A história de D. Afonso VI, segundo rei da dinastia de Bragança, é marcada por contrastes notáveis. Nascido a 21 de agosto de 1643, em Lisboa, Afonso era o segundo filho de D. João IV, o Restaurador, e de D. Luísa de Gusmão. Herdou o trono aos treze anos de idade, em 1656, após a morte do pai, num período ainda instável para a recém-restaurada independência portuguesa.
A infância de Afonso foi marcada por doença e isolamento, o que moldou sua personalidade e dificultou sua preparação para os encargos do governo. Aos três anos, sofreu um ataque que lhe causou paralisia parcial do lado esquerdo do corpo e sérios comprometimentos neurológicos, afetando sua coordenação motora e, possivelmente, suas faculdades mentais. Com o falecimento de D. João IV, a regência ficou a cargo de sua mãe, D. Luísa de Gusmão, que governou com habilidade durante os anos de juventude do rei. A rainha-mãe procurou manter a paz interna e conduzir o país através das últimas fases da Guerra da Restauração contra a Espanha.
A maior glória do reinado de D. Afonso VI foi justamente a vitória final nessa guerra. Em 1665, as forças portuguesas venceram os espanhóis na decisiva Batalha de Montes Claros, consolidando a independência nacional. Com esse feito, o reino garantiu não apenas sua soberania, mas também o reconhecimento internacional. A assinatura do Tratado de Lisboa em 1668 pelos espanhóis, já durante a regência do seu irmão D. Pedro, selou esse feito histórico. Apesar de ter pouco envolvimento direto nos aspectos estratégicos da guerra, a vitória foi celebrada durante seu reinado e incorporada à sua imagem como monarca.

D. Afonso VI, retrato oficial do século XVII. A iconografia régia buscava afirmar autoridade e continuidade dinástica em um período de tensões internas e guerras de independência (Foto: WikiCommons)
No entanto, os problemas pessoais de D. Afonso VI rapidamente se tornaram entraves à sua autoridade. Impulsivo, instável e facilmente influenciado, cercou-se de cortesãos que manipulavam suas decisões em benefício próprio. Um desses personagens foi o conde de Castelo Melhor, que teve grande influência sobre o rei por vários anos. Embora tenha sido um hábil administrador, Castelo Melhor também alimentou intrigas e rivalidades na corte, provocando reações adversas entre os nobres e a própria família real.
Em 1666, o rei casou-se com Maria Francisca de Saboia, uma princesa francesa escolhida como parte de uma aliança estratégica com a França. O casamento, no entanto, foi um desastre desde o início. Maria Francisca afirmou que o rei era impotente, e solicitou a anulação do matrimônio. O episódio virou um escândalo internacional, e teve consequências diretas no cenário político português. Em 1667, com o apoio da ex-rainha, o infante D. Pedro, irmão de Afonso, assumiu a regência do reino, alegando incapacidade mental e física do rei.

D. Afonso VI preso no Palácio de Sintra, ilustração de Roque Gameiro (1917). A cena simboliza o afastamento definitivo do poder e o destino solitário do monarca após a regência assumir o controle do reino (Foto: WikiCommons)
D. Afonso VI foi então deposto na prática, embora mantivesse o título de rei até sua morte. Foi afastado do poder, inicialmente exilado no Palácio de Sintra, e mais tarde transferido para o Mosteiro de São João Batista em Alcobaça, onde viveu sob estreita vigilância. D. Pedro II assumiria oficialmente como rei em 1683, após a morte do irmão, mas de fato já exercia a função de chefe de Estado desde 1668.
Durante seu confinamento, Afonso VI permaneceu afastado da vida pública, embora mantivesse ainda o apoio de alguns poucos leais. A sua deposição não passou sem controvérsia: muitos viam nela uma manobra política do irmão e da aristocracia para consolidar o poder. A imagem de Afonso ficou dividida entre a figura de um soberano frágil e desajustado e a de uma vítima de um golpe palaciano.
Apesar de seu reinado ser marcado por desorganização administrativa e instabilidade interna, foi também um período de afirmação nacional e prestígio externo. O reconhecimento da independência portuguesa pela Espanha não teria sido possível sem os esforços militares do período, ainda que Afonso não os comandasse diretamente. A conjuntura internacional também foi habilmente aproveitada pela diplomacia portuguesa, especialmente com alianças estabelecidas com a França e a Inglaterra.
Culturalmente, seu reinado teve pouca expressão, em parte devido à curta duração do exercício pleno de poder e à natureza instável de sua corte. Ainda assim, o ambiente palaciano era reflexo das mudanças sociais da Europa do século XVII: marcadamente barroco, com festas, opulência, e também disputas por influência. A falta de um herdeiro também foi um ponto crítico, deixando espaço livre para a ascensão do irmão.
A figura trágica de D. Afonso VI permanece como uma das mais enigmáticas da história portuguesa. Foi um rei coroado durante um momento decisivo para o país, mas cujas incapacidades o afastaram do poder. Seu destino solitário contrasta com as glórias militares e diplomáticas que marcaram o período. Até hoje, sua vida suscita reflexões sobre legitimidade, poder e vulnerabilidade no exercício da monarquia.
D. Afonso VI faleceu em 12 de setembro de 1683, aos 40 anos, sem jamais ter reconquistado sua autoridade. Seu corpo foi sepultado no Panteão dos Braganças, mas sua memória histórica continua viva nas páginas contraditórias da monarquia portuguesa. Um rei entre a glória e a sombra, cuja vida representa um capítulo essencial, e pouco convencional, da história nacional.


