O presidente anunciou uma "decisão final" sobre o Irã para na sexta-feira (29/05). Duas horas depois, o mundo ainda esperava. O que está em jogo é uma das maiores apostas geopolíticas do segundo mandato.
Era perto do meio-dia em Washington quando Donald Trump usou o Truth Social para anunciar que estava a caminho da Sala de Situação da Casa Branca para tomar uma "decisão final" sobre o Irã. O mundo parou. Duas horas depois, a reunião terminou — e nenhuma decisão foi anunciada.
O que parecia ser o desfecho de semanas de negociações virou mais um capítulo da diplomacia Trump: dramático na forma, inconclusivo no resultado.
O histórico recente
Para entender o que está em jogo hoje, é preciso recuar a março. Trump havia dado ao Irã um ultimato para reabrir o Estreito de Ormuz — por onde passa 20% do petróleo mundial —, sob ameaça de ataques a instalações energéticas iranianas. O prazo foi estendido várias vezes, com Trump alternando entre ameaças apocalípticas e sinais de abertura ao diálogo.
Em abril, os EUA realizaram ataques militares a instalações nucleares iranianas. Sob mediação do Paquistão, um cessar-fogo de duas semanas foi anunciado, o Estreito foi reaberto e Teerã entregou uma proposta de dez pontos como base para negociações. Trump a classificou como "viável."
Desde então, as negociações — mediadas por Omã — avançaram em rodadas sucessivas, com Roma sediando uma das mais produtivas. O acordo teria como pilares centrais o abandono definitivo pelo Irã da busca por armas nucleares e a normalização do tráfego no Estreito de Ormuz.
A reunião de hoje
Trump anunciou a convocação da reunião via Truth Social, listando condições que, segundo ele, já estariam previamente acordadas: proibição permanente de armas nucleares para o Irã, abertura do Estreito sem restrições ou pedágios, e definição do destino do urânio enriquecido que o país ainda mantém enterrado em seu território após os ataques americanos de junho de 2025.
Participaram da sessão o secretário de Estado Marco Rubio e o vice-presidente JD Vance. Após duas horas, a Casa Branca emitiu apenas um comunicado lacônico: "O presidente Trump só aceitará um acordo que seja bom para os EUA e satisfaça suas linhas vermelhas. O Irã nunca poderá ter uma arma nuclear."
A versão iraniana
Teerã não ficou em silêncio. Fontes informadas sobre o processo disseram à agência iraniana Fars que Trump teria distorcido as condições em suas publicações, misturando "verdade e mentira" para passar uma imagem de avanço maior do que o real. Um oficial sênior iraniano confirmou à Reuters que existe um "entendimento político" entre os dois países — mas deixou claro que o acordo formal ainda não foi fechado.
O principal ponto de divergência, segundo o New York Times, é o destino dos ativos iranianos congelados nos EUA. Teerã quer o desbloqueio como parte do pacto. Washington resiste.
O que está em jogo
Um acordo com o Irã seria a maior aposta diplomática do segundo mandato Trump — e também o maior risco. Internamente, o presidente enfrenta pressão dos falcões do Partido Republicano, que enxergam qualquer negociação com Teerã como capitulação. Externamente, Israel acompanha cada movimento com desconfiança crescente.
Do outro lado, o Irã de hoje não é o mesmo de 2018, quando Trump abandonou o acordo nuclear. O país sofreu ataques diretos ao seu programa nuclear, perdeu capacidade de enriquecimento de urânio e viu seu poder de dissuasão questionado. A janela para um acordo favorável aos americanos pode ser agora ou nunca.
Trump prometeu uma decisão final. O mundo ouviu duas horas de silêncio.


