As contas do governo federal fecharam março de 2026 no vermelho em R$ 73,8 bilhões — o pior resultado para o mês desde que o Tesouro Nacional começou a registrar esses dados, em 1997. O número não apenas bateu um recorde histórico como também surpreendeu o mercado financeiro: a mediana das projeções apontava para um resultado negativo de R$ 72 bilhões, com estimativas variando entre déficit de R$ 77 bilhões e superávit de R$ 1,6 bilhão — uma amplitude que, por si só, revela o nível de incerteza em torno das contas públicas. A principal explicação oficial veio do secretário do Tesouro Nacional, Daniel Cardoso Leal: "Isso é resultado — quando a gente compara com o ano passado — do pagamento de precatórios", afirmou em entrevista coletiva na sede do Ministério da Fazenda.
O rombo foi composto por dois blocos: R$ 24,6 bilhões de déficit no Tesouro e Banco Central, e R$ 49,2 bilhões na Previdência Social — mais que o dobro dos R$ 22,9 bilhões registrados no mesmo mês de 2025. Enquanto isso, a arrecadação federal somou R$ 229,2 bilhões em março, o maior resultado para o mês desde 2000 — o que mostra que o problema não está na falta de receita, mas no ritmo das despesas, que cresceram 49,2% em termos reais contra apenas 7,5% das receitas líquidas.
O cenário fica ainda mais tenso quando se olha para a meta fiscal: o governo precisa entregar um superávit primário de 0,25% do PIB em 2026, com tolerância de 0,25 ponto porcentual para mais ou para menos. As projeções oficiais, porém, já apontam em direção contrária: a previsão para o ano é de déficit de R$ 59,8 bilhões, considerando receitas líquidas de R$ 2,58 trilhões e despesas totais de R$ 2,64 trilhões.
No acumulado do primeiro trimestre, a virada é dramática: o governo saiu de um superávit de R$ 54,9 bilhões em 2025 para um déficit de R$ 17,1 bilhões em 2026 — e o próprio Tesouro reconhece que o resultado de 12 meses foi impactado pelo pagamento de precatórios em dois momentos distintos dentro dessa janela.
As principais adições em relação à versão anterior foram: a meta fiscal detalhada (superávit de 0,25% do PIB), a projeção oficial de déficit de R$ 59,8 bilhões para o ano inteiro, o recorde de arrecadação em março (que reforça que o problema é nas despesas, não nas receitas), a fala direta do secretário do Tesouro e o detalhe do déficit da Previdência ter mais que dobrado em relação a março de 2025.


