de ser cenário e passa a ser permanência.

Experiências internacionais mostram que, quando mulheres ocupam cargos estratégicos no urbanismo, aumentam investimentos em mobilidade ativa, acessibilidade, segurança e uso democrático do espaço.

Cidades pensadas a partir da experiência feminina tendem a ser mais eficientes para todos. Crianças, idosos, pessoas com deficiência, trabalhadores informais.

Projetar para a mulher é projetar para a vida real.

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O uso do espaço público muda quando segurança, permanência e acessibilidade são consideradas no desenho urbano (Foto: Canva)

Não é representatividade simbólica. É estratégia urbana.

A discussão não é “incluir por incluir”.

É inteligência estrutural.

Se a maioria que usa o espaço não participa da decisão, o planejamento nasce com pontos cegos. E pontos cegos custam caro: em insegurança, em baixa qualidade de vida, em desperdício de investimento público.

Estamos vivendo uma transição importante no urbanismo global. Cidades competitivas não são apenas tecnológicas. São sensíveis à diversidade de quem as habita.

A pergunta que define o futuro

Arquitetura e urbanismo sempre foram instrumentos de poder.

Quem decide desenha o comportamento coletivo.

Então a questão é direta:

Estamos projetando cidades para estatísticas ou para pessoas reais?

Enquanto a mulher continuar sendo maioria na vivência e minoria na decisão, nossas cidades continuarão funcionando pela metade.

E cidade que funciona pela metade não é moderna.

É atrasada.

Casos reais

Viena (Áustria)

Pioneira na aplicação do conceito de gender mainstreaming no urbanismo. A cidade redesenhou parques e calçadas após pesquisas mostrarem que meninas deixavam de usar espaços públicos a partir dos 9 anos por falta de segurança e design inclusivo.

Barcelona (Espanha)

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As “superquadras” de Barcelona reduzem o tráfego de carros e ampliam áreas de convivência, fortalecendo a vida de bairro e redes cotidianas de cuidado (Foto: Adobe Stock)

A criação das superquadras (superblocks) prioriza pedestres e a vida de bairro, reduzindo o trânsito e facilitando a rede cotidiana de cuidados.

Bogotá (Colômbia)

Sistema Distrital de Cuidado integra lavanderias públicas, creches e equipamentos sociais próximos a estações de transporte, reduzindo a sobrecarga de deslocamento para mulheres.