Silencioso, traiçoeiro e potencialmente fatal. O aneurisma cerebral ainda é pouco compreendido pela população, especialmente pelas mulheres, que concentram a maior parte dos casos. Segundo o neurocirurgião Hugo Doria, o aneurisma pode ser comparado a uma bolha em um pneu ou em um encanamento: uma dilatação frágil na parede do vaso sanguíneo. O grande risco está na ruptura dessa bolha, que costuma provocar quadros gravíssimos. Metade dos pacientes não chega ao hospital e, entre os que chegam, muitos ficam com sequelas permanentes.
Uma doença silenciosa, mas não invisível
O aneurisma costuma crescer sem provocar sintomas claros. Na maioria das vezes, não dói e não avisa. Quando os sinais aparecem, eles costumam ser indiretos. Visão dupla, dificuldade na fala, desequilíbrio e alterações na movimentação dos olhos podem surgir quando o aneurisma começa a comprimir nervos ou áreas do cérebro.
Um dos alertas mais importantes é a chamada cefaleia sentinela. Trata-se de uma dor de cabeça súbita, extremamente intensa, descrita por muitos pacientes como um “raio” ou “trovoada” na cabeça. Diferente das dores comuns do dia a dia, ela surge de forma abrupta e exige investigação imediata, pois pode indicar que o aneurisma está prestes a romper.

Exame de imagem permite identificar aneurismas cerebrais antes da ruptura, ampliando as chances de tratamento preventivo (Foto: Adobe Stock)
Menopausa, hormônios e risco aumentado
O recorte feminino é essencial nessa discussão. Os aneurismas cerebrais são mais frequentes em mulheres do que em homens, numa proporção aproximada de três para dois. Além disso, o risco aumenta significativamente após os 50 anos.
De acordo com o especialista, a queda dos hormônios femininos durante o climatério e a menopausa contribui para o enfraquecimento das paredes dos vasos sanguíneos cerebrais, favorecendo tanto o crescimento quanto a ruptura dos aneurismas. Ao contrário do que muitas mulheres acreditam, a terapia de reposição hormonal não é prejudicial nesse contexto específico e pode, inclusive, ser benéfica, desde que bem indicada e acompanhada.
Dor de cabeça é sempre sinal de alerta?
Nem toda dor de cabeça indica aneurisma. A maioria das cefaleias comuns tem início progressivo e evolução gradual. Já a dor relacionada ao aneurisma em risco costuma ser súbita, intensa e fora do padrão habitual da pessoa. Esse é o principal diferencial que deve levar à busca imediata por atendimento médico.
Prevenção começa no cotidiano
Quando se fala em fatores de risco, o tabagismo lidera a lista. Em seguida vêm a hipertensão arterial e um conjunto de hábitos que inclui sedentarismo, obesidade, diabetes, estresse crônico e distúrbios do sono, como a apneia. Dormir mal, explica o médico, gera picos de pressão arterial, libera cortisol e sobrecarrega o cérebro.
Prevenir aneurismas passa por escolhas diárias: não fumar, controlar a pressão, manter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física regular, cuidar do sono e reduzir processos inflamatórios no organismo.
Check-up neurológico e menos cirurgias invasivas

Exames de imagem, como a ressonância magnética, permitem identificar aneurismas cerebrais antes que se tornem uma emergência (Foto: Envato)
Um dos pontos centrais defendidos pelo Dr. Hugo Doria é a importância do check-up neurológico, ainda pouco difundido. Exames como a ressonância magnética são seguros, não utilizam radiação e permitem identificar aneurismas antes que se tornem uma emergência.
O avanço nos métodos diagnósticos, aliado às pesquisas conduzidas pelo médico durante seu doutorado, permitiu diferenciar aneurismas que realmente precisam de cirurgia daqueles que podem ser apenas acompanhados. Esse protocolo reduziu significativamente cirurgias desnecessárias e ajudou a evitar intervenções invasivas em pacientes que não corriam risco imediato.
Quando a cirurgia é indicada antes da ruptura, as chances de cura são altíssimas, chegando a quase 99%, com risco mínimo de sequelas.
Informação também salva vidas
Falar sobre aneurisma cerebral é falar sobre prevenção, autonomia e cuidado com o próprio corpo. Para muitas mulheres, especialmente após os 45 anos, essa informação pode significar a diferença entre um diagnóstico precoce e uma emergência irreversível. Informação, nesse caso, é também uma forma de proteção.

Neurocirurgião Hugo Doria Netto / @drhugodoria (Foto: Bel Crisósttomo / @belcrisosttomo)


