Bem Informada

Gilmarpalooza 2026 (14ª Edição)

6/10/2026

Article banner

Gilmar Mendes/Ministro Decano do STF.

X logo

O Gilmarpalooza é oficialmente o Fórum de Lisboa, organizado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pelo Instituto de Ciências Jurídico-Políticas da Universidade de Lisboa. O evento ocorre na capital portuguesa e reúne ministros do STF, integrantes do governo federal, deputados, governadores, empresários e acadêmicos para discutir temas como direito constitucional, democracia, inteligência artificial, economia, regulação e gestão pública.

O nome “Gilmarpalooza” surgiu como uma brincadeira com o festival de música Lollapalooza, em referência à grande escala e à presença marcante de Gilmar Mendes na organização do evento. A expressão se popularizou na imprensa brasileira e é usada de forma informal para se referir ao fórum, que já está em sua 14ª edição em 2026.

O evento também é conhecido por programas paralelos e encontros sociais, incluindo jantares e recepções privadas, que atraem empresários e autoridades, gerando debates sobre ética e uso de recursos públicos. Apesar de ser promovido por instituições privadas, parte dos custos de viagem de autoridades brasileiras é coberta por verba pública, o que tem gerado críticas e controvérsias

O 14º Fórum de Lisboa que aconteceu entre os dias 1° a 3° de junho deste ano, ocorreu em um momento particularmente sensível para o STF, enquanto a Corte enfrentava repercussões do escândalo do Banco Master e discutia a adoção de um código de ética para seus ministros. O tema central da edição foi "Nova ordem internacional, tecnologia e soberania: desafios democráticos, econômicos e sociais".

O povo brasileiro está bancando o evento

Levantamentos em Diários Oficiais e portais de transparência apontaram que pelo menos 135 autoridades e servidores públicos de 54 órgãos diferentes tiveram viagens autorizadas para Lisboa com dinheiro público — e esse número é considerado altamente subestimado, já que muitos órgãos, incluindo a Câmara dos Deputados e ministérios do governo Lula, ainda não consolidaram ou publicaram os dados de passagens e diárias.

Só o Tribunal de Justiça do Piauí e o TCU já estimaram gastos próximos de R$ 692 mil em diárias para suas delegações. Entre os que mais enviaram representantes está a Advocacia-Geral da União.

E a organização do evento? Lavou as mãos. Em nota, reafirmou o "caráter pedagógico" do encontro e disse que "a eventual participação de servidores decorre de decisão autônoma dos respectivos órgãos." Tradução: o problema é de cada um, não nosso.

O detalhe que revela o tamanho da crise: diante do esvaziamento causado pelo escândalo do Banco Master e pela pressão por um código de ética no STF, o próprio Gilmar Mendes ligou pessoalmente para autoridades pedindo que fossem a Lisboa. Mesmo assim, o número de magistrados do STJ confirmados caiu pela metade em relação a 2025.

A sombra do Banco Master

O evento ocorreu sob forte pressão pública após revelações de que o banqueiro Daniel Vorcaro financiou viagens de autoridades brasileiras para agendas paralelas no exterior.

Na edição de 2024, o então banqueiro Daniel Vorcaro participou das celebrações e eventos paralelos realizados durante o encontro em Lisboa.

Em 2024, Vorcaro teria gasto cerca de R$ 60 milhões em passagens, hotéis e festas em locais como Londres e Lisboa. No caso da capital portuguesa, os mimos ocorreram em agendas paralelas ao fórum oficial, levantando suspeitas sobre o nível de proximidade entre quem julga e quem é dono de grandes instituições financeiras.

O foco central das críticas é o conflito de interesses e a falta de transparência. Cientistas políticos apontam que, embora participar de palestras acadêmicas seja legal, a mistura com jantares e festas financiados por empresários cria um problema de imagem — mesmo que não haja crime, a percepção pública é de que essas relações podem influenciar decisões judiciais futuras, especialmente quando os patrocinadores têm processos tramitando nos tribunais superiores.

Quem foi e quem não pôde ir

Inicialmente, três ministros do STF participariam: Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Flávio Dino. Dino cancelou de última hora após sofrer um "pequeno acidente doméstico", informando que não obteve autorização médica para o longo voo.

André Mendonça, o ministro mais bem avaliado pela população e responsável pelo caso Master no STF, não participou. Ciro Nogueira também ficou fora — a PF investiga que Vorcaro teria concedido vantagens econômicas ao senador em troca de atuação favorável.

André Esteves, do BTG Pactual, esteve presente. O BTG chegou a negociar a compra do Master quando o banco já enfrentava dificuldades — operação que não foi adiante após Lula aconselhar Vorcaro a não vender para o BTG. Um dos painéis sobre fraudes digitais foi moderado pelo diretor jurídico do BTG.

Os Números Paradoxais

O número total de participantes cresceu de 360 em 2025 para 450 em 2026, um recorde. Mas o total de autoridades brasileiras caiu — a única exceção foi no Legislativo, com dois congressistas a mais.

O código de ética como fator de pressão

O debate sobre o Fórum de Lisboa ganhou força porque coincide com a defesa, por Edson Fachin, de regras mais claras de conduta para ministros do STF. Um dos pontos sensíveis do eventual código seria justamente a transparência na participação de magistrados em eventos que envolvem deslocamentos internacionais, custeio de viagens, hospedagens e convivência com agentes econômicos ou políticos.

O texto do código está sendo preparado pela ministra Cármen Lúcia e pretende definir limites claros sobre a participação de magistrados em eventos sociais e as relações com o setor privado. O tema ainda enfrenta resistência interna no Supremo.

O problema estrutural: Quem patrocina?

Representantes de empresas privadas com processos em tramitação no STF confirmaram presença no evento: BTG, Eletrobras, Grupo Yduqs e Light. Um dos representantes do BTG foi André Esteves — que chegou a ser preso no âmbito da Lava Jato, mas teve o inquérito trancado por Gilmar Mendes, que também anulou os efeitos de operação de busca e apreensão contra o banqueiro. O BTG é parte em dois processos que tramitam no STF.

Além da participação oficial, o BTG promoveu um jantar reservado para autoridades e empresários no luxuoso restaurante SUD Lisboa — um encontro fora da agenda oficial, que já se tornou tradição.

Na edição anterior, em 2025, subiram ao palco CEOs de iFood, Light e SulAmérica, além de diretores da Meta, Bradesco Seguros, Vale, BRF e JBS — todas empresas com ações tramitando no STF. Só o BTG emplacou cinco representantes no evento.

A organização do evento respondeu às críticas dizendo que "a participação de executivos de empresas se dá exclusivamente na condição de palestrantes convidados para contribuir com discussões temáticas de interesse público e sem quaisquer contrapartidas".

Opacidade das agendas paralelas

A ausência de dados objetivos alimenta questionamentos sobre a mistura entre interesses públicos e privados e reforça a percepção de opacidade em um encontro que reúne magistrados, políticos, empresários e advogados em um ambiente fora do alcance dos mecanismos regulares de fiscalização. Também não há informações detalhadas sobre eventuais afastamentos formais de autoridades de suas funções ou sobre o retorno institucional dessas viagens.

A postura de Gilmar diante das críticas

Em entrevista à Folha, Gilmar minimizou o impacto das investigações e rechaçou as críticas: "Estamos fazendo talvez um dos maiores eventos que já fizemos, com mais de 470 palestrantes e disputas por lugar. Talvez pessoas que não queiram ir ao Fórum e queiram ser simpáticas à ideologia estejam ecoando isso, mas não percebemos isso, felizmente."

O custo reputacional

Magistrados ouvidos sob reserva afirmaram que o clima "não está bom" para eventos desse tipo. O evento que já foi símbolo de prestígio e trânsito institucional agora enfrenta a pergunta: até que ponto encontros desse tipo representam diálogo republicano — e a partir de que ponto passam a ser percebidos como confraternização excessiva entre poderes, interesses e influência?

Exilado político questiona ministro Barroso, que responde: “Não sei do que você está falando”

O ex-presidente do STF, Luís Roberto Barroso, foi abordado pelo comunicador Adriano Castro, conhecido como Didi Red Pill, durante o evento GILMARPALLOZA em Portugal. Na gravação divulgada nas redes sociais, Didi questiona o magistrado sobre "o que ele achava do Brasil ter asilados e exilados políticos". Em resposta, Barroso disse: "Eu não sei nem do que você está falando”.

Após a resposta, Didi exibe um passaporte polonês e afirma ter recebido asilo político na Polônia. Durante a abordagem, uma pessoa que acompanhava Barroso tenta interromper a conversa, gerando um breve momento de tensão.

Em outro momento da viagem, Didi também abordou o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Vídeos divulgados nas redes mostram o comunicador fazendo perguntas ao chefe do Ministério Público Federal. Gonet não respondeu aos questionamentos e deixou o local acompanhado por integrantes de sua comitiva, que empurraram o comunicador exilado, Didi.

“Não queremos corruptos em Portugal”, disparou Sérgio Tavares ao abordar Gilmar Mendes

Durante a abordagem ao ministro Gilmar Mendes, Tavares fez uma série de acusações contra o magistrado e o STF. "Não sente vergonha de perseguir um homem inocente num golpe criado por você? De promover censura? De vir a Portugal fazer negócios obscuros e ilícitos e mandar prender um repórter independente como eu? Não queremos corruptos em Portugal. STF, filhos de uma grande put#!", disparou o jornalista diante do ministro.

As declarações foram registradas em vídeo e compartilhadas pelo próprio jornalista em suas redes sociais. Gilmar Mendes não respondeu aos questionamentos e seguiu seu trajeto sem interagir com o jornalista.

Sérgio Tavares tornou-se conhecido por suas críticas ao STF e por cobrir temas relacionados aos desdobramentos dos processos envolvendo os atos de 8 de janeiro e investigados ligados à direita brasileira.

Revolta de Tavares tem motivo

Em fevereiro de 2024, o jornalista português Sérgio Tavares foi retido pela Polícia Federal ao desembarcar no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, onde pretendia cobrir uma manifestação convocada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Ele permaneceu por algumas horas prestando esclarecimentos antes de ser liberado para entrar no país.

Tavares afirmou ter sido alvo de perseguição política e alegou que foi questionado sobre suas opiniões a respeito do STF, do 8 de Janeiro e de outros temas políticos. Já a Polícia Federal declarou que a retenção ocorreu dentro de procedimentos de fiscalização migratória e de segurança, negando qualquer motivação política na abordagem.

Post image

Ministro Alexandre de Moraes, no XIV Fórum de Lisboa.

Ainda no Gilmarpalooza, em 1º de junho de 2026, Alexandre de Moraes defendeu a necessidade de uma regulamentação internacional das big techs, e que isso era urgente. Segundo o ministro, países precisam criar regras conjuntas para obrigar plataformas como Google, Meta, X e TikTok a cumprir decisões judiciais, remover conteúdos considerados ilegais, fornecer dados de usuários quando houver ordem judicial e respeitar as legislações nacionais.

Na avaliação de Moraes, a velocidade do avanço tecnológico pode fazer com que os governos percam a capacidade de controlar o que circula dentro de seus próprios territórios. O ministro argumenta que, sem uma ação coordenada entre os países, empresas de tecnologia poderão se tornar mais poderosas do que os próprios Estados em determinadas áreas, dificultando a aplicação das leis nacionais.

Mas a proposta também gera forte resistência. Embora o combate a crimes digitais seja necessário, uma regulamentação ampla pode abrir caminho para aumento do controle estatal sobre a internet, ampliação da censura e restrições à liberdade de expressão. O receio é que conceitos vagos, como "desinformação", "conteúdo nocivo" ou "discurso antidemocrático", acabem sendo utilizados para justificar a remoção de opiniões legítimas e críticas políticas.

A pauta repercute ainda mais, porque Moraes já esteve envolvido em diversas controvérsias sobre bloqueio de perfis, remoção de publicações, suspensão de contas e determinações direcionadas a plataformas digitais. Para quem pensa como o ministro, essas medidas foram necessárias para combater ataques às instituições e impedir a disseminação de conteúdos criminosos. Para os contrários, porém, elas representam precedentes perigosos que ampliam o poder do Estado sobre a circulação de informações.

Na prática, o que está em discussão vai muito além das empresas de tecnologia. O questionamento em si, é quem deve ter o poder de decidir o que pode ou não permanecer online: as próprias plataformas, os governos, o Judiciário ou uma combinação entre todos eles. Enquanto defensores da regulamentação afirmam que ela é necessária para combater crimes, golpes, exploração infantil e organizações criminosas, opositores alertam que qualquer sistema de controle excessivo pode comprometer direitos fundamentais e enfraquecer a liberdade de expressão.

Por isso, a fala de Moraes atrai uma das discussões mais importantes da era digital: até que ponto é possível regular a internet sem transformar essa regulação em um instrumento de vigilância, controle político ou censura.