O governo federal gastou R$ 350,2 milhões para alugar dois navios de cruzeiro que serviram de hotel flutuante durante a COP30 — a grande conferência climática da ONU realizada em Belém (PA) entre os dias 10 e 21 de novembro de 2025. O valor consta em documento oficial da Casa Civil enviado à Câmara dos Deputados.
Segundo o governo, a medida foi necessária diante da limitação da rede hoteleira de Belém para absorver a demanda gerada pelo evento internacional, que atraiu visitantes do Brasil e do exterior. Em outras palavras: Belém não tinha hotéis suficientes para acomodar tanta gente importante.
A Embratur não alugou os navios diretamente. A agência estatal contratou a "Qualitours Agência de Viagens e Turismo Ltda", que fretou os navios de duas empresas conhecidas no mercado: a MSC Cruzeiros e a Costa Cruzeiros. A Qualitours pertence ao empresário Marcelo Cohen.
Marcelo Cohen é apontado como sócio do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do encrencado Banco Master, no hotel de luxo Botanique, localizado na turística cidade de Campos do Jordão (SP). Ou seja: a empresa que recebeu centenas de milhões do governo tem dono com laços próximos a um banqueiro que está no centro de uma crise financeira no país.
Segundo a EMBRATUR, através de uma nota à imprensa, a contratação "seguiu todos os trâmites legais", ou seja, quem disse que o aluguel dos navios foi "legal" foi o órgão do próprio governo que fez o contrato — não uma autoridade independente. Ainda segundo a nota, a Embratur ressaltou que não houve participação do Banco Master na operação, e que a estruturação financeira foi garantida pelo banco BTG Pactual, por meio de carta fiança.
O que disse o TCU?
O contrato foi auditado pelo Tribunal de Contas da União. Por decisão unânime, o plenário do TCU considerou a contratação regular. A Corte apontou que o custo final ficou abaixo do teto inicialmente previsto, estimado em R$ 454 milhões após ajustes contratuais, e que o modelo adotado se mostrou economicamente mais vantajoso do que o fretamento direto dos navios, que exigiria pagamento antecipado em moeda estrangeira.
O TCU aprovou, o processo foi público e o valor final foi menor do que o previsto. Mas a proximidade entre o dono da empresa contratada e o banqueiro Daniel Vorcaro — figura controversa no cenário financeiro brasileiro — alimenta questionamentos sobre quem se beneficia dos grandes contratos do governo federal.



