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Juiza cita 'misoginia e cultura patriarcal' como justificativa ao conceder perdão a Monique Medeiros

6/12/2026

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Da esquerda para a direita: Juíza Elizabeth Louro lendo a sentença, Henry Borel e Monique Medeiros pós perdão judicial.

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Depois de 11 dias de julgamento, Elizabeth Louro concedeu perdão judicial à mãe de Henry Borel que sabia das torturas que o filho sofria. Jairinho foi condenado a 43 anos de prisão

O julgamento mais longo da história do judiciário fluminense terminou na madrugada de 5 de junho de 2026 com Jairinho condenado a 43 anos de prisão — e Monique Medeiros em liberdade. A decisão da juíza Elizabeth Louro, que invocou o patriarcado e a misoginia para justificar o perdão judicial à mãe do menino, dividiu o país e revoltou o pai da criança, que disse ter visto o filho morrer pela terceira vez.

Às 1h43 da madrugada de quinta-feira, 5 de junho de 2026, a juíza Elizabeth Machado Louro encerrou o que ficou registrado como o julgamento mais longo da história do Tribunal do Júri do Rio de Janeiro. Onze dias de sessões, iniciadas em 25 de maio, culminaram com a condenação do ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, a 43 anos, 9 meses e 20 dias de prisão pela morte do menino Henry Borel Medeiros, de 4 anos, ocorrida em 8 de março de 2021. Mas foi a outra parte da sentença — a que beneficiou Monique Medeiros, mãe da criança — que sacudiu o Brasil.

No caso de Monique, os jurados afastaram a acusação de homicídio doloso e desclassificaram o crime para homicídio culposo. Ela foi considerada responsável por tortura por omissão e recebeu pena de 1 ano e 4 meses de detenção. Apesar da condenação, a juíza concedeu perdão judicial, entendendo que as consequências sofridas por Monique tornaram desnecessária a aplicação de sanção penal.

Na prática, Monique Medeiros deixou a prisão na tarde da mesma quinta-feira, 4 de junho, após a Justiça do Rio de Janeiro expedir o alvará de soltura. A mãe de Henry estava presa no Instituto Penal Talavera Bruce, em Bangu, na zona oeste do Rio.

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https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/06/04/juiza-cita-personalidade-insidiosa-cobranca-por-mae-perfeita-e-reacao-social-em-sentenca-do-caso-henry-borel.ghtml

A Sentença: Jairinho e a "Covardia Desmesurada"

Antes de chegar ao capítulo do perdão, a juíza Elizabeth Louro reservou palavras duras para o ex-vereador. Ao descrever a sentença de Jairinho, a magistrada destacou a violência desproporcional e a rara e desmesurada covardia praticadas contra a criança, que descreveu como doce e bondosa. A juíza afirmou que o condenado possui uma "personalidade insidiosa", capaz de simular gentileza para ocultar uma natureza truculenta e de extrema periculosidade.

Jairinho foi condenado por homicídio triplamente qualificado — por motivo torpe, emprego de meio cruel e uso de recurso que impossibilitou a defesa da vítima —, com aumento de pena pelo fato de Henry ser menor de 14 anos. Ele também foi condenado pelos crimes de tortura e coação no curso do processo. A pena deverá ser cumprida inicialmente em regime fechado. Além disso, ele foi condenado a pagar R$ 400 mil por danos morais ao pai de Henry, Leniel Borel.

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Juíza Elisabeth Louro.

O Perdão e o Discurso Sobre o Patriarcado

Foi no momento de anunciar a decisão sobre Monique que a sentença tomou um rumo que ninguém esperava — ao menos não com essa roupagem argumentativa.

A juíza Elizabeth Louro justificou que Monique já sofreu um castigo severo, o suficiente. A magistrada criticou a "reação desproporcional da sociedade, classificando-a como discriminatória e fruto de uma cultura que exige que a mulher seja uma mãe perfeita". A juíza citou o "massacre nas redes sociais" e as agressões sofridas por Monique no cárcere, afirmando que ela foi alvo de uma perseguição implacável contra sua honra.

Na sentença, segundo relatos presentes na cobertura do julgamento, a magistrada afirmou que Monique foi vítima de misoginia extrema e que, nos cinco anos desde o crime, sofreu perseguição incessante. A juíza tratou o clamor social contra a ré como expressão de um patriarcado que pune a mulher por não ter sido "mãe perfeita" — e usou esse argumento como reforço para o perdão judicial.

A interpretação causou estranheza imediata por uma razão muito concreta: o que está em debate não é se Monique era ou não uma mãe perfeita, nem se a sociedade tem ou não padrões desiguais para cobrar mulheres. O que está documentado nos autos é que ela sabia das agressões, omitiu, obstruiu a investigação e participou ativamente da construção de uma versão falsa para encobrir o crime.

Comportamentos Duvidosos De Monique, Mãe do Henry

A série de atitudes de Monique Medeiros entre a morte do filho e sua prisão forma um retrato que vai muito além da discussão sobre ser ou não uma "mãe perfeita".

No dia 8 de março de 2021, nas primeiras horas após a morte de Henry, enquanto o país ainda não sabia o que havia acontecido, Monique e Jairinho apresentaram à equipe médica do Hospital Barra D'Or a versão do acidente doméstico: a criança teria caído da cama. Era uma mentira. Os próprios médicos estranharam o quadro clínico — as lesões eram incompatíveis com uma queda doméstica.

Após o enterro de Henry, Monique foi ao salão de beleza localizado no shopping Metropolitano, na Barra da Tijuca, onde fez as unhas das mãos e dos pés e escova no cabelo, gastando R$ 240 reais. O comportamento chamou imediata atenção dos investigadores.

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Monique Medeiros, Selfie na delegacia.

Poucos dias depois, no dia em que prestou depoimento sobre a morte do filho na 16ª DP, Monique posou para uma selfie. Na foto, ela aparece relaxada, com os pés sobre uma cadeira e parece esboçar um sorriso ao lado de um homem. A fotografia foi resgatada do celular de Monique e o comportamento da mulher chamou a atenção dos investigadores do caso.

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Thayná de Oliveira Ferreira, Babá com Henry Borel.

Mas o ponto mais grave viria depois. No sétimo dia do julgamento, a babá Thayná de Oliveira Ferreira declarou ao Tribunal do Júri que Monique Medeiros a instruiu a eliminar conversas e esconder informações depois do falecimento do menino, ocorrido em março de 2021. Thayná afirmou ter testemunhado ao menos três situações que considerou estranhas envolvendo Jairinho e Henry. De acordo com seu relato, o padrasto conduzia o menino a um quarto, ficava sozinho com ele por algum tempo e, na sequência, a criança queixava-se de dores.

Thayná declarou que comunicou todas essas situações a Monique Medeiros, seja por meio de mensagens, ligações telefônicas ou conversas presenciais. Além disso, a babá relatou que o próprio Henry informou a mãe, em uma chamada de vídeo, que o "tio" — forma como se referia a Jairinho — tinha batido nele. Ou seja: a criança disse diretamente à mãe que estava sendo agredida. Monique não agiu.

A acusação sustentou que ela ignorou alertas feitos pela babá Thayná Ferreira e sinais relatados pelo próprio Henry sobre supostas agressões praticadas por Jairinho. A babá afirmou que, após a morte do menino, foi orientada a apagar mensagens e minimizar informações sobre a família. (Leia aqui: https://oglobo.globo.com/rio/baba-disse-monique-que-henry-estava-mancando-havia-levado-banda-chute-apos-ter-ficado-no-quarto-com-dr-jairinho-24961166)

Em seu primeiro depoimento, Monique manteve a versão do acidente. Só depois da prisão, quando rompeu com Jairinho, mudou a história. A professora passou a dizer que havia sido orientada a mentir, que não sabia exatamente o que aconteceu naquela noite e que acreditava que o ex-companheiro era o responsável pela morte de Henry.

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Inforgráfico elaborado com base no laudo pericial da polícia.

O Corpo de Henry: O Que o Laudo Revelou

O laudo de necropsia, concluído na tarde do dia 8 de março pelo perito Leonardo Huber, foi devastador. Henry Borel sofreu 23 lesões pelo corpo, segundo os laudos do IML e da reprodução simulada. Peritos descartaram a possibilidade de acidente doméstico com a suposta queda da cama, versão contada por Jairinho e Monique. Segundo o documento, todas as lesões foram "produzidas mediante ação violenta (homicídio)" e aconteceram entre 23h30 e 03h30.

No documento de 36 páginas, assinado por oito peritos criminais, são citadas as 23 lesões encontradas no corpo de Henry, entre elas: escoriações, hematomas, hemorragias em três partes da cabeça, infiltrações, contusões nos rins, pulmão e laceração no fígado. A causa da morte foi hemorragia interna e laceração hepática causada por uma ação contundente.

O perito do IML sustentou que a principal hipótese para a morte de Henry são agressões sofridas pelo menino. Ele descartou que isso possa ter ocorrido por manobras de ressuscitação. Segundo o perito, é difícil afirmar que as lesões são compatíveis a uma queda da cama. "O traumatismo abdominal foi de alta energia. Nos livros de abuso infantil, quedas baixas são difíceis de causar essas lesões. Eu afirmo que o trauma abdominal foi de alta energia, incompatível com a queda da cama", disse.

Em síntese: o fígado de um menino de 4 anos foi literalmente rompido por um golpe de força. O laudo da necropsia revelou que o óbito ocorreu em um intervalo de quatro horas após Henry sofrer hemorragia interna provocada por lesão hepática.

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Imagem da câmera do elevador do prédio – Monique Medeiros com Henry Borel desfalecido , acompanhados de Jairinho.

A Cronologia da Fatídica Noite

No domingo, 7 de março, o engenheiro Leniel Borel deixou seu filho Henry na casa da mãe, na Barra da Tijuca. Por volta das 3h30 da madrugada do dia 8, Monique e Jairinho levaram a criança à emergência do Hospital Barra D'Or. Eles disseram que encontraram o menino caído no chão do quarto, com mãos e pés gelados e olhos revirados.

Às 5h42, as pediatras da unidade de saúde atestaram a morte do menino. Em depoimento, elas garantiram que ele já chegou morto ao hospital, mas foi submetido a tentativas de manobras de reanimação. No começo da tarde, às 12h18, um registro de ocorrência de remoção para verificação de óbito foi feito na 16ª DP (Barra da Tijuca). Às 14h, o corpo de Henry foi levado para o Instituto Médico-Legal, no Centro do Rio. No começo da noite, às 18h24, o perito legista concluiu o exame de necropsia

O resultado sepultou definitivamente a versão do acidente. A criança tinha sido espancada.

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Cristiano Medina, advogado de pai de Henry Borel.

A Manobra que Irritou a Acusação

Para além do conteúdo do perdão, o advogado Cristiano Medina da Rocha, assistente de acusação e representante de Leniel Borel, levantou uma denúncia técnica grave sobre como o julgamento foi conduzido.

De acordo com o escritório do advogado, houve erro na apresentação dos quesitos aos jurados que teria comprometido a decisão sobre o caso. Em entrevista, Cristiano Medina considerou o perdão judicial "uma aberração jurídica".

A alegação é direta: a acusação alega que as perguntas apresentadas aos jurados foram alteradas de forma a induzi-los ao entendimento de que se tratava de homicídio culposo. Na prática, o advogado sustenta que a juíza teria formatado os quesitos de modo a orientar o julgamento dos jurados em direção a uma classificação mais branda do crime de Monique — e que, sem essa interferência, o conselho de sentença teria condenado a professora nos mesmos termos que Jairinho.

O advogado Cristiano Medina da Rocha destacou que a juíza Elizabeth Louro contrariou a decisão inicial do Conselho de Sentença, que votou pela condenação de Monique Medeiros nos mesmos termos que a de Jairinho.

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Leniel Borel, pai de Henry Borel.

"Mataram Meu Filho Pela Terceira Vez"

Leniel Borel não se conteve ao sair do tribunal. Em vídeos publicados em seu Instagram e em declarações à imprensa, ele descreveu o que sentiu como a mais nova violação contra a memória do filho.

O pai do pequeno Henry expressou sua profunda decepção, afirmando que a decisão relativa a Monique representou uma "terceira morte" de seu filho. Ele relembrou uma decisão anterior da juíza que já havia considerado benéfica à mãe.

"Agora venho para vocês falar que mataram o meu filho pela terceira vez. O que foi falado ali agora é que a misoginia matou o Henry. O Henry representa essas milhares de crianças que são vítimas todo dia, e por causa de decisões como essa, se abre precedente para outras mães, genitoras, que possam matar seus filhos, que possam permitir que seus filhos sejam mortos", lamentou Leniel.

A segunda morte, nos termos do pai, havia sido uma decisão anterior da mesma juíza que ele interpretou como favorável à ré. A terceira foi o perdão.

Indignado, Leniel afirmou que vai recorrer da sentença, dizendo que esta decisão abre um precedente para que outras mães permitam que seus filhos sejam mortos.

Recurso no Tribunal Superior

O advogado Cristiano Medina formalizará o pedido de anulação do julgamento. A alegação principal é que os quesitos apresentados aos jurados foram alterados de forma a induzi-los a entender o caso de Monique como homicídio culposo.

A defesa de Jairinho também anunciou intenção de recorrer da condenação, buscando a anulação do júri sob a alegação de que a decisão foi contrária às provas apresentadas durante o processo. Durante os dez dias de julgamento, os advogados do ex-vereador defenderam a tese de que Henry não morreu em decorrência de agressões.

O Ministério Público e a defesa de Jairinho informaram que vão recorrer da decisão.

O Problema do Precedente

O perdão judicial concedido pela juíza Elizabeth Louro é um instituto legítimo do direito penal brasileiro. O problema não está na existência do mecanismo — está na fundamentação escolhida para aplicá-lo neste caso específico.

Usar como argumento central para o perdão o fato de que a sociedade cobrou demais de Monique, que as redes sociais a "massacraram", que o Brasil tem uma cultura de exigir a mãe perfeita — tudo isso ignora algo elementar: o que levou o país à indignação não foi Monique ter falhado enquanto mãe ideal.

Foi ela ter sido informada repetidamente, pela babá e pelo próprio filho, de que a criança estava sendo agredida, e ter escolhido não agir. Foi ela ter ido ao salão de beleza no dia do enterro do filho. Ter sorrido numa selfie na delegacia. Ter mandado a babá apagar mensagens. Ter mentido à polícia enquanto o assassino dormia ao seu lado.

Enquadrar tudo isso como "misoginia da sociedade" não é apenas juridicamente questionável — é uma inversão que usa o vocabulário da proteção das mulheres para proteger alguém que optou, conscientemente, pela inação diante do sofrimento de uma criança de 4 anos.

O perdão judicial é um instituto previsto na legislação penal brasileira, que autoriza o magistrado a deixar de aplicar a pena mesmo após o reconhecimento da prática de uma infração penal. Embora tenha afastado a aplicação da pena, a sentença não eliminou a responsabilização penal de Monique. Mas para Leniel Borel, para a família de Henry, e para parcela expressiva da opinião pública, o efeito prático foi o mesmo: Monique Medeiros dormiu livre na noite em que foi selada a sentença pelo assassinato do filho.

Henry tinha 4 anos. Morreu entre 23h30 e 3h30 de uma madrugada de março, sozinho com os adultos que deveriam protegê-lo. O fígado rompido, 23 lesões no corpo, hemorragia interna. Ninguém chamou socorro a tempo. Ninguém o defendeu e o Estado perdoou quem deveria jamais ter sido omissa. A própria mãe.