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Brasil entra em 2027 com dívida em alta, juros sufocando a economia e um próximo governo sem margem

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4/28/2026

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Imagem: Divulgação/Sindifiscal

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Ou corta gastos e recupera a confiança, ou enfrenta uma crise fiscal de grandes proporções

Entre janeiro de 2023 e abril de 2026, o Brasil entrou em um dos períodos econômicos mais contraditórios da sua história recente. Os dados oficiais indicam melhora em indicadores importantes, especialmente no mercado de trabalho. Mas, ao mesmo tempo, a percepção da população aponta para um cenário de dificuldade, perda de poder de compra e insegurança financeira. Essa contradição está nos próprios números.

Segundo o IBGE, o Brasil atingiu, ao longo de 2025, a menor taxa de desemprego desde o início da série histórica em 2012, encerrando o ano na casa dos 5% e mantendo esse patamar no início de 2026. O país chegou a cerca de 103 milhões de pessoas ocupadas, um recorde absoluto.

À primeira vista, isso indicaria uma economia aquecida e em recuperação consistente, mas o mesmo conjunto de dados revela um problema estrutural: cerca de 37% da força de trabalho permanece na informalidade, e mais de 16 milhões de brasileiros estão em condição de subutilização, ou seja, trabalham menos do que poderiam ou gostariam. isso muda completamente a leitura.

O Brasil não está apenas gerando emprego, está gerando, em grande parte, ocupações de baixa qualidade, com renda instável e pouca segurança. E é exatamente por isso que o brasileiro comum não sente essa melhora que aparece nos indicadores.

O QUE ESTÁ POR TRÁS DA QUEDA DO DESEMPREGO

Desde o início, o argumento é direto: a queda recente da taxa de desemprego não necessariamente reflete geração real de empregos, mas também um efeito estatístico ligado à saída de pessoas da força de trabalho, muitas delas após passarem a receber benefícios como o Bolsa Família.

O mecanismo é simples. Antes, uma pessoa sem renda estava procurando emprego e, portanto, era contabilizada como desempregada. Depois, ao passar a receber o benefício, pode deixar de procurar trabalho e, com isso, deixa de ser considerada desempregada. Ou seja, sai tanto do número de desempregados quanto da própria força de trabalho.

Na prática, isso altera a conta da taxa de desemprego. Como o indicador considera apenas quem está procurando emprego, quando parte dessas pessoas sai da busca, o número total diminui e a taxa cai, mesmo sem aumento real de vagas.

Um exemplo ajuda a entender: imagine um grupo em que 33% estão desempregados. Se 15 dessas pessoas deixam de procurar emprego após receber o benefício, elas saem da conta. Sem que novos empregos sejam criados, a taxa pode cair para algo como 20%, apenas por efeito matemático.

Os próprios dados ajudam a ilustrar essa dinâmica. O número de ocupados ficou praticamente estável, em torno de 103 milhões de pessoas, enquanto a população fora da força de trabalho cresceu cerca de 2 milhões. Ainda assim, a taxa de desemprego caiu de 6,6% para aproximadamente 5,1%.

A leitura que surge desse cenário é que a queda do desemprego não foi puxada, majoritariamente, pela criação de empregos, mas por mudanças na composição da força de trabalho.

Em outras palavras, não é apenas o mercado que mudou, é também a forma como ele está sendo medido.

Para entender como chegamos até aqui, é necessário voltar ao ponto de partida.

Ao fim de 2022, o governo de Jair Bolsonaro entregou um superávit primário de R$ 54,9 bilhões — o primeiro em quase uma década. Segundo o Tribunal de Contas da União, as contas foram aprovadas com ressalvas, indicando que, embora houvesse distorções (como postergação de precatórios e aumento de restos a pagar), o resultado fiscal era formalmente positivo.

A dívida pública naquele momento estava em torno de 71,7% do PIB, após ter recuado do pico da pandemia. O país ainda tinha problemas estruturais graves, mas a trajetória fiscal apontava para estabilização no curto prazo.

Esse foi o cenário herdado pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva em janeiro de 2023.

A partir daí, a estratégia mudou.

O governo optou por expandir gastos públicos, recompor programas sociais, aumentar investimentos e estimular a economia via consumo. Para isso, abandonou o antigo Teto de Gastos e implementou um novo modelo, o chamado Arcabouço Fiscal, com regras mais flexíveis. Na prática, o que se viu foi um crescimento acelerado das despesas.

Em 2023, o Brasil registrou um déficit primário de aproximadamente R$ 230 bilhões. Em 2024, o governo conseguiu reduzir o número oficialmente, mas com exclusões e ajustes que mantiveram o desequilíbrio estrutural. Em 2025, o problema se ampliou com o aumento do custo da dívida, impulsionado pelos juros elevados. Com isso, o governo passou a sustentar parte do crescimento econômico via gasto público, o que nos levou de volta ao mercado de trabalho.

O emprego cresceu, mas não de forma estrutural:

Com mais dinheiro circulando na economia, o consumo se manteve aquecido, o que gerou ocupações, principalmente em setores de serviços e atividades informais. Isso explica por que o desemprego caiu mesmo em um cenário de fragilidade fiscal. Mas esse modelo tem limite.

O aumento contínuo de gastos pressiona o equilíbrio das contas públicas. E quando o mercado percebe risco fiscal maior, a reação vem em forma de juros mais altos, crédito mais caro e maior instabilidade cambial, e é exatamente isso que o brasileiro sente no dia a dia.

Mesmo com mais gente trabalhando, o cenário é de dificuldade: o crédito continua caro, o custo de vida pesa e a renda não acompanha o ritmo das despesas. A sensação generalizada é de estagnação, e ela não está errada.

O Brasil, hoje, vive um descompasso claro entre o que os números mostram e o que a população experimenta.

Os dados indicam melhora no emprego. Mas a qualidade desse emprego é limitada. O crescimento econômico existe, mas é sustentado por estímulos que
aumentam o risco fiscal. E a consequência disso aparece na forma de juros elevados e perda de poder de compra.

Esse tipo de dinâmica cria um ciclo perigoso: o governo gasta para estimular a economia. A economia reage no curto prazo. O emprego melhora. Mas o custo fiscal cresce. Isso pressiona juros e dívida. E, no médio prazo, o próprio crescimento começa a perder força, ou seja, o ponto central não é ideológico, é matemático.

O Brasil continua gastando mais do que pode sustentar no longo prazo. E embora isso gere efeitos positivos imediatos, como a redução do desemprego, também constrói um cenário mais frágil para os próximos anos.

As projeções indicam que a dívida pública seguirá em trajetória de alta até o fim de 2026, podendo se aproximar de 85% do PIB. Isso significa menos espaço para investimento público, maior dependência de financiamento e maior sensibilidade a crises externas.

O próximo governo, independentemente de quem vença as eleições, herdará um cenário mais complexo do que o encontrado em 2023.

Com dívida mais alta, juros ainda elevados e despesas rígidas, a margem de manobra será menor. Ajustes serão inevitáveis — seja por decisão política ou por pressão do próprio mercado.

No fim das contas, o Brasil de 2026 não é um país em colapso, mas também está longe de uma trajetória confortável.

É um país onde:

• o emprego cresce, mas não garante estabilidade;

• a economia gira, mas com base frágil;

• e as contas públicas seguem pressionadas.

A diferença entre o discurso e a realidade está justamente aí. O problema não é apenas gerar crescimento, é garantir que ele seja sustentável, e hoje, os dados mostram que essa sustentabilidade ainda está longe de ser uma certeza.

O CAMINHO PARA EVITAR A CRISE

O Brasil não precisa escolher entre crescer ou ajustar, precisa fazer os dois com base sólida. O próximo governo terá que agir rápido para recuperar a confiança,
começando por uma regra fiscal clara e respeitada, sem exceções que enfraqueçam o controle de gastos. Também será necessário conter o crescimento das despesas, não cortando o essencial, mas revisando excessos, subsídios e ineficiências que pressionam o orçamento.

Sem uma reforma administrativa, o problema continuará se repetindo, já que o custo do Estado segue alto e rígido. Ao mesmo tempo, o ajuste fiscal é o único caminho para reduzir juros de forma sustentável, quebrando o ciclo de dívida cara e crescimento travado. Mais do que gerar empregos, será preciso melhorar a qualidade deles, com foco em produtividade e renda real.

Preservar o que funciona — como a autonomia do Banco Central do Brasil e avanços institucionais — também será essencial. No fim, o ajuste vai acontecer de qualquer forma: de maneira organizada, com menor impacto, ou forçado, com mais dor econômica. O Brasil ainda tem saída, mas ela depende de decisões difíceis agora para evitar uma crise maior depois.