Em 5 de outubro de 1910, Portugal encerrou quase oito séculos de monarquia com a Revolução Republicana, que depôs D. Manuel II, o último rei português, e proclamou a Primeira República. O episódio marcou o fim da dinastia de Bragança e abriu um período de transformações e instabilidades, refletindo as tensões de um país dividido entre tradição e modernidade.
A ascensão de um rei inesperado
D. Manuel II, nascido em 15 de novembro de 1889, era o segundo filho de D. Carlos I e D. Amélia de Orléans. Não estava destinado a reinar. Seu irmão mais velho, D. Luís Filipe, era o herdeiro do trono.
O regicídio de 1º de fevereiro de 1908, no Terreiro do Paço, alterou esse destino. Durante o atentado, D. Carlos I e D. Luís Filipe foram assassinados. D. Manuel, então com 18 anos, sobreviveu com um ferimento leve e foi proclamado rei, assumindo o trono em maio daquele ano.
Jovem e inexperiente, herdou uma monarquia fragilizada por divisões políticas, crise econômica e crescente oposição republicana. Sua formação havia sido sólida, mas voltada para um papel secundário. Ainda assim, demonstrava sensibilidade cultural e atenção ao país.
Um reinado curto e pressionado

O regicídio de 1908, no Terreiro do Paço, precipitou a subida inesperada de D. Manuel II ao trono (Foto: WikiCommons)
O reinado de D. Manuel II, entre 1908 e 1910, foi marcado por tentativas de estabilizar uma monarquia em declínio. Portugal vivia sob a Carta Constitucional de 1826, com poderes reais limitados e forte instabilidade política.
O rei tentou reduzir tensões por meio de medidas conciliatórias. Nomeou um governo apartidário, liderado pelo almirante Ferreira do Amaral, na tentativa de unir as facções monárquicas, mas sem sucesso. Também buscou diálogo com lideranças socialistas, sem resultados concretos.
Na política externa, manteve a estratégia de aproximação com a Grã-Bretanha, incluindo planos de alianças dinásticas. A morte do rei Eduardo VII, em 1910, interrompeu essas negociações.
Apesar de uma simpatia inicial, impulsionada por sua juventude e pela comoção do regicídio, sua imagem foi rapidamente fragilizada pela propaganda republicana.
Ao mesmo tempo, o país enfrentava estagnação econômica, aumento da dívida e dependência de empréstimos externos. O Partido Republicano Português ganhava força com uma agenda de progresso, secularismo e reforma política.
A Revolução de 1910

José Relvas, político, latifundiário e diplomata português, proclamou a Primeira República Portuguesa na manhã de 5 de outubro de 1910, a partir da varanda da Câmara Municipal de Lisboa, marcando o fim de 767 anos de monarquia (Foto: WikiCommons)
A revolução republicana foi articulada pelo Partido Republicano Português, que já defendia a via armada desde 1909. O assassinato do médico Miguel Bombarda, em outubro de 1910, intensificou o clima político e acelerou a mobilização.
Na noite de 3 para 4 de outubro, militares, marinheiros e civis iniciaram um levante em Lisboa. Pontos estratégicos foram ocupados e o Palácio das Necessidades, residência real, foi bombardeado.
Diante da situação, D. Manuel II deixou Lisboa e seguiu para Mafra, reunindo-se com a família. Com comunicações interrompidas e sem apoio militar consistente, a resistência monárquica se enfraqueceu rapidamente.
Na manhã de 5 de outubro, a república foi proclamada em Lisboa. Sem condições de reação, o rei partiu para o exílio, embarcando na Ericeira rumo a Gibraltar e, depois, à Inglaterra.
O exílio e a preservação da memória

O casamento de D. Manuel II de Portugal e de D. Augusta Vitória de Hohenzollern-Sigmaringen, na Igreja Paroquial de Sigmaringen, Alemanha, em 4 de Setembro de 1913 (Foto: WikiCommons)
No exílio, D. Manuel II manteve uma postura discreta e dedicou-se à cultura. Sua principal contribuição foi a publicação de Early Portuguese Books, 1489–1600, um catálogo de obras raras que valorizou o patrimônio bibliográfico português.
Recusou apoiar tentativas de restauração monárquica por via armada, defendendo que qualquer retorno deveria ocorrer por vontade popular.
Morreu em 1932, sem descendentes. A chefia da Casa de Bragança passou a outros ramos da família.
Entre duas leituras da história
A Revolução de 1910 é interpretada de formas distintas. Para monarquistas, foi um golpe que rompeu a ordem constitucional e enfraqueceu o país. Para republicanos, representou a superação de um sistema considerado obsoleto e a abertura para reformas políticas e sociais.
A Primeira República trouxe avanços importantes, como a separação entre Igreja e Estado, mas também enfrentou forte instabilidade, com sucessivos governos e crises políticas.
Um fim que marcou um início
D. Manuel II permanece como uma figura associada a um momento de ruptura. Seu reinado curto e suas tentativas de conciliação refletem os limites de uma monarquia já desgastada.
A Revolução de 1910 não apenas encerrou um ciclo histórico, mas inaugurou um novo período de disputas sobre os caminhos políticos de Portugal — um debate que, em diferentes formas, ainda ecoa na compreensão do país sobre seu próprio passado.
Fontes
- Encyclopaedia Britannica. Portugal: Revolution, Republic and Monarchy
- Encyclopaedia Britannica. Manuel II of Portugal
- RTP. Nova biografia de D. Manuel II
- SciELO Brasil. As letras de uma revolução
- Portugal.com. The Portuguese Revolution of 5 October 1910
- Wikipedia. First Portuguese Republic
- Wikipedia. Manuel II of Portugal
- Wikipedia. Revolução de 5 de Outubro de 1910



