Hayao Miyazaki, um dos principais nomes da animação japonesa e cofundador do Studio Ghibli, é tema do documentário Miyazaki: Espírito da Natureza, que estreou em 29 de julho no canal Curta!. Dirigida por Léo Favier, a produção percorre a vida e a obra do cineasta a partir de uma questão central em seus filmes: a relação entre os seres humanos e a natureza.
Ao longo de mais de quatro décadas como diretor, Miyazaki criou histórias que conquistaram diferentes gerações. Em sua filmografia, florestas, rios e mares não servem apenas de cenário. Eles guardam memórias, reagem às ações humanas e interferem no destino dos personagens.
Uma das cenas que melhor traduz essa visão está em A Viagem de Chihiro. Ao limpar um visitante coberto por uma massa escura e malcheirosa, Chihiro retira de seu corpo uma bicicleta e uma enorme quantidade de lixo. Debaixo da sujeira estava o espírito de um rio.

Hayao Miyazaki em Tóquio, em imagem de arquivo de 1988 (Foto: Canal+ / Divulgação Curta!)
Entre o acolhimento e o conflito
Em Nausicaä do Vale do Vento, de 1984, a civilização tenta sobreviver em um planeta devastado por guerras e contaminação. Uma floresta tóxica desperta o medo dos humanos, mas Nausicaä prefere observá-la antes de combatê-la. Assim, descobre que aquele ecossistema participa da recuperação do planeta.
Em Meu Amigo Totoro, de 1988, a natureza assume um caráter mais afetivo. Enquanto a mãe permanece hospitalizada, as irmãs Satsuki e Mei encontram nas árvores, nos animais e nos caminhos do interior um espaço de descoberta e acolhimento. Totoro pertence a esse mundo que as crianças percebem e os adultos já não conseguem ver.
A relação se torna mais violenta em Princesa Mononoke, de 1997. O avanço da mineração ameaça uma floresta habitada por deuses e animais. Miyazaki, porém, não divide a história entre heróis e vilões. Os humanos destroem, mas também tentam sobreviver. A floresta cura e abriga, mas pode igualmente reagir com violência.
Essa ausência de respostas fáceis atravessa seus filmes. A natureza não é sempre dócil, assim como o progresso não aparece apenas como destruição. Personagens e ambientes carregam interesses, necessidades e contradições.

San ao lado da loba Moro em cena de Princesa Mononoke, animação de Hayao Miyazaki lançada em 1997 (Foto: Studio Ghibli / Divulgação Curta!)
Um mundo compartilhado
Em Ponyo, de 2008, o mar rompe seus limites e transforma a cidade. As ruas ficam submersas, peixes gigantes cruzam antigas avenidas e os moradores precisam se adaptar. O oceano surge como fonte de vida e mudança, mas também como uma força impossível de controlar.
A presença de espíritos em rios, árvores, florestas e animais aproxima a obra de Miyazaki do animismo e de tradições japonesas como o xintoísmo. Nessa visão, os seres humanos fazem parte de uma rede formada por elementos visíveis e invisíveis.
A pesquisadora Shoko Yoneyama define essa abordagem como o “animismo crítico” de Miyazaki. Em artigo publicado em 2021 na revista Theory, Culture & Society, ela mostra como os filmes do diretor questionam a separação entre humanidade, natureza e mundo espiritual.
Miyazaki não transforma essas ideias em lições prontas. Seus personagens precisam observar, escutar e reconhecer aquilo que não conseguem dominar. A convivência surge como uma tentativa difícil, construída em meio a conflitos.
Lançado em 2024, o documentário Miyazaki: Espírito da Natureza integrou a mostra Venice Classics, do Festival de Veneza, e foi exibido no Brasil pelo canal Curta!. Para acompanhar novas exibições, consulte a programação do canal.



