Comportamento

Adultização de crianças e infantilização de adultos: dois lados de uma mesma quebra de desenvolvimento

Por
Redação

8/31/2025

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Respeitar o tempo da infância é essencial para o desenvolvimento emocional saudável (Foto: Canva)

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Especialista em comportamento alerta para impactos emocionais da inversão de papéis e da perda do tempo natural de cada fase da vida

Nos últimos meses, uma tendência curiosa tomou conta das redes sociais: vídeos de adultos posando com chupetas. Para alguns, trata-se de uma brincadeira; para outros, um recurso para aliviar tensões. Mas, segundo a psicanalista Fabiana Guntovitch, o fenômeno aponta para algo mais profundo.

“Quando adultos usam símbolos tão ligados à primeira infância, como a chupeta, estamos vendo um movimento de regressão. É uma tentativa de lidar com pressões emocionais por meio de comportamentos que remetem ao conforto e à segurança de fases mais iniciais da vida”, explica.

A psicanálise já descreveu esse processo. Freud falava em “regressão” como forma de buscar alívio diante da pressão. Donald Winnicott, por sua vez, apontava que objetos como a chupeta funcionam, para os bebês, como apoio diante da ansiedade e da ausência — e que, em adultos, podem reaparecer como recurso de autorregulação. “Por trás da estética divertida, há um pedido silencioso. Para muitos, usar um objeto infantil é uma forma de dizer: ‘estou cansado de ser adulto o tempo todo’”, detalha Fabiana.

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Infantilização de adultos pode ser entendida como regressão diante das pressões da vida moderna (Foto: Canva)

O movimento contrário: a adultização precoce

No sentido inverso, mas com danos semelhantes, cresce a adultização infantil: crianças usando salto alto, maquiagens elaboradas, reproduzindo coreografias sensuais ou assumindo responsabilidades que não condizem com a idade. “Quando uma criança é empurrada para papéis adultos, ela constrói um ‘falso self’ — uma camada que parece madura, mas encobre fragilidades não elaboradas. Esse amadurecimento forçado cobra um preço alto na adolescência e na vida adulta”, alerta a especialista.

Dois extremos, uma mesma raiz

Apesar de parecerem opostos, infantilização de adultos e adultização de crianças compartilham uma base comum: a quebra do tempo natural de desenvolvimento. “No primeiro caso, o adulto volta atrás na tentativa de aliviar tensões. No segundo, a criança é empurrada para frente, sem ter completado etapas essenciais. Em ambos, há sofrimento e perda de algo fundamental: viver plenamente cada fase da vida”, afirma Fabiana.

A cultura contemporânea, segundo ela, reforça esse paradoxo: glamouriza a maturidade precoce das crianças e, ao mesmo tempo, estetiza a regressão dos adultos. O resultado é o embaralhamento de papéis e a fragilização da função de contenção dos mais velhos, enquanto se retira das crianças o direito ao tempo protegido de ser criança.

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Resgatar o valor simbólico de cada etapa da vida é o caminho para relações mais equilibradas (Foto: Canva)

“Adultos fragilizados encontram mais dificuldade para sustentar funções parentais consistentes. Crianças adultizadas, por sua vez, crescem com menos espaço para experimentar, errar e se desenvolver emocionalmente. É um ciclo que se retroalimenta e atravessa gerações”, completa.

Para a psicanalista, o desafio está em resgatar o valor simbólico de cada etapa. “Precisamos permitir que crianças sejam crianças, com espaço para brincar e fantasiar, e que adultos sejam adultos, capazes de sustentar responsabilidades, mas também de criar espaços saudáveis de descanso e cuidado”, diz.