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O problema não é a jornada ou o desempenho das mulheres. É o modelo de avaliação de liderança

Por
Patty Bórches

4/23/2026

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A presença feminina em espaços de decisão cresce, mas ainda não se traduz de forma proporcional nos níveis mais altos das organizações (Foto: Adobe Stock)

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A sub-representação feminina no topo das organizações revela uma falha estrutural nos critérios de avaliação, não uma falta de preparo

Por décadas, o discurso sobre liderança feminina tem sido conduzido por uma premissa conveniente: precisamos preparar mais mulheres para posições de liderança.

Essa afirmação, embora amplamente aceita, carrega um erro conceitual relevante. Parte da ideia de que há escassez de talento feminino qualificado.

Os dados e a prática mostram o contrário. Mulheres já apresentam níveis de escolaridade superiores, alta consistência técnica e forte capacidade de execução. Ainda assim, permanecem sub-representadas nos níveis mais altos das organizações, ocupando cerca de 29% das posições executivas no Brasil.

Esse descompasso não é um problema de capacitação. É um problema de modelo de avaliação.

O viés não está no discurso. Está no critério

A maioria das organizações acredita operar com critérios objetivos de avaliação. Na prática, esses critérios são profundamente influenciados por padrões históricos de liderança, construídos, em grande parte, a partir de trajetórias masculinas.

O que se reconhece como presença executiva, confiança ou potencial não é neutro. É um padrão aprendido. E, como todo padrão, favorece quem melhor o reproduz.

Entrevistas como laboratório invisível do viés

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Processos seletivos não avaliam apenas competências técnicas, mas também estilos de comunicação, o que pode influenciar a forma como potencial e liderança são interpretados (Foto: Adobe Stock)

Processos seletivos são frequentemente tratados como instrumentos de avaliação técnica e comportamental. Mas, na realidade, funcionam como um ambiente de validação de estilo.

Ao longo de mais de vinte e cinco anos atuando em operações complexas e participando de decisões de contratação em larga escala, observei um padrão consistente. Profissionais igualmente competentes são avaliados de forma distinta com base na forma como comunicam, e não apenas no que entregam.

Homens, em média, tendem a comunicar potencial com maior assertividade, mesmo quando esse potencial ainda não foi plenamente testado. Mulheres, por outro lado, frequentemente apresentam sua trajetória com maior precisão, detalhamento e senso de responsabilidade, o que, paradoxalmente, pode ser interpretado como menor prontidão.

Não estamos falando de competência. Estamos falando de interpretação de sinais.

O erro sistêmico: confundir confiança com capacidade

Um dos vieses mais críticos e menos discutidos é a associação direta entre confiança percebida e capacidade real. Esse atalho cognitivo é eficiente, mas impreciso.

Confiança é comunicação. Capacidade é entrega.

Quando organizações priorizam sinais de confiança como proxy de liderança, criam um sistema que favorece quem melhor performa na superfície, não necessariamente quem entrega com consistência no longo prazo.

Competência sob pressão não é o único indicador de liderança

Entrevistas avaliam, essencialmente, comunicação sob pressão. Esse é um recorte específico e limitado da capacidade profissional. Ainda assim, decisões estratégicas continuam sendo tomadas com base nesse momento.

Isso levanta uma questão relevante para conselhos, C-levels e áreas de gestão de pessoas: estamos medindo liderança ou apenas fluência em ambientes de alta exposição?

O custo organizacional da leitura equivocada

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Critérios de liderança são frequentemente construídos a partir de padrões históricos, influenciando quem é reconhecido como potencial nas organizações (Foto: Adobe Stock)

Esse desalinhamento não é apenas uma questão de equidade. É uma questão de performance organizacional.

Empresas que operam com modelos restritos de reconhecimento de liderança tendem a reduzir a diversidade de pensamento em níveis estratégicos, reforçar padrões homogêneos de decisão, perder talentos com alto potencial de execução e consistência e limitar sua capacidade de adaptação em cenários complexos.

Em outras palavras, o viés custa resultado.

O ajuste necessário: de treinamento individual para revisão sistêmica

Existe, sim, um papel importante das profissionais em fortalecer a comunicação de valor, estruturar narrativas e sustentar posicionamento com segurança.

Mas tratar esse desafio apenas como responsabilidade individual é insuficiente. A transformação real exige uma mudança de lente organizacional.

Isso implica revisar critérios de avaliação de liderança, diferenciar comunicação de capacidade, ampliar repertórios de reconhecimento de potencial e reduzir a dependência de impressões subjetivas em decisões críticas.

A pergunta que define o próximo ciclo

A discussão sobre liderança feminina não deve mais girar em torno de preparação.

Ela precisa evoluir para uma reflexão mais desconfortável e mais estratégica: nossos sistemas de avaliação são capazes de reconhecer liderança fora do padrão que os criou?

Se a resposta for não, o problema não está na competência. Está no sistema.

E sistemas, ao contrário de pessoas, não evoluem espontaneamente. Eles precisam ser redesenhados.