Há uma pergunta que me acompanha quando penso em Nossa Senhora: como seria contemplar a beleza de Maria?
Não apenas imaginar seus traços, a cor de seus olhos, seus cabelos ou o formato de seu rosto, mas estar diante dela e experimentar aquilo que tantos videntes tentaram colocar em palavras depois de contemplá-la.
Em Fátima, em Lourdes e em tantas outras manifestações reconhecidas pela Igreja, aqueles que dizem ter visto Nossa Senhora falam de sua beleza, de sua luminosidade, de sua presença que não se parece com aquilo que os olhos estão acostumados a contemplar. E talvez exista algo muito significativo nisso. Quando o Céu se manifesta, a primeira coisa que alguns deles encontram é a beleza.
Mas que beleza é essa?
Vivemos em um tempo em que sabemos quase tudo sobre a construção da aparência. Conhecemos as cores que valorizam um rosto, as técnicas que transformam a pele, os cortes de cabelo que rejuvenescem, os produtos que iluminam, os recursos que disfarçam aquilo que desejamos esconder.
Eu trabalho com beleza há muitos anos. Todos os dias, vejo mulheres diante de um espelho. Algumas chegam buscando apenas uma maquiagem; outras chegam buscando um pouco mais de confiança, um momento de cuidado, uma maneira de se sentirem bonitas novamente.
E, talvez por conhecer tão de perto a beleza exterior, compreendo cada vez mais que existe uma beleza que nenhum pincel consegue produzir. A beleza de Nossa Senhora.
Maria não é bela porque corresponde a um padrão estético. Não sabemos como eram exatamente seus traços, nem precisamos saber. A Igreja nunca precisou nos oferecer um retrato físico de Maria para reconhecê-la como a mais bela das criaturas. Porque a beleza de Maria começa em outro lugar.
“Ave, cheia de graça.”

A Anunciação à Virgem Maria pelo arcanjo Gabriel, em pintura do século XV (Foto: Adobe Stock)
Talvez esteja aqui uma das maiores chaves para compreendermos sua beleza.
Maria é cheia de graça.
Sua beleza não está separada de sua alma.
Nela não encontramos a distância que tantas vezes existe em nós entre aquilo que aparentamos ser e aquilo que realmente somos. Maria é inteira. Seu exterior não precisa esconder um interior ferido pelo pecado. Sua vida não é uma construção para ser admirada pelos outros.
Ela simplesmente é.
É serva.
É mãe.
É mulher.
É aquela que escuta.
É aquela que guarda.
É aquela que diz sim.
E existe uma beleza imensa em uma mulher que não precisa colocar a si mesma no centro.
A beleza de Maria não compete com a beleza do mundo
Talvez seja importante dizer isso, especialmente para nós, mulheres.
Contemplar Maria não significa desprezar a maquiagem, a vaidade, o cuidado com os cabelos, uma roupa bonita ou o desejo legítimo de sentir-se bela.
A beleza exterior também é um dom.
Cuidar de si pode ser uma forma de gratidão.
Uma mulher pode passar um batom, escolher um perfume, arrumar os cabelos e olhar para o espelho com alegria, sem transformar sua aparência em seu maior valor.
Maria não nos ensina a desprezar a beleza do corpo. Ela nos ensina a não reduzir a mulher ao seu corpo.
Essa diferença é fundamental.
O mundo frequentemente nos convence de que precisamos ser belas para sermos vistas, desejadas, admiradas ou aceitas.
Maria nos apresenta uma beleza diferente.
Ela não precisa seduzir para ser amada.
Não precisa competir para ser escolhida.
Não precisa diminuir outra mulher para revelar o próprio valor.
Sua beleza não pede aplausos.
Sua beleza conduz para Deus.
Talvez seja por isso que ela seja tão diferente da beleza que tantas vezes vemos no mundo: porque Maria não utiliza a beleza para chamar a atenção para si mesma; sua beleza nos faz olhar para além dela.

Há uma beleza que não depende apenas da aparência, mas também daquilo que transparece de cada pessoa (Foto: Adobe Stock)
Como seria contemplar um rosto sem pecado?
Existe ainda um mistério que torna a beleza de Maria particularmente fascinante para a fé católica.
Maria é a Imaculada.
Preservada do pecado desde sua concepção, sua alma pertence inteiramente a Deus.
E às vezes me pergunto: como seria contemplar o rosto de uma mulher cuja alma nunca conheceu o pecado?
Não sabemos como eram seus traços físicos.
Mas sabemos que dentro dela não havia inveja, orgulho, ressentimento, malícia ou vaidade.
Não havia aquela luta interior que tantas vezes desfigura o ser humano.
Talvez os olhos de Maria fossem belos não apenas pela sua aparência, mas porque eram olhos que sabiam contemplar.
Talvez seu rosto fosse belo porque refletia uma alma em paz.
Talvez sua presença fosse tão encantadora porque nela havia aquilo que todos nós procuramos: uma criatura inteiramente reconciliada com Deus.
E então compreendemos que a verdadeira beleza não é simplesmente aquilo que se vê.
É aquilo que transparece.
O que Maria ensina a uma mulher sobre ser bela?
Maria nos ensina que podemos ser delicadas sem sermos frágeis.
Fortes sem perder a ternura.
Femininas sem transformar nossa feminilidade em espetáculo.
Elegantes sem precisar de ostentação.
Silenciosas sem sermos apagadas.
E, sobretudo, belas sem fazer da beleza um ídolo.
Ela nos ensina uma beleza que nasce da virtude.
A beleza da mulher que sabe servir.
Da mulher que sabe esperar.
Da mulher que sabe dizer sim.
Da mulher que permanece de pé mesmo diante da dor.
Da mãe que guarda tantas coisas no coração.
Da mulher que, aos pés da cruz, permanece quando quase todos foram embora.
É impossível pensar em Maria apenas como uma jovem bela.
Ela é também a mulher das bodas de Caná, a mãe que intercede, a mulher que acompanha o sofrimento do Filho, a Senhora que permanece.
Sua beleza amadurece com sua história.
E isso também é uma mensagem preciosa para nós.
Porque o mundo insiste em nos ensinar que a beleza diminui com o tempo.
Maria nos recorda que existe uma beleza que amadurece.
Nós sabemos maquiar um rosto. Mas quem embeleza uma alma?
Talvez essa seja a pergunta que mais me toca como profissional da beleza.
Diante de uma cliente, posso escolher uma base, corrigir uma imperfeição, iluminar um ponto do rosto, encontrar o tom perfeito de blush, desenhar os lábios.
Posso realçar aquilo que já existe.
Mas não existe maquiagem capaz de produzir humildade.
Nenhum iluminador consegue criar bondade.
Nenhum batom pode ensinar delicadeza.
Nenhuma técnica de beleza consegue fabricar pureza.
Porque existem coisas que só a graça pode realizar.
E é justamente por isso que Maria continua sendo tão necessária para nós.
Ela nos mostra que a beleza exterior encontra seu sentido quando está a serviço de algo maior.
Podemos cuidar do rosto.
Mas precisamos cuidar da alma.
Podemos desejar estar bonitas.
Mas precisamos desejar ser boas.
Podemos admirar nossa imagem no espelho.
Mas precisamos aprender a reconhecer também aquilo que Deus está fazendo dentro de nós.
A mulher que Deus chamou de cheia de graça

O cuidado com a beleza exterior pode conviver com a atenção à fé, à virtude e à vida interior (Foto: Adobe Stock)
Talvez os videntes tenham encontrado dificuldade para explicar a beleza de Nossa Senhora porque existem experiências que as palavras não conseguem conter.
Há uma beleza que se mede.
E há uma beleza que se contempla.
Há uma beleza que chama atenção.
E há uma beleza que silencia.
Há uma beleza que deseja ser vista.
E há uma beleza que nos faz olhar para o Céu.
Maria pertence a essa última.
Por isso, neste mês dedicado a Nossa Senhora, talvez possamos olhar para Ela de uma maneira diferente.
Não apenas para admirar sua beleza, mas para perguntar o que, em nós, ainda precisa ser embelezado.
Que pensamentos precisam ser purificados?
Que ressentimentos precisam ser entregues?
Que vaidades precisam encontrar seu lugar?
Que virtudes precisam florescer?
Porque talvez a maior homenagem que uma mulher possa fazer à beleza de Maria não seja tentar parecer-se fisicamente com Ela.
É desejar ter uma alma cada vez mais parecida com a d’Ela.
E então, diante do espelho, continuaremos podendo passar nosso batom, cuidar da nossa pele, arrumar nossos cabelos e escolher uma bela roupa.
Mas saberemos que tudo isso é apenas a moldura.
Porque existe uma beleza que o tempo não envelhece, que nenhuma moda determina e que nenhum espelho consegue revelar por inteiro.
A beleza de uma alma cheia de graça.
A beleza de Nossa Senhora.



