A investigação envolvendo a influenciadora e advogada Deolane Bezerra ganhou novos desdobramentos após declarações feitas por delegados da Polícia Civil durante entrevistas e coletivas recentes sobre a Operação Vérnix.
Segundo os investigadores, um dos inquéritos que hoje embasam as apurações começou ainda em 2019, quando autoridades passaram a monitorar movimentações financeiras e comunicações atribuídas ao PCC. A partir dessas diligências, surgiram indícios de estruturas utilizadas para lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial e circulação de recursos ligados ao crime organizado.
Durante coletiva, investigadores afirmaram que interceptações telefônicas, documentos apreendidos e materiais extraídos de celulares apontariam fortes indícios de uma atuação de Deolane como elo para obtenção de informações pessoais de alvos monitorados pela facção criminosa.
De acordo com um dos delegados responsáveis pelo caso, conversas interceptadas indicariam que a influenciadora teria conseguido dados como endereços e telefones de pessoas consideradas estratégicas para o grupo criminoso.
A Delegada da Polícia Civil, Maria Corsato, com 32 anos de experiência na segurança pública, comentou sobre a existência de uma “narcocultura”, expressão utilizada para descrever o avanço da influência do crime organizado sobre eventos, empresas, artistas, influenciadores e circulação de dinheiro no ambiente digital.
Ainda segundo Corsato, em entrevista ao Léo Dias, no Jornal dos Famosos, na sexta-feira (22/05), as apurações revelam um cenário preocupante de aproximação entre figuras públicas e estruturas financeiras ligadas ao crime organizado.
Apesar da gravidade das acusações, é importante destacar que Deolane Bezerra não possui condenação definitiva no caso. A defesa da influenciadora nega qualquer envolvimento criminoso e afirma que todo seu patrimônio possui origem legal e comprovada.
O plano contra Sérgio Moro
As investigações também resgataram episódios envolvendo o então ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro, Sergio Moro.
Segundo autoridades, materiais analisados ao longo das apurações revelaram ameaças atribuídas ao PCC contra Moro, que já era considerado um dos principais alvos da facção devido ao endurecimento do combate ao crime organizado durante sua passagem pelo Ministério da Justiça.
O caso ganhou repercussão nacional em 2023, quando a Polícia Federal revelou a existência de um suposto plano da facção para sequestrar e executar o ex-juiz da Lava Jato. Na época, operações foram realizadas em diversos estados após interceptações apontarem movimentações consideradas suspeitas.
Agora, dentro das novas investigações, delegados afirmam que parte das comunicações monitoradas envolveria busca por informações pessoais relacionadas aos alvos da facção.
O caso do delegado Ruy Ferraz
Outro nome citado pelos investigadores foi o do delegado-geral Dr. Ruy Ferraz, que atuava diretamente em operações de combate ao crime organizado.
Segundo autoridades, Ruy Ferraz também aparecia em relatórios e materiais apreendidos durante as investigações relacionadas ao PCC.
O delegado acabou sendo assassinado em 2025 em um caso que provocou forte repercussão entre integrantes das forças de segurança pública. Desde então, investigadores passaram a tratar o episódio como um símbolo do avanço operacional e financeiro das facções criminosas no Brasil.
As autoridades sustentam que organizações criminosas vêm ampliando influência para além do tráfico de drogas, utilizando empresas, eventos, plataformas digitais e movimentações financeiras complexas para expandir poder econômico e social no país.
Interpol monitorou Deolane na Itália antes da prisão no Brasil
Novas informações reveladas pelo programa Fantástico mostraram que a influenciadora Deolane Bezerra vinha sendo monitorada pelas autoridades brasileiras com apoio da Interpol durante sua temporada na Itália, dias antes da Operação Vérnix ser deflagrada.
Segundo a reportagem exibida no domingo, 24 de maio, investigadores acompanharam os passos de Deolane enquanto ela permanecia em Roma hospedada em um imóvel de luxo na região da Piazza di Spagna, uma das áreas mais nobres da capital italiana. As diárias do local ultrapassariam R$ 15 mil.
De acordo com a apuração, a Polícia Civil de São Paulo chegou a discutir a possibilidade de cumprir a prisão preventiva ainda em território europeu. O plano só não foi executado porque Deolane retornou ao Brasil um dia antes da operação policial acontecer.
O Fantástico também mostrou bastidores da abordagem policial na mansão da influenciadora em Alphaville, Barueri, na Grande São Paulo. Imagens exibidas pelo programa mostram agentes chegando ao condomínio de luxo durante a madrugada da operação para cumprir o mandado de prisão preventiva.
Segundo investigadores, Deolane é suspeita de atuar em um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC. A polícia afirma que empresas registradas em nome da influenciadora teriam sido usadas para pulverizar movimentações financeiras milionárias consideradas incompatíveis com a renda oficialmente declarada.
Outro detalhe que chamou atenção foi a informação de que Deolane precisou retirar o mega hair ao entrar no sistema prisional paulista. De acordo com agentes penitenciários ouvidos pela imprensa, extensões capilares são proibidas dentro da penitenciária por motivos de segurança.
Segundo relatos publicados pela Folha de S.Paulo, o mega hair poderia ser utilizado em tentativas de fuga, esconder objetos ou até servir como moeda de troca dentro do comércio informal entre detentas. Além do aplique, presas também precisam retirar brincos, piercings e outros acessórios metálicos ao ingressar na unidade e cortar os cabelos, deixá-los mais curtos, padrão da penitenciária.
Atualmente, Deolane está detida na Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, no interior de São Paulo, em ala separada destinada a advogadas presas preventivamente. A defesa segue negando qualquer envolvimento da influenciadora com organizações criminosas e afirma que todos os recursos financeiros dela possuem origem lícita e comprovada.
Império
Segundo as investigações da Operação Vérnix, Deolane Bezerra acumulou ao menos 12 imóveis de luxo em três anos, patrimônio que a polícia aponta como evidência de suposto esquema de lav@gem de dinheiro atribuído ao PCC. Ela chegou a numerar as aquisições nas redes sociais, celebrando cada nova compra com posts que iam da “casa 10” à “casa 12”, sempre com a legenda “não é ostentação, é superação”.
Entre os imóveis estão mansões em Alphaville, na Grande São Paulo, onde ela morava e foi presa, imóveis na Riviera de São Lourenço, na praia, e uma mansão temática em Orlando, nos Estados Unidos, avaliada em R$ 5 milhões, com sete quartos decorados com temas como Mickey e Harry Potter, piscina com hidromassagem, sala de cinema e sala de jogos. O investimento total em imóveis é estimado em R$ 65 milhões.
Além dos imóveis, a polícia apreendeu na operação uma frota de carros de luxo com valores entre R$ 220 mil e R$ 2,5 milhões por unidade e bloqueou R$ 27 milhões em ativos financeiros. A residência principal em Barueri, com 1.700 m², conta com seis suítes, estúdio de gravação, sala de cinema, palco para shows e garagem para até dez veículos.
Ministro Flávio Dino nega prisão domiciliar
Dino negou a prisão Domiciliar a Deolane Bezerra, e disse que não via ilegalidade em sua prisão. Ministro do STF ainda apontou que reclamação à Corte não é cabível como recurso. Influenciador está presa preventivamente por suspeita de lavagem de dinheiro para o PCC. A ordem diz respeito a um pedido da defesa da empresária, que requeria a revogação da prisão, o regime domiciliar ou aplicação de medidas cautelares.
Para Dino, não há “manifesta ilegalidade” na prisão da influenciadora e, por isso, não concedeu liberdade a Deolane, que está presa desde a quinta-feira (21/05).
Na decisão, Dino afirma que a reclamação feita pela defesa não permite que os fatos e as provas em investigação sejam analisadas em profundidade. Esse tipo de pedido feito pela advogada de Deolane tem como objetivo analisar o cumprimento de uma decisão já feita por um tribunal superior.
“De qualquer maneira, ainda que superado referido óbice, não detecto manifesta ilegalidade ou teratologia hábil à concessão da ordem de habeas corpus de ofício“, disse Dino no despacho, que também cita a não possibilidade de concessão de um habeas corpus pelo STF, já que “etapas processuais seriam puladas”.


