Comportamento

Love bombing existe ou virou mais um rótulo das redes sociais

7/30/2026

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O termo love bombing ganhou popularidade nas redes sociais e passou a fazer parte das conversas sobre relacionamentos (Foto: Adobe Stock)

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O termo ganhou força no TikTok e no Instagram para descrever demonstrações intensas de afeto no início de um relacionamento. Mas até que ponto ele é reconhecido pela psicologia?

Em poucos anos, o termo love bombing ganhou espaço nas redes sociais. Vídeos curtos, podcasts e influenciadores passaram a usá-lo para descrever demonstrações intensas de afeto no início de um relacionamento, geralmente associadas à manipulação emocional. Mas até que ponto esse conceito encontra respaldo na literatura científica?

O uso da expressão ganhou notoriedade na década de 1970, associado à Igreja da Unificação, movimento religioso fundado pelo sul-coreano Sun Myung Moon. O termo foi empregado pelo próprio grupo para descrever a recepção dada a novos integrantes e, anos depois, passou a ser discutido pela psicóloga Margaret Singer em seu livro Cults in Our Midst, publicado em 1996, como uma estratégia de recrutamento baseada em demonstrações intensas de atenção e afeto.

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Redes sociais e aplicativos de mensagens ajudaram a popularizar o termo love bombing, que hoje aparece com frequência em vídeos e conteúdos sobre relacionamentos (Foto: Canva)

Apesar da popularidade, o love bombing ainda não é um conceito consolidado na literatura científica. A maior parte das pesquisas sobre violência entre parceiros sequer utiliza esse termo. Os estudos costumam abordar esses comportamentos dentro de um campo mais amplo conhecido como controle coercitivo.

Uma das principais referências nessa área é a revisão "Coercive Control: Update and Review", publicada em 2019 na revista científica Violence Against Women. No artigo, Evan Stark e Marianne Hester revisam décadas de pesquisas sobre controle coercitivo. O trabalho descreve esse tipo de violência como um processo que não depende apenas de agressões físicas e pode incluir isolamento, vigilância constante, intimidação, controle financeiro e restrição gradual da autonomia da vítima.

A mesma perspectiva aparece na revisão sistemática "Women's Experiences of Coercive Control in Intimate Partner Relationships: A Qualitative Systematic Review", publicada em 2025 na revista Journal of Family Violence. O estudo reuniu 31 pesquisas qualitativas, publicadas entre 2009 e 2023, sobre mulheres que viveram relacionamentos marcados por controle coercitivo. Entre os temas identificados estão a perda progressiva da autonomia, o medo constante, diferentes formas de abuso e os impactos sobre a saúde mental.

A revisão não investiga o love bombing. Seu objetivo é compreender como o controle coercitivo se manifesta nas relações e quais consequências produz para as vítimas. Hoje, é nesse campo que se concentra a maior parte da produção científica relacionada aos comportamentos frequentemente associados ao termo.

No verbete "Emotional Abuse", o Dictionary of Psychology, publicado pela American Psychological Association (APA), define abuso emocional como um padrão repetitivo de comportamentos destinados a controlar, intimidar, isolar ou diminuir outra pessoa. A definição desloca o olhar de episódios isolados para a dinâmica construída ao longo da relação. É essa continuidade, e não um gesto específico, que caracteriza o abuso emocional.

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A literatura científica costuma analisar comportamentos associados ao love bombing dentro de pesquisas sobre abuso psicológico e controle coercitivo (Foto: Adobe Stock)

Enquanto vídeos frequentemente apresentam listas de comportamentos capazes de identificar um possível love bombing, a literatura científica procura compreender como relações marcadas pelo abuso psicológico se desenvolvem e se mantêm ao longo do tempo.

A popularização do love bombing mostra como conceitos da psicologia passaram a fazer parte das conversas do dia a dia. Isso pode ampliar o debate sobre relacionamentos abusivos e ajudar mais pessoas a reconhecer situações que antes pareciam difíceis de explicar. Mas também exige cautela. Quando um conceito ainda em construção passa a circular fora do ambiente em que foi estudado, existe o risco de perder parte do seu significado e acabar sendo usado para explicar situações muito diferentes entre si. Experiências humanas dificilmente cabem em definições rápidas ou listas de comportamentos.