Com muita alegria apresento o meu convidado especial para o primeiro artigo da minha coluna na Revista Aurora: Mark Bullock, meu marido e uma grande referência no esporte inclusivo.
Como ex-tenista número 1 do Brasil em cadeira de rodas, esse tema toca profundamente o meu coração.
O artigo de Mark fala sobre como o tênis pode ser jogado por todos, adaptando regras, espaços e equipamentos, e mostra como o esporte é uma poderosa ferramenta de inclusão e convivência.
Boa leitura,
Samanta
Tornando o tênis ainda mais inclusivo — permitir até três quiques
O tênis é um esporte que pode ser praticado por todas as idades e que permite que homens e mulheres joguem juntos nas duplas mistas. Jogadores em cadeira de rodas podem competir contra pessoas sem deficiência usando a regra dos dois quiques. Já os jogadores com deficiência visual podem jogar entre si ou com familiares e amigos videntes, utilizando uma bola sonora e podendo deixar que ela quique até três vezes, dependendo da classificação visual de cada um.

Samanta Bullock em quadra de tênis. Ex-atleta número 1 do Brasil em cadeira de rodas, ela é referência internacional em moda e esporte inclusivo,(Foto: Sophie Mayannne)
Um exemplo inspirador é o sul-coreano Lee Duck-hee, jogador surdo que chegou ao número 130 do ranking da ATP em 2017.
O tamanho da quadra e o tipo de bola também podem ser adaptados conforme o espaço disponível e a idade ou habilidade dos jogadores. O tênis não precisa, necessariamente, ser jogado em uma quadra tradicional.
Existem diferentes tamanhos de quadra previstos nas regras, correspondentes aos tipos de bola — mas, na prática, o tênis pode ser jogado em quase qualquer lugar, sem necessidade de uma quadra formal.
🎥 Assista a um exemplo aqui
No Reino Unido, o Touch Tennis é bastante popular: adultos jogam em uma quadra reduzida, com bolas de espuma, o que transforma o jogo em uma disputa de habilidade e estratégia, reduzindo o peso da força física.
🔗 Saiba mais em touchtennis.com
O tênis já é um esporte naturalmente inclusivo — mas como podemos torná-lo ainda mais inclusivo?
Atualmente, as regras oficiais permitem apenas um quique, com exceção do tênis em cadeira de rodas, que autoriza dois (sendo o primeiro dentro da quadra).
No caso do tênis para pessoas com deficiência visual, as regras permitem um, dois ou três quiques, conforme a classificação do jogador, mas a Federação Internacional de Tênis (ITF) ainda não reconhece formalmente essas adaptações.

Sequência de movimentos de Lily Mills em quadra. O tênis adaptado permite ajustar regras, bolas e espaços, mostrando que inclusão também se constrói pelo jogo (Foto: Cortesia / Mark Bullock)
E se invertermos o pensamento e abrirmos o esporte para permitir até três quiques para todos?
Nos níveis profissionais e competitivos, nada mudaria. Mas o tênis não seria visto como muito mais aberto e acessível se iniciantes soubessem que poderiam jogar com mais de um quique? Isso prolongaria as trocas de bola, aumentaria a atividade física e o engajamento.
Essa simples mudança poderia atrair novos jogadores e manter outros no esporte — especialmente pessoas com próteses de quadril ou joelho, condições cardíacas ou em reabilitação após um AVC.
O Walking Tennis, modalidade mais leve e adaptada, poderia crescer ainda mais se houvesse clareza de que é possível começar jogando com mais de um quique.
No fundo, isso não é tão diferente da variedade já existente: diferentes tamanhos de quadra (vermelha, laranja, verde e amarela), diferentes bolas (nas mesmas cores) e raquetes de tamanhos variados.
Agora imagine um futuro em que o tênis seja praticado em uma ampla gama de espaços, com diversas bolas, tamanhos de quadra e regras ajustadas às pessoas.
Pense em um campeonato em uma casa de repouso, onde os jogadores competem com balões; um torneio em um centro comunitário, em uma microquadra; ou clubes repletos de pessoas de todas as idades e habilidades, jogando com o equipamento e as regras que melhor se adequam a elas.
Será que realmente importa seguir à risca as regras tradicionais, desde que os espaços de tênis sejam abertos, acolhedores e cheios de vida, com pessoas jogando, se encontrando e se envolvendo com o esporte?
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