Comportamento

Carta aberta à minha mãe

Por
Ivone Sousa

5/11/2026

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Gesto cotidiano de afeto que permanece na memória mesmo na ausência (Foto: Adobe Stock)

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Um relato sobre o que permanece quando a presença deixa de existir

Sinto raiva. Na verdade, sinto ódio.

A senhora, que sempre me preparou para o mundo, seus perigos, os lobos em pele de cordeiro e a lidar com as frustrações, não me ensinou a viver sem a sua presença. Nada me prepararia. Talvez a senhora já soubesse disso. Não existe ritual que alivie.

Queria tanto compartilhar essa nova versão de mim com a senhora. Uma versão que conversa mais, que questiona, que quer entender e que pede mais perdão. Ainda tenho dificuldade de dizer “eu te amo”, mas lembro que falei bastante antes da sua partida, principalmente porque pelo telefone era mais fácil. E não reclamo disso. Sempre senti esse amor nas suas atitudes, aquelas que ficam para sempre na memória.

Eu sei o quanto a senhora, mesmo sem estudo formal, fez questão de ser uma educadora exemplar, pela paciência e pela conversa. Momentos simples viraram eternos.

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Memórias de infância e pequenos rituais de cuidado que atravessam o tempo (Foto: Adobe Stock)

Como quando me ensinava a fazer o “I” maiúsculo do meu nome no quibano de palha enquanto escolhia o arroz. Eu tinha apenas três anos, mas lembro.

Ou todas as noites, antes de dormir, quando lia algum versículo ou salmo da Bíblia. Eu me encantei pelo Salmo 121 e fazia a senhora repetir infinitas vezes até eu decorar. Depois, orgulhosa, recitava em reuniões de pais, na igreja, onde me deixassem falar.

Ou naquela noite antes do meu vestibular, quando eu não conseguia dormir. Seu pressentimento de mãe fez com que a senhora fosse até o meu quarto de madrugada. Perguntou se estava tudo bem e preparou um leite morno. Naquela cozinha, éramos só nós duas. Na confidência, no silêncio, no cuidado. Aquela era a sua forma de dizer que me amava.

Dentre todos os meus livros, Histórias de Alexandre te cativou. E, por isso, também me marcou.

Me falta um pouco da paciência que a senhora tinha.

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A ausência que permanece e redefine a forma de seguir (Foto: Adobe Stock)

Às vezes me sinto sozinha no mundo. Mesmo tendo apoio, não é a mesma coisa. Acho que ficar órfã de mãe é isso. É perder o chão, a direção, a estrada e a companhia que tornava a jornada mais leve.

Te amo, mãe.

E, para quem também carrega essa ausência, eu só posso dizer: a gente aprende a continuar. Não fica mais fácil, mas fica possível. O amor não vai embora com elas. Ele muda de lugar. E, de alguma forma, segue sustentando a gente.