Comportamento

Você não é definida por um diagnóstico

9/15/2026

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Jeni e Cris Koressawa, que participou da aula de dança sensual voltada a mulheres que passaram ou estavam passando pelo câncer de mama (Foto: André Kazuo)

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Uma reflexão sobre feminilidade, autoestima e o direito de viver para além da doença

Certa vez, dei aulas de dança sensual para um grupo de mulheres que haviam passado ou estavam passando pelo câncer de mama. Foi muito especial acompanhar a vitalidade daquelas mulheres, o brilho no olhar de cada uma e a vontade de viver e se divertir em cada parte da aula.

Foi uma turma que tive a honra de ensinar e com a qual aprendi muito. Verdadeiramente, elas me entregaram presença.

Depois, fizemos um delicioso passeio de caiaque. Ali, percebi como a colaboração e o apoio entre elas faziam uma diferença incrível. É maravilhoso ver a força que o coletivo tem para nos ajudar a olhar para além das dificuldades.

Com elas, vi na prática que o câncer não é o fim da feminilidade nem precisa representar a morte da autoestima. Não consigo estimar o tamanho do desafio que é passar por ele. Mas consigo ver que, por mais difícil que seja essa travessia, a mulher continua merecedora de amor, luz e boas risadas, inclusive de rir de si mesma.

O poder de um sorriso pode ser maior do que imaginamos. Vejo que a dança traz quase imediatamente um sorriso ao rosto das alunas, independentemente de terem passado ou não pelo câncer. No início, podem ser sorrisos tímidos, que aos poucos se abrem. O quadril se solta, os ombros relaxam, a postura muda. Alguém dá uma gargalhada porque errou o passo e, quando percebemos, aquela mulher já não está tão preocupada em fazer tudo direito. Ela está simplesmente vivendo aquele momento.

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Jeni conduz a aula de dança sensual com mulheres que passaram ou estavam passando pelo câncer de mama (Arquivo pessoal)

Percebo que existe uma tendência a fazer com que uma circunstância tome conta de toda a narrativa da vida de alguém. De repente, aquela mulher se torna “a mulher que teve câncer” ou “a coitada que tem depressão”.

Na vida real, porém, ela é muito mais do que isso e não deixou de ser mulher. Ainda gosta de música alta ou prefere o silêncio. Ainda pode querer passar um batom vermelho em um dia qualquer, dançar, namorar, viajar, transar, ficar sozinha, usar decote, não usar decote, mostrar as cicatrizes ou guardá-las somente para si.

Não posso falar em nome de quem atravessa essa experiência, mas sei que existem medo, dor, cansaço, raiva e dias muito difíceis. Afinal, essa também é uma experiência humana. Tudo isso merece existir e encontrar lugar na verdade de cada mulher.

A mulher em tratamento também atravessa mudanças constantes no corpo. Nesse processo, pode se descobrir diante de uma combinação de emoções diferente daquela que conheceu durante tantos anos. Esse movimento merece espaço, tempo e respeito.

Quando trabalho a feminilidade, muitas vezes encontro mulheres que acreditam que ela “mora” somente em determinadas partes do corpo, como o cabelo, os seios e a bunda, ou em uma aparência específica. Depois de mais de 14 anos dando aulas, vejo, na prática, que não é bem assim.

Para mim, a feminilidade sensual é uma experiência individual e particular. Ela está na maneira como cada mulher se percebe, se expressa, se movimenta e se relaciona consigo mesma. Também está na forma como tudo isso transborda para o mundo. Nenhuma cicatriz tem autoridade para decidir quanto de mulher existe ali, seja ela resultado de uma cirurgia, uma estria ou qualquer outra experiência.

A alegria não desmerece a dor. A sensualidade não desrespeita a cicatriz. O prazer de viver não anula o medo de morrer. Continuar vivendo não diminui a importância de uma circunstância tão desafiadora.

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Mulheres que participaram das atividades relatadas por Jeni em um registro de liberdade, alegria e diversidade de corpos (Arquivo pessoal)

É possível carregar as marcas de uma travessia difícil e ainda reconhecer a beleza do corpo que atravessou tudo isso com você. Permita-se viver apesar das dificuldades, sejam elas quais forem. A vida está aí para ser vivida, não aprisionada.

Naquela aula de dança, entre movimentos e boas gargalhadas, aprendi algo que levo comigo até hoje: alguns diagnósticos fazem parte da nossa história, mas nenhum deles tem o direito de contá-la por inteiro.

Eles são capítulos, felizes ou tristes. O livro continua a ser escrito. E eu escolho ler tudo.