No dia 1º de dezembro de 1640, Lisboa acordou em silêncio tenso. Um grupo de conspiradores, os chamados “Quarenta Conjurados”, invadiu o Paço da Ribeira, depôs a governadora espanhola e lançou as bases para o fim de seis décadas de domínio estrangeiro. À frente desse movimento emergiu D. João IV, um nobre da Casa de Bragança que se tornaria o símbolo da restauração da independência portuguesa. Sua coroação, em 15 de dezembro, não foi apenas um ato político, mas uma afirmação da identidade de um povo.
Portugal vivia sob a União Ibérica desde 1580, quando a morte de D. Sebastião sem herdeiros levou à ascensão de Filipe II de Espanha ao trono português. Durante 60 anos, o país foi relegado a uma província do império espanhol, com impostos altos, perda de autonomia e o esvaziamento de sua influência global. A insatisfação crescia, alimentada por uma elite que via na Casa de Bragança a esperança de um renascimento. D. João, então duque de Bragança, era um candidato relutante, mas o destino o chamava.
A conspiração de 1640 foi um ato de coragem e risco. Os conjurados, liderados por figuras como João Pinto Ribeiro e Antão de Almada, sabiam que o sucesso dependia de um líder capaz de unir a nação. D. João IV, com sua linhagem nobre e reputação de prudência, foi a escolha natural. Após a revolta, ele aceitou o trono com hesitação, ciente de que a coroa vinha com o peso de uma guerra iminente contra a poderosa Espanha.

O Paço da Ribeira, em Lisboa, cenário central dos acontecimentos de 1º de dezembro de 1640 (Foto: WikiCommons)
O reinado de D. João IV, que durou de 1640 a 1656, foi marcado pela luta pela sobrevivência. A Espanha, sob Filipe IV, não aceitou a perda de Portugal sem resistência, desencadeando a Guerra da Restauração. Batalhas como a do Montijo (1644) e das Linhas de Elvas (1659, já após sua morte) mostraram a determinação portuguesa. D. João IV sabia que a independência não seria apenas conquistada, mas defendida com sangue e estratégia.
Além do front militar, D. João IV trabalhou para legitimar seu governo no exterior. Enviou embaixadores à França, Inglaterra e Holanda, buscando alianças contra a Espanha. O Tratado de Haia (1641) com os holandeses foi um passo crucial, embora tenha vindo com concessões territoriais no Brasil. Essas negociações revelaram sua habilidade diplomática, essencial para um reino pequeno enfrentando um gigante.
Internamente, o rei enfrentou desafios econômicos e sociais. Os anos de domínio espanhol haviam deixado Portugal empobrecido, e a guerra exigia recursos constantes. D. João IV impôs impostos e mobilizou a nobreza e o povo, enquanto incentivava a produção local para sustentar o esforço bélico. Sua liderança uniu classes sociais em torno de um objetivo comum: a liberdade.
Um aspecto menos conhecido de D. João IV é seu amor pela música. Apelidado de “Rei Músico”, ele compunha e patrocinava artistas, usando a cultura como forma de fortalecer o ânimo nacional. Em um tempo de crise, essa faceta mostra um líder que via na arte uma expressão da alma portuguesa, um contraponto à brutalidade da guerra.
A Igreja também desempenhou um papel central em seu reinado. D. João IV consagrou Portugal a Nossa Senhora da Conceição, declarando-a padroeira do reino — um gesto que reforçava a unidade espiritual e política. Essa devoção reflete a época, mas também sua estratégia de legitimar a dinastia de Bragança como escolhida por uma força maior.
A morte de D. João IV, em 6 de novembro de 1656, deixou a restauração inacabada. Sua esposa, D. Luísa de Gusmão, assumiu a regência em nome do filho, D. Afonso VI, enfrentando novos desafios. Contudo, o trabalho de D. João IV já havia plantado as sementes da vitória, consolidada em 1668 com o Tratado de Lisboa, que reconheceu a independência portuguesa.

D. Luísa de Gusmão, rainha de Portugal e regente do reino após a morte de D. João IV, teve papel decisivo na consolidação da Restauração portuguesa (Foto: WikiCommons)
O legado de D. João IV vai além dos campos de batalha. Ele devolveu a Portugal sua soberania, reacendendo o orgulho de uma nação que havia sido silenciada. Sua coragem em aceitar um trono em tempos de incerteza ecoa como um exemplo de liderança diante da adversidade. Não foi um rei de conquistas grandiosas, mas de uma reconquista essencial.
Hoje, D. João IV é lembrado como o “Restaurador”. Sua história nos ensina que a liberdade não é um presente, mas uma luta — uma verdade que ele viveu e que Portugal carregou adiante. Em um mundo moderno cheio de disputas por identidade e autonomia, seu reinado oferece uma lição atemporal sobre o poder da resistência.
D. João IV é mais que um rei: é um símbolo de como a verdade de um povo, quando defendida com determinação, pode libertá-lo das correntes da opressão. Sua coroa não foi apenas de ouro, mas de esperança — uma esperança que, em 1640, reacendeu a chama de Portugal.


