Comportamento

A luta diária contra a violência de gênero

Por
Surama de Castro

11/30/2025

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Renata Cruppi, delegada titular da Delegacia de Defesa da Mulher de Diadema, atua há anos na proteção e na escuta qualificada de mulheres em situação de violência (Foto: Acervo Pessoal)

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No Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, conversamos com a delegada Renata Cruppi. Ela conta o que acontece nas delegacias, nas políticas públicas e na vida das mulheres que buscam ajuda

Conheci a delegada Renata Lima de Andrade Cruppi em uma das ações da Virada Feminina, movimento nacional criado e liderado por Marta Lívia Suplicy, que promove a valorização, a união e o protagonismo das mulheres por meio de capacitação, acolhimento e construção de redes de apoio. Como integrante da iniciativa, testemunhei de perto a força dessa mobilização, uma articulação que conecta mulheres de diferentes realidades e transforma discurso em ação, fortalecendo lideranças femininas e ampliando mecanismos de proteção e autonomia.

Foi nesse contexto, entre oficinas e rodas de conversa da Virada Feminina, que encontrei Renata pela primeira vez. A conexão foi imediata: sua escuta precisa, a firmeza técnica e o modo humano com que acolhe mulheres em situação de vulnerabilidade explicam por que ela se tornou referência nacional no enfrentamento à violência doméstica e de gênero. Delegada titular da Delegacia de Defesa da Mulher de Diadema, Renata acumula anos de atuação direta em casos complexos, sempre unindo rigor jurídico e empatia.

No Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, revisito essa conversa para compreender os avanços recentes, os desafios persistentes e os caminhos possíveis, individuais e coletivos, para transformar uma realidade que ainda mata quase 1.500 mulheres por ano no Brasil.

O diagnóstico é duro. O país bateu recorde de feminicídios: 1.492 mulheres mortas pelo simples fato de serem mulheres, um aumento de 19% em relação ao ano anterior. Oito em cada dez assassinadas morreram pelas mãos de parceiro ou ex-parceiro, e 64% das vítimas foram mortas dentro de casa. A maioria é negra, revelando que a violência de gênero no Brasil é também racial e territorial.

Para Renata, esse cenário não é acidental: é estrutural. A violência íntimo-relacional está profundamente ligada ao machismo, ao racismo, à desigualdade econômica e às múltiplas dependências, financeiras, emocionais e afetivas, que mantêm mulheres presas em relacionamentos abusivos. Ao mesmo tempo, observa um movimento importante: mais vítimas têm encontrado coragem para denunciar. A visibilidade cresceu, mas a proteção ainda não acompanha o ritmo da demanda.

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Atendimento acolhedor e escuta ativa são pilares das Delegacias da Mulher no primeiro registro da denúncia (Foto: Envato)

As Delegacias de Defesa da Mulher passaram por mudanças significativas nos últimos anos. A Lei nº 14.541/2023 determinou atendimento especializado, salas reservadas e acolhedoras, com equipes preferencialmente compostas por policiais mulheres, 24 horas por dia. Em São Paulo, as Salas DDM 24h garantem acolhimento imediato às mulheres que chegam em situação de risco. “A escuta ativa, sem julgamento, é fundamental. A vítima precisa de conforto emocional para narrar sua dor e pedir ajuda”, explica Renata.

O avanço também aparece na investigação: protocolos nacionais padronizam as perícias em feminicídio e aceleram medidas protetivas. A articulação entre polícia, saúde e assistência social evoluiu, mas ainda encontra limitações práticas: falta de equipes completas, rotatividade de profissionais, escassez de abrigos e dificuldades na integração dos sistemas.

Renata destaca que a violência tem cor. Mulheres negras seguem como as maiores vítimas. Para romper esse ciclo, políticas públicas precisam reconhecer as desigualdades interseccionais e direcionar recursos a territórios vulneráveis, ampliando casas-abrigo, oferecendo apoio jurídico adaptado à realidade local e promovendo formação continuada para profissionais da Segurança Pública e do sistema de Justiça.

Outro ponto sensível é o medo de denunciar. Vergonha, dependência econômica, ameaças e laços afetivos dificultam o rompimento do ciclo da violência. A sociedade tem papel crucial: acolher sem julgar, ajudar a registrar a ocorrência, acompanhar a vítima nos primeiros passos e, quando necessário, atuar como testemunha de referência. Os canais de denúncia permanecem fundamentais: 180190Patrulha Maria da Penha e as Delegacias da Mulher.

A Lei Maria da Penha segue como marco fundamental, especialmente após o entendimento de que medidas protetivas podem ter prazo indeterminado e que a vítima pode recorrer contra a revogação. Mas desafios persistem: monitoramento das medidas, integração de dados e ampliação de varas exclusivas.

A tipificação do feminicídio como crime hediondo trouxe visibilidade e estatísticas mais realistas, permitindo políticas públicas mais precisas. Ainda assim, há subnotificações em alguns estados, o que impede uma resposta totalmente eficaz.

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Protocolos nacionais, integração de dados e equipes especializadas são essenciais para garantir proteção rápida e efetiva (Foto: Envato)

Renata comenta iniciativas recentes que considera positivas: a atualização do Protocolo Nacional de Investigação e Perícia em Feminicídios (2024–2025); aplicativos como o SP Mulher Segura; o Programa Sinal Vermelho; e a expansão das unidades especializadas com plantão 24h.

Mas, para ela, ainda falta integrar plenamente segurança, saúde e assistência social. Muitas vítimas são revitimizadas ao percorrer diferentes órgãos até obter proteção concreta. Investir em interoperabilidade dos sistemasfinanciamento estávelprotocolos intersetoriaisnúcleos de atendimento integrados, como a Casa da Mulher Brasileira, é urgente.

Os municípios também têm papel decisivo: implantação de Salas Lilás em hospitais, equipes móveis como o Ônibus Lilás, monitoramento eletrônico de agressores, programas de conscientização de homens e campanhas permanentes que incluam escolas, redes sociais e comunidades.

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Educação para igualdade de gênero desde a infância é uma das bases para romper ciclos de violência (Foto: Envato)

O 25 de novembro também carrega uma história que atravessa décadas. O símbolo da mariposa remete às irmãs dominicanas Patria, Minerva e María Teresa Mirabal, conhecidas como Las Mariposas, codinome usado na resistência à ditadura de Rafael Trujillo. As três foram assassinadas brutalmente em 1960, em um crime com motivação política e de gênero que o regime tentou encobrir como acidente.

A repercussão internacional levou a ONU a instituir o 25 de novembro como o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres. Desde então, a mariposa tornou-se símbolo mundial de coragem, resistência e transformação e lembra que a luta contra o feminicídio é também uma luta pela democracia, pela dignidade e pelo direito de cada mulher existir em segurança.

Quando pergunto o que a motiva a seguir num campo tão desafiador, a delegada responde com uma clareza que sintetiza toda a urgência do tema. “O que me move é ver uma mulher sair do ciclo da violência com vida, autonomia emocional e financeira. Cada vida salva é uma vitória”, diz.

Às mulheres, Renata deixa um recado: usar a própria voz é um ato de proteção e pedir ajuda nunca é fraqueza. Aos homens, um chamado à responsabilidade e à reconstrução. “Ser homem não é exercer poder, é exercer consciência. Um homem que reconhece seu papel no problema tem também o poder de ser parte da solução”, afirma.

A mudança que o mundo precisa começa nos gestos cotidianos: na palavra que respeita, na escuta que acolhe, na atitude que protege. Cada escolha importa e cada vida salva importa ainda mais.