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O Brasil que não aparece nos discursos de Lula: juros no teto, famílias quebradas e inflação estourando a meta

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4/28/2026

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Selic em 14,75%, 80% das famílias endividadas, inflação acima do teto e projeções piorando semana a semana. Os números da economia real contradizem a narrativa oficial e chegam em ano de eleição

Quando o presidente Lula sobe ao palanque para falar de economia, o roteiro é sempre o mesmo: emprego em alta, salário-mínimo valorizado, Brasil de volta ao mapa. O problema é que existe uma outra economia rodando em paralelo, feita de juros proibitivos, dívidas acumuladas, poder de compra corroído e inflação que teima em não caber dentro da meta. Essa é a economia que o brasileiro encontra na fatura do cartão, no financiamento da casa e na conta do mercado. E ela conta uma história bem diferente.

Os juros que não caem

A Selic chegou a 15,25% ao ano — o maior patamar desde julho de 2006 —depois de sete altas consecutivas entre setembro de 2024 e junho de 2025 promovidas pelo próprio governo. O Banco Central só iniciou o ciclo de cortes em março de 2026, quando os danos já estavam feitos. Mesmo com o primeiro corte, a taxa segue em 14,75% — e o mercado projeta que encerrará o ano em 12,5%. Não existe maneira de chamar isso de política econômica bem-sucedida. A Selic foi ao teto porque a inflação não cedia. A inflação não cedia porque o governo gastava. O governo gastava porque a equação política exigia. O resultado é que o crédito ficou caro demais para as famílias, o investimento produtivo desacelerou e o Brasil entrou em 2026 pagando um preço alto pela expansão fiscal dos anos anteriores.

A inflação que estourou a meta

O IPCA acumulado em 12 meses estava em 4,14% em março. A meta oficial do Banco Central é de 3%, com tolerância de até 4,5%. Parece que ainda cabe — mas o mercado financeiro já não acredita nisso.

O Boletim Focus da semana passada elevou a projeção de inflação para 4,71% em 2026, pela quinta semana consecutiva de alta, estouro do teto da meta. Uma semana antes, a estimativa era de 4,36%. A deterioração é rápida e consistente.

O componente que mais pressiona é o de serviços — aluguel, saúde, educação, transporte —, exatamente aquele que mais pesa no orçamento da classe média. E há um agravante geopolítico: a guerra no Oriente Médio empurra o petróleo para cima, o que contamina combustíveis e fretes e recoloca pressão sobre toda a cadeia de preços. O Banco Central, que queria cortar os juros em 0,5 ponto em março, se viu obrigado a recuar para 0,25 — precisamente porque a inflação não permitiu o passo mais largo.

80% das famílias endividadas - um recorde histórico

O número mais revelador do momento econômico brasileiro não está na bolsa nem no câmbio. Está no levantamento mensal da Confederação Nacional do Comércio: em março de 2026, 80,4% das famílias brasileiras tinham alguma dívida — o maior percentual desde o início da série histórica, em 2010. Em fevereiro, o índice era de 80,2%, já um recorde. No mesmo período de 2025, estava em 76,6%. O avanço é de quase quatro pontos percentuais em um ano. Mas não é só quem deve que preocupa. É quem não consegue mais pagar. Dos endividados, 29,6% estavam com contas em atraso em fevereiro — e essa inadimplência voltou a subir depois de três meses consecutivos de queda. Mais grave: 12,6% das famílias declaram que não têm condições de quitar as dívidas em atraso no próximo mês. Segundo o Serasa, são 81,7 milhões de CPFs negativados no país — quase metade da população adulta.

Entre as famílias com renda de até três salários-mínimos, 38,9% tinham contas atrasadas. Quase uma em cada cinco dessas famílias — 18,6% — afirma que simplesmente não vai conseguir pagar. O cartão de crédito é citado por 85% dos endividados como principal fonte da dívida, seguido por carnês de loja e crédito pessoal. São as linhas mais caras do mercado, e também as mais fáceis de contratar.

A armadilha dos juros altos

Há uma cruel ironia no arranjo atual. O governo aumentou os gastos para estimular a economia e garantir aprovação popular. O Banco Central respondeu subindo os juros para conter a inflação gerada por esse gasto. Os juros altos encareceram o crédito para as famílias. As famílias, para manter o consumo, se endividaram mais. E agora chegam a 2026 com dívidas que não conseguem pagar, num ciclo que o alívio monetário tardio ainda vai levar meses para desfazer.

O setor de serviços, único componente positivo do Índice de Atividade Econômica do Banco Central em fevereiro, viu seu ritmo de crescimento cair pela metade nos últimos 12 meses — de 3,84% para 1,91%. É o setor que mais emprega no Brasil, e está perdendo fôlego precisamente porque a classe média que o sustenta está apertada. Mesmo que o Banco Central acelere os cortes de juros nos próximos meses, os efeitos no crédito e no consumo levam de dois a três trimestres para chegar. Ou seja: o alívio, se vier, chega depois das eleições.

O que os números dizem - e o governo não conta

A narrativa do Palácio do Planalto se apoia em dados reais: o emprego formal cresceu, o salário-mínimo foi reajustado acima da inflação, e o PIB cresceu 2,3% em 2025. Mas esses números convivem com uma realidade igualmente real e muito menos celebrada: oito em cada dez famílias brasileiras estão endividadas, quase metade da população adulta está com o nome sujo, a inflação vai estourar a meta pelo segundo ano consecutivo e os juros só agora começam, timidamente, a cair depois de um dos ciclos de alta mais agressivos da história recente.

Em ano eleitoral, a economia é o campo em que os discursos colidem mais duramente com a realidade vivida. O brasileiro que paga 450% ao ano no rotativo do cartão de crédito, que vê o aluguel subir mais do que o salário e que acorda todo mês com menos poder de compra do que tinha no anterior não
precisa de gráfico para saber como está a economia. Ele sente no bolso. E o bolso, neste momento, está vazio.

Nota: Os dados utilizados nesta análise são baseados em levantamentos da Confederação Nacional do Comércio (CNC/Peic), Boletim Focus do Banco Central, IBGE e Serasa, referentes ao período de janeiro a abril de 2026.