Esses dias gravei um vídeo me lembrando de uma fase gostosa da infância, comer goiabas na parte mais alta da goiabeira. Isso me fez me conectar com uma alegria genuína da infância, quando subir na árvore, sentir o sol na pele e morder a fruta ainda quente não era "produtividade", não era conteúdo, não era performance. Era simplesmente viver. E foi nesse resgate que entendi algo poderoso: perdemos a capacidade de contemplar a vida quando substituímos o ser pelo fazer.
A alegria genuína da infância não tem culpa, não tem medo, não tem pressa. Ela existe porque sim, porque a vida pulsa e isso basta. Quando viramos adultas, especialmente nós mulheres, essa capacidade de contemplação é sequestrada por uma enxurrada de cobranças. Precisamos performar, produzir, provar que merecemos estar aqui. E assim, deixamos de florescer no feminino para sobreviver sempre buscando provar algo para alguém. Nossa mente sempre querendo distorcer nosso valor acaba nos deixando sobrecarregadas.
Resgatar a alegria da infância não é sobre nostalgia ou fugir da realidade adulta. É sobre recuperar a arte da contemplação diária como ferramenta de florescimento. É reconectar mente e coração, que na infância caminham juntos e na vida adulta se separam. Quando contemplamos, nos permitimos estar presentes sem julgar, sentir sem analisar, existir sem justificar.
Contemplar é muito mais simples do que parece, e por isso vou trazer aqui três exercícios que vão te ajudar a inserir isso no seu dia a dia.
Três exercícios para resgatar sua contemplação diária
1. O ritual dos 3 minutos sagrados ao acordar

Contemplar é permitir que o dia comece antes das urgências (Foto: Canva)
Antes de pegar o celular, antes de planejar o dia, sente-se na cama e olhe pela janela. Não pense, apenas observe. Deixe seus olhos descansarem numa árvore, numa nuvem, num pássaro. Respire fundo três vezes e permita-se estar ali, apenas ali. Esse ritual cria uma ponte neural entre o estado sonolento (onde o subconsciente está aberto) e a vigília, ancorando seu dia num estado de presença ao invés de reatividade.
2. Comer como quem descobre o mundo pela primeira vez
Escolha uma refeição por dia para fazer conscientemente. Não a refeição perfeita, instagramável ou funcional. A refeição real. Desligue notificações, sente-se confortavelmente e observe as cores, os cheiros, as texturas antes de comer. Mastigue devagar, perceba os sabores se revelando. Lembre-se de quando criança você mordia uma fruta e aquilo era uma experiência completa, não uma pausa entre tarefas. Esse exercício reconecta você com o prazer sem culpa e com a gratidão pelo que é simples.
3. O passeio sem destino
Uma vez por semana, caminhe por 15 minutos sem objetivo. Não para exercitar, não para ir a algum lugar. Caminhe porque sim, deixando os olhos vagarem, notando detalhes que normalmente passariam despercebidos: uma flor crescendo entre o concreto, o desenho das nuvens, a forma como a luz bate numa parede. Permita-se parar quando algo chamar sua atenção. Esse exercício resgata a curiosidade natural da infância e treina seu sistema nervoso a desacelerar sem culpa.
O florescimento feminino acontece na contemplação

Estar presente também é um gesto de criação silenciosa (Foto: Canva)
Quando contemplamos, saímos do modo "urgência permanente" e entramos no tempo feminino, que é cíclico, orgânico, respeitoso com os próprios ritmos. A cultura nos ensinou que parar é fracassar, mas na natureza feminina, parar para contemplar é justamente onde está o poder de criar.
Cada vez que você se permite esses momentos de contemplação diária, está reprogramando a crença de que precisa provar seu valor através da produtividade incessante. Está dizendo ao seu sistema nervoso que é seguro estar presente, que você merece alegria sem justificativas.
A goiaba no pé continua lá, esperando. A diferença é que agora, como adultas conscientes, podemos escolher subir na árvore novamente, não para voltar ao passado, mas para trazer aquela sabedoria da criança que você foi para a mulher que você é. E quando você faz isso, algo muda: você deixa de viver para conquistar e passa a viver para florescer.
E florescimento, ao contrário do que nos ensinaram, não acontece na correria. Ele acontece na contemplação diária.


