Me olho no espelho e observo minhas rugas. Não só as em torno dos olhos, essas já são velhas conhecidas, mas também as dos cantos da boca e da testa. Observo que a pele do pescoço já não é mais tão lisa, que a textura da pele está mudando. Acabei de completar 57 anos neste último janeiro e reconheço, diante do espelho, que as mudanças físicas naturais dessa idade estão em mim.
Lembro dos rostos e corpos das minhas avós e as vejo um pouco em mim. Lembro de atrizes com quem dividi camarins, mulheres lindíssimas cujos rostos cresci vendo na TV, vinte ou trinta anos mais velhas que eu, ali ao meu lado, com suas marcas da maturidade estampadas no rosto. Lembro também do pensamento de que um dia eu ficaria assim. Esse dia chegou. Hoje sou eu que tenho essas marcas dos anos vividos, das milhões de vezes que franzi a testa, fiz caretas ou dei gargalhadas. Expressões que iam e vinham e que agora estão gravadas na minha pele. Acho interessante.
Acabo de voltar de uma hora de caminhada, que me levou e me trouxe da aula de yoga, que durou outra hora. Duas horas de exercícios físicos que mal me fizeram suar, por serem parte da minha rotina diária e não representarem esforço. Quando sinto por dentro, meu corpo ainda parece responder do mesmo jeito de cinco, dez, quinze anos atrás, mas a imagem no espelho desperta curiosidade.
Não sou mais uma menina. Já vivi meio século. Mas, se não olhar de fora, nem parece.
Parece que o mundo se preocupa sempre mais com o número de anos vividos do que com o que, de fato, se vive dentro deles. Como se o número pudesse definir experiências e classificar, com rótulos comuns, cada década vivida.
E quando ousamos ser, pensar e viver fora do esperado, fora do que foi previamente definido pelas gerações anteriores, novos rótulos são automaticamente criados para nos enquadrar novamente, o mais rápido possível.
Os 40 são os novos 30. Os 50 são os novos 40. Agora dizem que os 60 são os novos 40, pela ousadia de mulheres que continuam vivendo, produzindo e surpreendendo em idades que, segundo antigas expectativas, deveriam ser de recolhimento, entre tricô, horta, bichos e netos.
Parece que o mundo tem uma obsessão quase infantil por números. A idade vira régua, vira sentença, vira fronteira. Ou talvez nada disso tenha a ver com números. Talvez seja sobre a dificuldade do mundo em lidar com aquilo que não pode ser medido.
Faço tricô desde os 12 anos. Cuido de hortas e bichos há pelo menos dez, ao mesmo tempo que trabalho, estudo, viajo e cuido de mim.

Há gestos que atravessam o tempo e permanecem, mesmo quando tudo ao redor muda (Foto: Arquivo pessoal)
Me parece que há uma ousadia silenciosa em mulheres que continuam vivendo e criando, não apesar da idade, mas além dela.
Mulheres que namoram aos 50, que ousam casar aos 60. Que recomeçam, que partem, que mudam. Que viajam sozinhas ou acompanhadas por amigas. Que lotam salas de yoga e de cursos variados, dentro de universidades ou em ambientes online. Que inauguram espaços novos, externos e internos.
Mulheres que recusam a ideia de que existe um tempo certo para parar.
E então surge a pergunta, quase inevitável. O que fazer quando o corpo avança no tempo, mas a alma permanece aberta, curiosa e viva, com a mesma sede de sentir, aprender e experimentar a vida?
Porque a idade cronológica pode até caminhar em linha reta, mas e a alma. A alma não obedece ao tempo. Ela expande. Ela amadurece sem pressa.
E há algo profundamente feminino em permitir isso, em não se encaixar, não se reduzir, não se explicar demais. Apenas continuar com presença, entusiasmo e verdade.
O mundo parece fazer questão de organizar a vida em décadas comportadas. Aos 20, descobrir. Aos 30, construir. Aos 40, consolidar. Aos 50, desacelerar. Aos 60, aposentar, desaparecer, como um convite sutil ao recolhimento.
Mas alguma coisa não está funcionando mais. As mulheres de 60 de hoje não cabem nesse acordo antigo. Elas não querem desaparecer. Não sabem como desaparecer. Nem por que deveriam.
Quando se apaixonam, não é um amor menor, mais calmo ou resignado, como tentaram nos ensinar. É um amor mais consciente, mais inteiro, às vezes até mais corajoso.
Elas terminam relações que já não fazem sentido, mesmo quando parecia tarde demais, porque descobriram que tarde demais é viver pela metade.
Viajam, estudam, mudam de cidade, de rotina, de planos. Começam a empreender quando o mundo espera encerramentos.
O espelho devolve um tempo que o corpo sente, mas a alma não reconhece completamente. A energia ainda acompanha a vontade. O mundo é que insiste em tratar como excesso aquilo que, por dentro, ainda é pura vida.
O corpo muda. A pele conta histórias. Mas a alma não envelhece na mesma velocidade. Ela continua curiosa, desejando, inquieta.

A idade avança, mas o desejo de viver continua em movimento (Foto: Arquivo pessoal)
Porque há uma liberdade quase indomável em chegar até aqui e perceber que ainda existem caminhos, ainda existem começos. Que isso não é um erro do tempo. É apenas a vida seguindo seu curso. É a mulher que ainda se descobre, que ainda muda de ideia no meio do caminho. É a vontade, às vezes urgente, às vezes tranquila, de continuar vivendo.
Talvez a pergunta não seja mais o que fazer com essa alma que ainda quer tanto.
Talvez a pergunta seja quem foi que decidiu que ela deveria querer menos.
Talvez seja um ato de coragem não tentar resolver isso. Não tentar encaixar essa mulher em uma nova frase pronta, como “os 60 são os novos 40”, como se ainda precisássemos traduzir a vida em comparações mais aceitáveis.
Sessenta não é o novo nada. Sessenta é sessenta. E pode ser vivo, pode ser surpreendente.
Daqui a três anos, serei eu vivendo esse número e, provavelmente, ainda andando de patins.



