A cada Copa do Mundo, milhões de brasileiros tiram do armário a camisa da Seleção. Mas algo mudou nos últimos anos. Hoje, essas peças aparecem muito antes do início dos jogos e continuam circulando muito depois do apito final. Estão em festivais de música, vídeos no TikTok, produções de street style e até nas passarelas internacionais.
O futebol continua mobilizando torcedores. A diferença é que agora também influencia a forma como as pessoas se vestem.
A transformação pode ser vista nas ruas. Camisas de clubes europeus, modelos retrô da Seleção Brasileira e uniformes de times locais passaram a fazer parte de produções que pouco têm a ver com assistir a uma partida. O que antes era considerado um item exclusivamente esportivo ganhou um novo significado e se tornou uma forma de expressão pessoal.
Parte desse movimento atende pelo nome de blokecore. A tendência surgiu a partir da cultura dos torcedores britânicos das décadas de 1980 e 1990 e combina camisas de futebol, jeans largos, tênis retrô e peças casuais. Popularizada pelas redes sociais, especialmente entre a Geração Z, ela ajudou a transformar a camisa de futebol em um dos símbolos mais reconhecíveis da moda jovem contemporânea.
Segundo a SPORTFIVE, conteúdos relacionados ao blokecore acumulam centenas de milhões de visualizações nas redes sociais desde 2023, ajudando a aproximar o universo do futebol de públicos que tradicionalmente não acompanhavam o esporte.
O interesse não ficou restrito ao ambiente digital. Segundo a plataforma de moda circular Depop, as buscas por camisas de futebol cresceram 100% em 2026 na comparação com o ano anterior, refletindo um interesse que vai muito além das arquibancadas e alcança consumidores atraídos por moda, cultura pop e peças vintage.

O chamado Brazil Core transformou referências ligadas ao futebol brasileiro em tendência internacional, combinando elementos esportivos, nostalgia e moda urbana (Foto: Reprodução / J3 Brasil)
Ao mesmo tempo, a indústria percebeu que havia algo maior acontecendo. Nas últimas temporadas, referências ao futebol apareceram em coleções de estilistas internacionais, campanhas publicitárias e colaborações entre marcas de luxo e grandes clubes. O esporte deixou de ser apenas inspiração para roupas esportivas e passou a ocupar espaço nas conversas sobre estilo e comportamento.
Essa aproximação também tem razões econômicas. De acordo com o relatório Football Money League, da Deloitte, os principais clubes do futebol europeu movimentaram mais de 11 bilhões de euros em receitas na temporada 2023/2024. Cada vez mais, essas organizações são vistas não apenas como instituições esportivas, mas como marcas globais capazes de influenciar consumo, entretenimento e moda.
Essa mudança não acontece apenas entre os gigantes europeus. No Brasil, ela também pode ser observada no crescimento de coleções inspiradas em clubes de futebol e pensadas para o uso cotidiano. Um exemplo é a Chico Rei, que nos últimos anos lançou linhas em parceria com clubes como Vasco, Sport, Fortaleza, Bahia e Atlético Mineiro.
Em vez de reproduzir apenas uniformes, muitas dessas coleções apostam em escudos históricos, mascotes, apelidos das torcidas e momentos marcantes dos clubes. São peças que dialogam tanto com torcedores quanto com consumidores atraídos pela estética e pela memória afetiva que o futebol carrega. Nesse contexto, o esporte deixa de ser apenas um tema esportivo e passa a dialogar diretamente com moda, identidade e estilo de vida.

Coleção da marca Chico Rei que prestigia a história do Esporte Clube Bahia (Foto: Divulgação)
Se o blokecore nasceu da cultura das arquibancadas inglesas, no Brasil o fenômeno ganhou contornos próprios. O chamado Brazil Core, tendência que resgata as cores da bandeira, peças esportivas vintage e referências visuais associadas à Seleção Brasileira, transformou elementos ligados à identidade visual do país em tendência internacional.
As cores verde e amarelo, os agasalhos esportivos e as referências estéticas dos anos 1990 e 2000 passaram a aparecer em coleções, campanhas e conteúdos produzidos por influenciadores dentro e fora do país. O movimento ganhou força após a Copa do Mundo de 2022, quando celebridades internacionais passaram a incorporar camisas da Seleção Brasileira e outras referências nacionais aos seus looks.
O que começou como uma estética ligada ao futebol rapidamente se espalhou para outros universos da moda e da cultura pop. Marcas brasileiras também passaram a reinterpretar esse imaginário, criando peças inspiradas na história do futebol nacional sem necessariamente reproduzir uniformes oficiais.
Mas reduzir o fenômeno a uma tendência passageira talvez seja simplificar demais a questão. O sucesso dessas peças está ligado a algo mais profundo: a capacidade do futebol de criar conexões emocionais.
Poucos elementos do vestuário carregam tantas histórias quanto uma camisa de futebol. Ela pode representar uma lembrança de infância, um campeonato inesquecível, uma cidade, uma família ou um grupo de amigos. Não por acaso, muitas das coleções lançadas atualmente apostam justamente na nostalgia, recuperando símbolos que fazem parte da memória dos torcedores.
Em uma época marcada pela busca por identidade e pertencimento, essas narrativas passaram a ter valor também fora dos estádios. Talvez seja essa a principal razão para o futebol ter conquistado espaço na moda. Não se trata apenas de estética. Trata-se de cultura.
E, em ano de Copa do Mundo, poucas peças traduzem isso tão bem quanto uma camisa de futebol.



