Existe uma versão de você que sabe exatamente o que quer dizer. Que tem uma verdade clara na garganta, uma posição formada, uma voz que já nasceu pronta. Mas não diz. Porque tem medo do que vão pensar.
Esse medo tem nome. Às vezes é medo de ser criticada. Às vezes é medo da rejeição, de não ser boa o suficiente, de ocupar espaço demais. Em muitos casos, ele nem chega a ser reconhecido como medo. Esse medo é sutil. Ele se disfarça de prudência, de humildade, de “ainda não é o momento”.
Essa é uma das ferramentas mais eficientes que existem para manter mulheres exatamente onde estão. E funcionou por muito tempo comigo também.
Pouco antes de começar a gravar a série De Governada a Soberana, 43 episódios, um por cada ano de vida, eu precisei me confrontar com três medos que carregava há décadas: medo de ser criticada, medo da rejeição e medo de não ser uma boa mãe.
Não medos abstratos. Todos eles eram concretos, com voz e com história. Eu sabia o que queria dizer. Sabia que tinha experiência real para compartilhar — inclusive a de perder um filho, reconstruir do zero depois de um golpe de R$ 40 milhões e reaprender a me manter de pé sem pedir permissão para ninguém. Mas, enquanto esses medos estavam no comando, o silêncio foi a resposta mais fácil.

Antes de qualquer mudança, existe um momento de silêncio em que o medo precisa ser reconhecido (Foto: Adobe Stock)
Quando decidi cortá-los e me posicionar na vida, para ocupar o meu espaço no mundo, o meu perfil cresceu de forma que eu não imaginava ser possível.
Não conto isso para impressionar. Conto porque a lógica é a mesma para qualquer mulher, em qualquer escala. O medo não protege. Ele paralisa. E a paralisia tem um custo alto em todas as áreas da nossa vida. O medo afeta nossos relacionamentos, nosso crescimento financeiro, nosso corpo, nossa presença na vida.
O papel da mulher na sociedade não está sendo redefinido agora, em março, porque o calendário mandou. Está sendo redefinido toda vez que uma mulher decide parar de pedir licença para existir. Toda vez que ela para de reduzir o que tem a dizer para não parecer arrogante. Toda vez que ela escolhe a verdade em vez da aprovação.
Isso não é coragem de heroína. É uma decisão que se toma uma vez, e depois de novo, e de novo, e de novo. Até que o medo pare de ser o ditador das regras da sua vida.
A versão de você que sabe o que quer dizer está esperando essa decisão.

A mudança acontece quando a decisão de agir se torna maior do que o medo de se expor (Foto: Adobe Stock)
O primeiro passo não é eliminar o medo, é aprender a reconhecê-lo com honestidade. Por isso, a primeira pergunta que eu faço a qualquer mulher que diz estar presa é: isso é meu ou é uma amarra que eu confundi comigo mesma? A maioria das mulheres nunca fez essa distinção. Crescemos sendo moldadas por expectativas de família, de cultura, de relacionamento, e, com o tempo, o que nos foi imposto começa a soar como escolha. O medo de ser criticada, por exemplo, raramente nasce de uma experiência isolada. Ele foi cultivado. Tem raiz. E, quando você para de tratar o medo como parte de quem você é e começa a tratá-lo como um padrão que pode ser identificado, algo muda.
A segunda pergunta é mais incômoda: onde esse medo está te custando mais caro? Não de forma abstrata, mas em concreto. Em quais conversas você recua antes de terminar? Em quais decisões você adia porque “ainda não é a hora”? O medo é inteligente: ele nunca aparece declarado. Ele se veste de bom senso, de humildade, de cuidado com os outros. É só quando você mapeia os lugares onde sua vida está em pausa que começa a ver o tamanho do que está sendo cobrado por essa aparente tranquilidade.
A terceira pergunta é a que muda a direção: qual é a primeira ação que você tomaria se o medo não fosse o critério? Não a transformação inteira, mas o primeiro passo. Essa pergunta retira o medo do centro da decisão. Ele não precisa desaparecer para você agir. Precisa parar de ser o árbitro do seu próximo passo. A ação vem antes da coragem consolidada, não depois. Eu gravei o primeiro episódio da minha série com os três medos ainda presentes. A diferença foi que eles deixaram de ser a última palavra.
Trabalhar essas três perguntas não é exercício terapêutico. É diagnóstico. É a diferença entre uma mulher que fala sobre medo e uma mulher que entende exatamente qual amarra está operando. A partir disso, você pode escolher cortar esse fio de medo que te paralisa. Você não precisa lutar contra o medo. Você precisa de clareza para agir apesar do medo.


