Na manhã da última sexta-feira, o Polymarket registrava algo inédito: Flávio Bolsonaro aparecia com 39% das apostas para vencer a eleição presidencial de outubro, contra 36% de Lula — o menor percentual apostado na reeleição do presidente desde a abertura das negociações na plataforma. No fim da tarde do mesmo dia, o governo federal anunciou em coletiva no Palácio do Planalto que os mercados preditivos são ilegais no Brasil e determinou o bloqueio imediato de 28 plataformas, incluindo o próprio Polymarket. Brasília garantiu que a medida não tem nada a ver com política. Tem tudo a ver.
O que são os mercados preditivos - e por que incomodam
O mercado de predição funciona como uma bolsa de apostas sobre eventos futuros: eleições, decisões econômicas, resultados de reality shows, até o clima. Os participantes compram e vendem contratos com dinheiro real — geralmente em criptomoedas —, e os preços refletem a percepção coletiva sobre a probabilidade de cada resultado. O Polymarket, maior plataforma do gênero no mundo, tornou-se nos últimos meses um termômetro informal — e incômodo — do cenário eleitoral brasileiro.
O problema, para Lula, é que esse termômetro vinha dando febre. Em 18 de abril, Flávio chegou a reunir 41% das apostas contra 40% do presidente. Em 16 de abril, os dois estavam praticamente empatados, com 40% cada. No começo de março, Lula ainda liderava com folga — 52% contra 29,7% de Flávio. Em menos de dois meses, a vantagem evaporou. E o mercado, ao contrário das pesquisas eleitorais tradicionais, não tem margem de erro para esconder.
O argumento oficial - e seus furos
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, apresentou a proibição como uma questão técnica e regulatória. A legislação brasileira que regula as bets, segundo ele, só permite apostas em eventos esportivos reais e jogos online com regras definidas. Os mercados preditivos, por operarem com derivativos atrelados a eventos políticos e sociais, estariam fora dessa moldura legal. A ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, acrescentou que o modelo é proibido em mais de 50 países e representa riscos enormes para a população.
Nenhum desses argumentos é novo. Os mercados preditivos operam no Brasil há anos.
O Polymarket estava acessível no país desde pelo menos 2023. A Secretaria de Prêmios e Apostas, criada pelo próprio governo Lula, instaurou 172 processos sobre o tema, atingindo 145 marcas — o que indica que o governo tinha ciência dessas plataformas há muito tempo. A pergunta que o Planalto não respondeu na coletiva é simples: se o problema jurídico sempre existiu, por que a solução chegou exatamente naquela sexta-feira?
O placar que precisava sumir
A resposta mais direta está nos números. Com a eleição presidencial marcada para outubro e o segundo turno cada vez mais parecido com um empate técnico, o Polymarket havia se tornado uma narrativa paralela inconveniente. Pesquisas do Datafolha mostravam Flávio com 46% contra 45% de Lula em simulação de segundo turno — dentro da margem de erro, mas suficiente para alimentar a percepção de fragilidade do presidente. O Futura/Apex foi além: 48% para Flávio contra 42,6% de Lula.
Um mercado internacional, com dinheiro real e sem vínculo com institutos brasileiros, apontando o mesmo resultado, tinha um peso simbólico diferente. Era difícil de desacreditar, difícil de contextualizar e impossível de controlar. A solução encontrada pelo governo foi a mais simples: tirar do ar.
Censura ou regulação?
O governo vai chamar de regulação. E tecnicamente não está errado — há uma base legal para questionar a operação dessas plataformas no Brasil. Mas regulação séria não acontece em 24 horas, não começa pelo bloqueio e não escolhe sua data de implementação com base no placar eleitoral do dia.
Se a preocupação do Planalto fosse genuinamente com o endividamento das famílias brasileiras — argumento usado por Lula em entrevistas recentes, quando afirmou que "se depender de mim, a gente fecha as bets" —, a medida teria chegado antes, com debate público, período de transição e critérios claros. O que aconteceu foi outra coisa: uma decisão tomada às pressas, na mesma tarde em que o presidente aparecia pela primeira vez abaixo do rival no principal termômetro internacional da corrida eleitoral.
O que fica:
As 28 plataformas estão bloqueadas. O Polymarket, acessado por brasileiros via VPN, segue funcionando — e Flávio Bolsonaro segue à frente. O governo conseguiu apagar o placar da tela, mas não do jogo. O que a medida deixa como legado é mais grave do que qualquer número do Polymarket: a imagem de um governo que, a menos de seis meses da eleição, usa o aparato regulatório do Estado para silenciar um termômetro que não gostava da temperatura. Em ano eleitoral, isso tem um nome. E não é regulação.
Nota: Os dados sobre as apostas no Polymarket são baseados em registros públicos da plataforma referentes à sexta-feira, 24 de abril de 2026. Mercados preditivos não são pesquisas eleitorais e não substituem levantamentos de intenção de voto. As informações sobre a medida regulatória são baseadas em declarações oficiais do Ministério da Fazenda e da Casa Civil.



