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QUANTAS COINCIDÊNCIAS CABEM NUMA INSTITUIÇÃO?

02/10/2026

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Há uma maneira bastante eficiente de tornar qualquer discussão política impossível, que é exigir que o problema venha acompanhado de recibo.

Se não existe gravação de alguém dizendo “vamos fazer isto para beneficiar fulano”, então nada pode ser percebido até que apareça a gravação. Só que instituições raramente funcionam assim.

A influência política não precisa chegar dentro de uma mala. Ela pode chegar na forma de relações construídas durante anos, afinidade ideológica, nomeações, circulação entre governo e tribunal, confiança pessoal, acesso e uma sequência de decisões que merece ser observada em conjunto.

Estela Aranha não apareceu ontem no TSE.

Ela declarou publicamente voto em Lula em 2022 e, antes disso, fez doações eleitorais a candidatos do PT e do PSOL. No governo Lula, tornou-se secretária no Ministério da Justiça de Flávio Dino. Depois, foi para a Presidência da República. Dino apoiou sua chegada ao TSE, assim como Edinho Silva, presidente do PT. Em 2025, Lula a nomeou ministra da Corte.

Nesta semana, a campanha do Lula pediu que fosse derrubada uma regra de debate que o próprio PT havia aceitado.

Estela Aranha concedeu o pedido.
A regra prejudicaria Lula.
A decisão o beneficiou.

Separadamente, cada uma dessas frases pode receber uma explicação perfeitamente possível. Só que juntas, elas merecem mais do que um encolher de ombros.

E Estela é apenas uma peça de uma discussão muito maior sobre a relação que Executivo, partidos e tribunais construíram no Brasil nas últimas décadas.

Em 2022, durante a diplomação do Lula, o então ministro do TSE Benedito Gonçalves foi captado dizendo a Alexandre de Moraes:

“Missão dada é missão cumprida.”

Pode ter sido uma frase coloquial, mas convenhamos que é uma escolha extraordinária de palavras para um ministro do TSE dirigir ao presidente da corte durante a cerimônia de diplomação do candidato que acaba de vencer uma eleição marcada por decisões, no mínimo, controversas da própria Justiça Eleitoral. 

E a interpretação de que o Judiciário teve papel decisivo naquela eleição não veio apenas dos seus críticos. Em outubro de 2023, o ministro Gilmar Mendes, do próprio Supremo, disse publicamente: “Se hoje tivemos a eleição do presidente Lula, foi graças ao STF.” É uma frase diferente de dizer que o Supremo apenas garantiu que o resultado das urnas fosse respeitado. Gilmar não disse que, graças ao STF, o resultado prevaleceu. Disse que, graças ao STF, tivemos a eleição do Lula.

O próprio Lula, em outras ocasiões, já tratou como “muito importante” o papel da Suprema Corte no processo eleitoral contra Bolsonaro.

Nenhuma dessas frases, sozinha, demonstra qualquer acordo. Mas instituições não são compreendidas apenas pela análise de episódios separados. E o conjunto torna mais difícil ainda tratar “missão dada é missão cumprida” como uma pequena curiosidade de cerimônia.

Nesta semana, Lula estava num evento oficial e resolveu telefonar, diante das câmeras, para Flávio Dino.

Dino foi ministro da Justiça do Lula, Lula o indicou ao Supremo, e agora esse mesmo Dino julga questões que envolvem o próprio governo, seus adversários e a eleição em que Lula disputa a permanência no poder.

O telefonema tratava de outro assunto e, isoladamente, não prova interferência alguma. Mas aí é que está justamente o problema com a palavra isoladamente.

Se examinarmos cada episódio político isoladamente, quase nada jamais significará coisa alguma.

Uma nomeação é só uma nomeação.
Uma amizade é só uma amizade.
Uma decisão é só uma decisão.
Uma ligação é só uma ligação.
Uma frase é só uma frase.
Uma regra alterada é só uma regra alterada.
Um pix é só um pix.

Até que alguém coloca as fotografias lado a lado e percebe que talvez estivesse olhando para um álbum.

Isso significa que podemos provar que Lula telefonou para Estela e ordenou a decisão?

Não.

Mas também não é necessário inventar esse telefonema para reconhecer um problema institucional.

Quantos vínculos entre aqueles que disputam o poder e aqueles encarregados de arbitrá-lo uma democracia pode normalizar antes de começar a desconfiar do árbitro?

O país do futebol ainda pena em tirar a camisa do seu time antes de olhar para o juiz.

SEM ADJETIVO

Agora o almoço de domingo, que neste fim de semana talvez aconteça no sábado. Em algum momento alguém falará da eleição. Depois de poucos minutos, provavelmente ninguém estará discutindo exatamente a mesma coisa.

É para isso que existe esta seção.

Não é necessário explicar toda a crise institucional brasileira, nem convencer ninguém de uma teoria completa. Basta conseguir preservar meia dúzia de fatos antes que a torcida os transforme em outra coisa.

A opinião termina aqui. Agora, os fatos que você consegue levar consigo.

  • Lula decidiu não comparecer ao debate. No horário em que ele ocorreria, participou de uma entrevista ao Flow.
  • O PT havia aceitado previamente uma regra que manteria identificado e vazio o lugar do candidato ausente.
  • Depois que Lula decidiu faltar, sua coligação pediu que a Justiça impedisse a aplicação dessa parte da regra.
  • Estela Aranha atendeu ao pedido, proibindo a exibição do púlpito vazio e perguntas simuladas ao candidato ausente.
  • Antes de chegar ao TSE, Estela havia declarado voto em Lula, feito doações eleitorais a candidatos do PT e do PSOL e trabalhado no governo Lula. Foi nomeada para a Corte pelo próprio presidente em 2025. Flávio Dino e Edinho Silva apoiaram sua indicação. Nada disso a levou a se declarar suspeita para decisões envolvendo o petista.
  • A decisão dela acolheu o pedido da coligação de Lula e retirou as consequências que a regra previamente acordada previa para a ausência dele.

Tudo isso é verificável.

Depois disso, cada pessoa continua livre para concluir que não vê problema. O que já não é possível é dizer que os fatos que provocam a desconfiança foram inventados.

O poder raramente tem a delicadeza de confessar o que está fazendo (ao menos não de forma espontânea, e geralmente o faz apenas quando confessar passou a ser a maneira mais eficiente de continuar existindo). Por isso, sociedades livres não esperam confissões para vigiar instituições.

Elas observam incentivos, relações, precedentes, decisões e padrões. E fazem uma pergunta especialmente desagradável: se fossem os outros fazendo exatamente a mesma coisa, eu continuaria procurando uma explicação inocente?

A resposta costuma informar mais sobre nós do que sobre eles.

Leve os fatos. O juízo é seu.

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