Seria mais fácil se fosse uma crise só. Mas o que se abateu sobre as relações entre Brasil e Estados Unidos nas últimas semanas chegou em camadas, de frentes diferentes, quase ao mesmo tempo. De um lado, Washington ameaça punir o Brasil com tarifas e sanções comerciais por meio da Seção 301, um dispositivo poderoso da legislação americana que coloca exportações brasileiras no fio da navalha.
De outro, o Pix — sistema de pagamentos criado pelo Banco Central e usado diariamente por mais de 150 milhões de brasileiros — virou alvo de investigação americana, pressionado por empresas de cartão de crédito dos EUA que o enxergam como concorrência desleal. E no meio disso tudo, uma crise diplomática de outra natureza: Washington expulsou um delegado da Polícia Federal brasileira que havia colaborado para a prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem, condenado pelo STF por envolvimento na trama golpista. Lula foi informado da expulsão enquanto estava na Alemanha. Sua resposta foi imediata: "Eles fizeram conosco, a gente vai fazer com eles."
A arma comercial que Trump sacou
A Seção 301 da Lei de Comércio americana de 1974 é, na prática, uma licença para retaliar. Ela permite que o Escritório do Representante Comercial dos EUA — o USTR — investigue práticas de outros países considerados "irracionais ou discriminatórias" para empresas americanas e, se concluir que há irregularidade, imponha tarifas, restrições de importação e sanções unilaterais. Já foi usada contra China, Japão, Índia e União Europeia. Agora, o Brasil está na lista.
A primeira investigação foi aberta em julho de 2025. Em março de 2026, Trump ampliou o escopo, incluindo o Brasil em uma nova rodada que abrange 60 países e mira suspeitas de uso de trabalho forçado em cadeias produtivas. O representante comercial americano, Jamieson Greer, foi direto ao ponto: quer encerrar o processo "em meses". O Brasil pediu que os EUA não avançassem.
A investigação prosseguiu. O processo inclui uma lista longa de acusações: tarifas consideradas excessivas sobre produtos americanos, barreiras ao etanol dos EUA, problemas com propriedade intelectual, desmatamento ilegal e restrições ao comércio digital. Cada item, por si só, já seria motivo de tensão. Juntos, formam um dossiê que coloca as exportações brasileiras — do agronegócio à indústria — sob ameaça concreta de retaliação.
O pix que incomoda Wall Street
O capítulo mais inusitado da crise tem protagonista improvável: o Pix. O sistema de pagamentos instantâneos criados pelo Banco Central brasileiro em 2020, gratuito para pessoas físicas e amplamente adotado no país, foi incluído na investigação da Seção 301 após pressão de empresas americanas de cartão de crédito. O argumento é que o Banco Central concede tratamento preferencial ao sistema, criando barreiras para players estrangeiros do setor financeiro.
Em reuniões em Washington na semana passada, uma delegação do Itamaraty passou dois dias respondendo questionamentos técnicos e jurídicos do governo americano sobre o tema. O chanceler Mauro Vieira assinou nota criticando o caráter unilateral da Seção 301 e defendendo que disputas comerciais sejam tratadas no âmbito da OMC. Lula foi mais direto: afirmou publicamente que o Brasil não vai alterar o Pix. Mas a pressão segue — e o prazo para que os EUA decidam seus próximos passos está próximo.
Ramagem, a expulsão e o estopim diplomático
Se a disputa comercial já era suficiente para tensionar a relação bilateral, o caso Ramagem acrescentou combustível político à fogueira. Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin e ex-deputado federal condenado pelo STF a 16 anos de prisão por envolvimento na tentativa de golpe de Estado, fugiu do Brasil após a condenação e passou a residir nos Estados Unidos. Em abril, foi detido pelo serviço de imigração americano em Orlando — resultado, segundo a PF, de cooperação policial internacional. Dois dias depois, foi solto. Agradeceu ao governo Trump nas redes sociais.
O delegado da Polícia Federal que havia atuado nessa cooperação, Marcelo Ivo de Carvalho, recebeu então a ordem de deixar o território americano. O Departamento de Estado confirmou o pedido sem maiores explicações. A mensagem implícita era clara: Washington não gostou da prisão de um aliado de Bolsonaro.
Lula, ao saber da notícia na Alemanha, não mediu palavras. Em seguida, determinou a expulsão de um agente americano que atuava no Brasil — e anunciou a contratação de mil novos agentes da PF para reforço em portos, aeroportos e fronteiras. O Itamaraty convocou a encarregada de negócios da Embaixada americana em Brasília. A crise diplomática estava instalada.
O cálculo político de Lula
Há uma leitura interna no Planalto sobre o que está acontecendo, e ela não ignora o calendário eleitoral. Com a eleição presidencial marcada para outubro e Flávio Bolsonaro pressionando nas pesquisas, o governo avalia que um confronto público com Trump tem retorno político: fortalece a imagem de Lula como defensor da soberania nacional e dificulta o discurso do adversário de que o PT seria fraco diante dos EUA.
O risco é real. Ao subir o tom contra Washington, Lula coloca em risco as negociações comerciais que poderiam afastar as sanções da Seção 301. Uma conclusão desfavorável do processo americano teria impacto direto sobre exportações do agronegócio, da indústria e da tecnologia — exatamente nos setores que mais geram empregos e divisas. A diplomacia brasileira tenta equilibrar os dois objetivos ao mesmo tempo: mostrar firmeza publicamente e negociar tecnicamente nos bastidores. É uma aposta de alto risco. E o governo sabe disso.
O que pode vir pela frente
Se os EUA concluírem a investigação da Seção 301 de forma desfavorável ao Brasil, as consequências práticas podem incluir tarifas adicionais sobre produtos brasileiros, restrições à importação e suspensão de benefícios comerciais — afetando diretamente setores como suco de laranja, café, aço, etanol e serviços digitais. O Congresso Nacional já aprovou a Lei da Reciprocidade Econômica, que autoriza o Brasil a adotar contramedidas — um sinal de que Brasília não pretende absorver eventuais sanções sem resposta.
A relação entre os dois países chegou a um ponto de inflexão. De um lado, a maior potência do mundo com uma agenda protecionista e aliados políticos presos ou foragidos. Do outro, um governo que negocia nos bastidores enquanto sobe o tom nos palanques. Entre os dois, bilhões de dólares em comércio bilateral e uma eleição que pode redefinir os rumos do Brasil. O desfecho está em aberto. O que já está claro é que a conta dessa crise, qualquer que seja ela, chegará antes de outubro.
Nota: Esta análise é baseada em declarações oficiais dos governos brasileiro e americano, documentos do USTR e Itamaraty, e informações publicadas por agências de notícias referentes ao período de julho de 2025 a abril de 2026.



