Comportamento

Do medo ao alívio: o que acontece quando uma mulher denuncia

Por
Ivone Sousa

11/30/2025

Article banner

(Foto: Envato)

X logo

Na véspera do Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres (25/11), um relato pessoal e a análise da delegada Ivalda Aleixo reforçam a importância de identificar sinais, denunciar cedo e buscar apoio

Eu sempre soube que a violência contra a mulher existia.
Mas, como muitas, jamais imaginei me tornar parte dessa estatística.

Eu terminei um relacionamento após descobrir uma traição. E, por um breve instante, achei que o pior tinha sido aquilo.
Estava enganada.

Seis meses depois, já em outra relação, meu ex-companheiro seguia me importunando: mensagens, SMS, cartas, bilhetes, ligações, pix com recados, desbloqueios ao apagar mensagens (ele é hacker)… Até que o absurdo chegou em forma de presença física: espionando na janela do meu banheiro e na porta da minha casa.

Sim, éramos vizinhos de condomínio.
E sim, eu sabia que ele estava armado.

O medo tomou conta.
Medo de sair, de voltar para casa, de dormir.
Medo de virar manchete.

Uma amiga policial me disse o que eu precisava ouvir: já passou da hora de denunciar. Nunca pague para ver até onde um agressor pode chegar.

Eu respirei fundo e fui à 1ª Delegacia de Defesa da Mulher de São Paulo, com o coração na mão.
Esperava frieza, burocracia.
Recebi o oposto.

Fui acolhida desde o primeiro minuto.
Em poucas horas, saí de lá com uma medida protetiva determinando que ele não poderia se aproximar a menos de 200 metros de mim, nem fazer contato por qualquer meio.
Foi como poder respirar de novo.

Dentro da delegacia, vi mulheres feridas, acompanhadas de filhos, vivendo pesadelos que eu nunca tinha testemunhado.
Por alguns instantes, pensei que meu caso era pequeno diante dos delas.
Mas medo é medo.
E liberdade de ir e vir é um direito universal.

Quando vi o violentômetro estampado na parede, entendi: eu estava no lugar certo.

Post image

Violentômetro exposto na Delegacia da Mulher: a ferramenta ajuda a identificar sinais graduais de abuso e orienta sobre quando buscar ajuda (Foto: Divulgação)

Para aprofundar esse tema, conversei com a delegada Ivalda Aleixo, Diretora do DHPP/SP, que pontuou aspectos fundamentais sobre a violência contra a mulher. Segundo ela, a violência não é apenas física — está presente de forma psicológica, moral, patrimonial, sexual e também digital.

A partir daqui, trago um conteúdo complementar com informações adicionais da própria delegada sobre o tema, ampliando a reflexão para outros contextos e dinâmicas de violência.

Violência contra a mulher: reconhecer cedo, denunciar sempre

No Brasil, a violência contra a mulher permanece como uma das violações de direitos humanos mais recorrentes. Para além das agressões físicas, há inúmeras formas de abuso que se manifestam silenciosamente e se normalizam dentro de relações afetivas. Por isso, compreender esses sinais é fundamental para romper um ciclo que, muitas vezes, pode custar vidas.

Post image

Delegada Ivalda Aleixo, Diretora do DHPP/SP, referência no enfrentamento à violência contra a mulher e na orientação às vítimas (Foto: Divulgação)

Segundo a delegada Ivalda Aleixo, Diretora do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP/SP), é preciso ampliar o conceito social do que se entende por violência doméstica. Ela explica que agressão física é apenas a forma mais visível, mas não a mais frequente.

A violência costuma se manifestar também de forma psicológica, moral, patrimonial, sexual e digital. “Muitas vítimas não percebem que estão nessa condição porque o agressor costuma mascarar controle e desrespeito como cuidado ou ciúme”, afirma.

O que impede a denúncia

O medo é o principal fator que mantém mulheres em situação de risco.
Segundo a delegada, esse medo pode ter diferentes formas: retaliação, perda dos filhos, dependência financeira ou emocional, julgamento social e a crença de que “não vai dar em nada”. 

Esses elementos reforçam o chamado ciclo da violência, que prende a mulher por anos em uma relação abusiva e, muitas vezes, compromete sua autoestima a ponto de gerar a chamada “síndrome da mulher maltratada”.

Quando denunciar?

A recomendação da delegada é clara: o ideal é procurar ajuda nos primeiros sinais de controle. A violência raramente começa com agressões. Ela se inicia com atitudes como tentativa de isolamento da família e amigos, ciúme excessivo, humilhações e manipulação emocional. “Quanto antes a mulher rompe esse ciclo, maiores são as chances de se proteger e evitar a escalada da violência, inclusive o feminicídio”, reforça.

Denunciar não é fraqueza.
É autoproteção e coragem.

Post image

A violência psicológica pode comprometer a autoestima e aprisionar mulheres por anos (Foto: Envato)

Violência não tem classe social

Casos recentes amplamente divulgados demonstram que a violência atravessa todas as camadas sociais. 

A delegada explica que, embora o tema historicamente tenha sido associado à vulnerabilidade econômica, mulheres de todas as classes, profissões e níveis de instrução estão sujeitas à violência.  Segundo ela, quando o agressor ocupa posição de prestígio político, social ou financeiro, a tendência é que a subnotificação seja ainda maior. “A lei vale para todas. Reconhecer que a violência não escolhe endereço é essencial para uma justiça mais equitativa”, diz.

Rede de apoio

Mulheres podem buscar ajuda em diferentes portas de entrada:
• Delegacias de Defesa da Mulher
• Disque 180
• CRAS e CREAS
• Centros de Referência da Mulher

Nesses locais, é possível receber atendimento psicológico, social e jurídico gratuito, além de orientação sobre medidas protetivas e, quando necessário, encaminhamento para abrigos. O acolhimento emocional é parte crucial desse processo. Muitas mulheres precisam reconstruir sua autonomia e autoestima após anos de violência.

Post image

Delegacias da Mulher, CRAS, CREAS e Centros de Referência oferecem acolhimento jurídico, social e psicológico (Foto: Envato)

Quando a violência está na internet

As redes sociais trouxeram visibilidade às vítimas, ampliando o debate público e fortalecendo redes de apoio.
Por outro lado, abriram espaço para novas formas de agressão: exposição íntima sem consentimento, perseguição virtual, ameaças, difamação.

A delegada alerta ainda para o crescimento de grupos masculinistas, incel, redpill, MGTOW e coaches da “masculinidade”, que difundem discursos culpabilizando mulheres e normalizando comportamentos violentos. Alguns chegam ao absurdo de defender que mulheres devem ser submissas para “restaurar a virilidade masculina”. “Não merece sequer comentários”, afirma.

Por isso, políticas públicas de enfrentamento também precisam contemplar o ambiente digital.

Para além dos números

A violência contra a mulher produz não apenas mortes, mas adoecimento físico e emocional, isolamento social, impacto em filhos, ruptura de vínculos e perda de autonomia. Reconhecer os sinais, orientar com responsabilidade e garantir acesso à rede de apoio salva vidas.

A mensagem é simples, mas urgente: denunciar é um ato de coragem, e nenhuma mulher está sozinha.

E deixo aqui meu agradecimento público à Delegacia de Defesa da Mulher, especialmente à delegada Cristine, ao policial Lucas Garutti e à delegada Ivalda Aleixo pelo trabalho sério, ágil e profundamente humano.