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Virgínia Fonseca na mira da PF: o império, o COAF e a sombra do PCC

6/12/2026

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Virgínia Fonseca.

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O que a investigação revelou sobre o maior negócio da influenciadora mais rica do Brasil

O império: quem é Virgínia Fonseca

Nascida em Connecticut, nos Estados Unidos, mas criada em Governador Valadares (MG), Virgínia Pimenta da Fonseca Serrão Costa tem 27 anos e construiu em menos de uma década um dos maiores patrimônios do entretenimento digital brasileiro. Segundo levantamento da Folha de S.Paulo, Virginia tem patrimônio estimado em US$ 78 milhões — cerca de R$ 415 milhões — o que a coloca no topo de um ranking internacional de WAGs mais ricas do mundo, à frente de Victoria Beckham. Outras estimativas chegam a R$ 700 milhões quando considerados todos os ativos.

Com mais de 54 milhões de seguidores no Instagram, ela é hoje a influenciadora digital com maior audiência do Brasil. Seu patrimônio inclui uma mansão em Goiânia avaliada em R$ 4,6 milhões, uma casa na cidade litorânea de Mangaratiba, dois jatinhos — um Citation Excel estimado em R$ 50 milhões e um Cessna Citation Sovereign que custou até R$ 29 milhões. Também possui imóvel no Edify One, empreendimento de alto padrão em Itapema, Santa Catarina, cujos apartamentos variam entre R$ 15,9 milhões e R$ 54 milhões.

Em 2024, estreou como apresentadora no SBT com o programa "Sabadou com Virginia", com salário estimado entre R$ 40 mil e R$ 60 mil mensais.

O negócio: a Wepink e os números bilionários

A marca de cosméticos foi criada em parceria com os empresários Samara Cahanovich Martins e Thiago Stabile. A empresa atingiu faturamento de cerca de R$ 1,3 bilhão em 2025 — crescimento de 73% em um ano, tendo em vista que ela havia declarado faturamento de R$ 750 milhões durante seu depoimento na CPI das Bets, em 2024. O grupo inclui ainda a WPink Suplementos Nutricionais e a Talismã Digital, agência de marketing e produção de conteúdo que Virgínia mantinha em sociedade com o ex-marido, o cantor Zé Felipe, até a separação do casal em maio de 2025.

A CPI das Bets: o primeiro round

Antes da investigação da Polícia Federal, Virgínia já havia passado por um processo de desgaste institucional. A influenciadora foi indiciada no relatório final da CPI das Bets pelos crimes de publicidade enganosa e estelionato. O centro da acusação era o contrato com a plataforma Esportes da Sorte. Segundo o relatório da CPI, a cláusula contratual estabelecia que os ganhos de Virgínia estavam atrelados às perdas incorridas por seus seguidores — ela receberia 30% do lucro líquido gerado para a bet a partir das apostas realizadas por meio do link por ela disponibilizado. O contrato garantia um adiantamento de R$ 50 milhões.

O relatório concluiu que "ao induzir em erro seus milhões de seguidores — que acreditaram que suas apostas eram reais — e obter vantagem indevida, há indícios de que Virgínia tenha cometido o crime de estelionato". No depoimento, Virgínia negou lucrar com as perdas dos seguidores e afirmou que seus contratos "não têm nada de anormal".

Ao final, o Senado rejeitou o relatório e o pedido de indiciamento foi derrubado pela maioria dos membros da comissão. Virgínia saiu sem condenação — mas não saiu sem rastro.

PF entra em campo: o que o COAF encontrou

Os Relatórios de Inteligência Financeira produzidos pelo COAF e anexados à CPI chamaram a atenção de agentes da PF, que passaram a analisar mais profundamente os dados obtidos. A investigação se desdobra em três frentes empresariais distintas.

Frente 1 — Talismã Digital: o depósito do box comercial

A Talismã Digital recebeu R$ 22,4 milhões entre março e setembro de 2024. Do total, R$ 21,4 milhões foram enviados em 44 transações via Pix e R$ 1 milhão em 18 transações via TED — um padrão de fracionamento que acendeu alertas no sistema financeiro.

O ponto mais grave: o principal depositante, a AMP Pay Marketing e Negócios, efetuou cinco remessas via Pix totalizando R$ 17,7 milhões. O Santander notou que, apesar do volume expressivo, a AMP Pay está registrada no Simples Nacional — regime exclusivo para negócios com faturamento anual de até R$ 4,8 milhões, ou R$ 400 mil mensais. Além disso, a empresa está localizada em um box comercial no Centro de Itajaí, Santa Catarina, e aparentava não ter capacidade financeira para movimentar tal volume. A AMP Pay é também investigada por suspeitas de fraude e estelionato em processos judiciais separados.

Frente 2 — WPink Suplementos: R$ 43 milhões em 70 dias

O Mercado Pago comunicou o COAF em março de 2025 sobre operações entre 2 de janeiro e 13 de março do mesmo ano, nas quais os créditos da conta da WPink Suplementos somavam R$ 43,6 milhões e os débitos chegavam a R$ 43,5 milhões em apenas 70 dias. As movimentações foram enquadradas como atípicas porque o volume não condizia com o faturamento mensal documentado pela empresa.

Frente 3 — Wepink Cosméticos: depósitos fracionados no caixa eletrônico

O Banco Itaú alertou o COAF sobre a Savi Cosméticos S.A., razão social da Wepink. Entre novembro de 2023 e maio de 2024, foram identificadas 190 transações, totalizando R$ 502 mil, realizadas por meio de depósitos em caixas eletrônicos de diversas agências. O fracionamento sistemático em pontos diferentes é padrão investigado como possível técnica de pulverização de recursos.

A conexão com o PCC: a sócia que veio antes

Este é o ponto mais delicado da investigação — e o que exige maior precisão jornalística, pois a ligação com o PCC é indireta, mas documentada por apuração da Agência Pública e da Revista Piauí.

A Wepink nasceu da Pink Lash, rede de estética fundada pelo casal Samara Cahanovich Martins e Thiago Stabile — que hoje são sócios de Virgínia. O que a investigação revelou é que a Pink Lash teve uma terceira sócia em seus primeiros anos: Karen de Moura Tanaka Mori, conhecida como "Japa do PCC".

Em entrevista à Piauí, Karen Mori confirmou ter investido R$ 800 mil na abertura da primeira unidade da Pink Lash, em 2017, em São Paulo. Ela afirmou que o dinheiro teria origem na venda de um veículo pertencente ao seu então marido, Wagner Ferreira da Silva, o "Cabelo Duro" — morto e apontado pelas autoridades como integrante do Primeiro Comando da Capital.

Karen Mori participou ativamente da operação da Pink Lash nos primeiros anos e mantinha relação próxima com Samara e Stabile. A sociedade foi desfeita quando os dois desenvolveram a Wepink ao lado de Virgínia. Ou seja: a ligação com o PCC não é direta com Virgínia — passa pelos sócios que ela escolheu, que por sua vez tiveram como sócia original alguém casada com um apontado integrante da organização criminosa.

Questionada, Virgínia afirmou que conheceu Karen Mori em eventos da Pink Lash, mas declarou que não associa pessoas a possíveis envolvimentos de terceiros apenas por relações comerciais ou convivência, que confia nos sócios e que nunca teve motivos para suspeitar deles.

Versão de Virgínia Fonseca

A influenciadora reagiu em duas frentes: pela defesa jurídica e pelas redes sociais. Os advogados negaram qualquer irregularidade e afirmaram que as operações possuem documentação fiscal regular, foram devidamente declaradas aos órgãos competentes e que há justificativas para todas as movimentações.

Sobre os R$ 17,7 milhões da AMP Pay, a defesa afirmou que os valores correspondem a "campanhas publicitárias devidamente contratadas".

Sobre os depósitos fracionados em caixas eletrônicos, os advogados afirmaram que a Talismã Digital utiliza "de forma esporádica o mecanismo de antecipação de recebíveis de cartão de crédito, prática lícita e amplamente adotada no mercado", e que os depósitos em espécie em diferentes agências correspondem a receitas de quiosques físicos da empresa.

Pouco antes da publicação da reportagem da Piauí, Virgínia compartilhou um desabafo nas redes sociais, mas sem mencionar diretamente a investigação.

Até o momento, não há denúncia formal nem acusação apresentada contra Virgínia Fonseca, Zé Felipe ou suas empresas. A abertura de investigação pela PF não representa confirmação de irregularidades — o objetivo é verificar se as movimentações possuem compatibilidade com as atividades declaradas. A investigação está em fase de apuração. Cabe à PF concluir se os elementos justificam eventual indiciamento ou arquivamento.

O que está claro é que o caminho até aqui foi longo: da CPI das Bets ao COAF, dos alertas de três bancos diferentes à abertura formal de inquérito, da sócia original com ligação ao PCC ao depósito milionário de uma empresa num box comercial de Itajaí, enquanto a influenciadora mais rica do Brasil responde a tudo com a mesma frase: tudo declarado, tudo com nota fiscal.