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Cecé Gedeon, 100 anos de vida bem vivida

Por
Surama de Castro

3/23/2026

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Cecé Gedeon aos 100 anos: curiosidade pela vida, disciplina e alegria como parte da rotina (Foto: Arquivo pessoal)

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Às vésperas dos 100 anos, a publicitária maranhense Cecé Gedeon compartilha memórias e reflexões sobre vida, trabalho e longevidade

Há uma simplicidade na forma como Cecé Gedeon fala sobre a própria trajetória que contrasta com a extensão do tempo que ela atravessou. Ao olhar para quase 100 anos de história, ela resume a maior aventura de sua vida em uma única palavra: “viver”.

Publicitária maranhense e pioneira em sua geração, Cecé construiu parte importante de sua trajetória profissional no Rio de Janeiro e em São Paulo, em um período em que a presença feminina no mercado de trabalho ainda era limitada. Sua vida foi marcada por deslocamentos, recomeços e decisões tomadas em contextos que exigiam firmeza e autonomia.

Viúva ainda jovem, precisou reconstruir caminhos em diferentes momentos. A experiência, no entanto, não a afastou do mundo. Ao contrário, reforçou uma postura que ela mantém até hoje: atenção constante à vida e às pessoas.

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Cecé mantém uma rotina ativa e vê no equilíbrio entre corpo, mente e espírito um caminho para a longevidade (Foto: Arquivo pessoal)

Quando fala sobre a força necessária para seguir, Cecé não recorre a explicações complexas. A resposta é direta e revela um princípio que atravessa toda a sua trajetória: “fazer o que é certo”. Essa orientação, mais do que um valor abstrato, aparece como uma prática cotidiana.

Ao longo de quase um século, acompanhou transformações profundas na sociedade. Para ela, a percepção de que o mundo estava, de fato, mudando de forma mais evidente surgiu na década de 1960. É a partir desse período que identifica uma inflexão nas formas de viver, trabalhar e se relacionar.

Se pudesse voltar no tempo e conversar com a jovem Cecé de 20 anos, o conselho seria simples e direto: “Ser natural, manter a ética nas atitudes e permanecer atenta à universalidade do ser humano". A ideia de que existe algo comum que conecta as pessoas, independentemente das circunstâncias, aparece como uma das bases de sua forma de ver o mundo.

Essa mesma perspectiva ajuda a explicar sua curiosidade constante. Para Cecé, o interesse pela vida não é algo que se perde com o tempo, mas algo que se cultiva. Amar a vida, para ela, é reconhecer seu valor e sua dimensão, entendendo-a como parte de algo maior. “Amar a vida como um dom divino; tratá-la como um elo que nos liga à eternidade”.

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Vaidade, cuidado pessoal e bom humor continuam fazendo parte da vida de Cecé (Foto: Arquivo pessoal)

Entre as muitas memórias acumuladas ao longo das décadas, há momentos que permanecem intactos. O nascimento do primeiro filho é um deles, lembrado como um marco afetivo que atravessa o tempo sem perder intensidade.

Ao falar sobre longevidade, Cecé não aponta um único fator determinante. "Corpo ativo, mente aberta e coração leve fazem parte de um mesmo equilíbrio”. Não se trata de escolher um caminho, mas de sustentar os três ao longo do tempo. 

O amor, por sua vez, permanece como um eixo central de sua visão de mundo. “Por definição, amor é afeição. Pode ser afeto ou atração entre duas pessoas. Pode ser um sentimento fraterno, universal, um sentimento que a todos iguala”. Ao mesmo tempo, Cecé observa que esse sentimento parece mais raro no presente, como se tivesse perdido espaço no mundo contemporâneo. “Generalizando, é um nobre sentimento, escasso hoje em dia”.

Essa percepção aparece também quando fala sobre o futuro. Em sua visão, a ciência e a tecnologia avançam de forma abrangente, mas nem sempre caminham junto com os sentimentos e os sonhos. Ainda assim, sua mensagem não é de ruptura, mas de orientação: manter a simplicidade nos sentimentos e a ética nas atitudes.

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Manter o corpo ativo é um dos hábitos que Cecé associa à vida longa e saudável (Foto: Arquivo pessoal)

Celebrar, para ela, não é um gesto ocasional, mas uma postura contínua. É essa combinação entre entusiasmo e fé que sustenta sua vitalidade, sua lucidez e sua presença no mundo.

Ao completar 100 anos, ela também revela o que considera o verdadeiro segredo da longevidade. Não se trata apenas do que se come, mas da forma como se vive. “Celebrar a vida com entusiasmo e fé é o que me mantém como sou: lúcida e saudável. Alimento-me frugalmente, e isso ajuda”.