Comportamento

Escrever depois dos 60

5/26/2026

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Jozias Benedicto publicou o primeiro livro aos 63 anos e hoje é finalista do Prêmio LeYa Portugal com o romance As vontades do vento (Foto: Divulgação)

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Finalista do Prêmio LeYa Portugal, o maranhense Jozias Benedicto encontrou na literatura uma nova forma de criação após décadas trabalhando em outra área

Jozias Benedicto publicou o primeiro livro aos 63 anos. Antes disso, trabalhou durante décadas na área de Tecnologia da Informação, atuou com artes visuais, curadoria e produção de textos críticos. A literatura veio depois, mas não como passatempo tardio ou mudança radical de vida. Veio como continuidade de um percurso criativo que encontrou outra forma de expressão.

Hoje, aos 74 anos, o escritor maranhense chega à final do Prêmio LeYa Portugal com o romance As vontades do vento.

No livro, memória, perda e passagem do tempo atravessam uma narrativa construída por múltiplas vozes. A história acompanha uma família marcada por silêncios, ascensão social, decadência e heranças emocionais que atravessam gerações.

Misturando realismo fantástico e observação social, o romance transita entre o interior do Norte do país e os deslocamentos rumo às grandes cidades. Mortos e vivos compartilham o mesmo espaço narrativo, enquanto o passado retorna constantemente para reorganizar o presente.

“Nunca quis escrever ensaio ou não ficção, nem um romance realista e engajado. Meu caminho foi desenvolver esses temas por meio da ficção e de suas vertentes mágicas e fantasiosas”, afirma o autor.

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Em As vontades do vento, o escritor mistura memória, realismo fantástico e relações familiares em uma narrativa construída por múltiplas vozes (Foto: Divulgação)

Dividido em três partes e narrado em primeira pessoa por diferentes personagens, As vontades do vento costura histórias familiares atravessadas por religião, herança escravocrata, deslocamento social e violência. Em vez de seguir uma estrutura linear, o livro constrói a narrativa a partir de perspectivas fragmentadas que se cruzam ao longo do romance.

A experiência pessoal também aparece de forma indireta na escrita. Jozias conta que o processo de criação foi atravessado pela morte da mãe e por um incêndio em seu apartamento, episódios que impactaram a elaboração do livro.

Ainda assim, evita tratar a literatura apenas como elaboração emocional.

“Ainda que o livro tenha me ajudado a superar traumas, não é o efeito terapêutico que me move como artista. O que importa é saber se a obra atinge o leitor”, afirma .

Nascido em São Luís, em 1950, o escritor viveu grande parte da vida no Rio de Janeiro e passou também por Brasília antes de dividir o tempo entre Brasil e Lisboa. Depois da aposentadoria, aprofundou os estudos em literatura e artes na PUC-Rio e ampliou sua atuação cultural.

A maturidade aparece em sua obra menos como tema e mais como perspectiva. Os personagens não são construídos a partir de certezas ou conclusões fáceis. Há ambiguidades, ressentimentos, afeto e contradições atravessando cada narrativa.

Ao mesmo tempo, o romance observa mudanças sociais brasileiras ao longo das décadas sem transformar essas questões em discurso direto. O contexto político e social surge incorporado à experiência íntima dos personagens.

No fim, As vontades do vento parece menos interessado em explicar o passado do que em mostrar como ele continua circulando dentro das famílias, das cidades e da memória.


Serviço

As vontades do vento
Autor: Jozias Benedicto
Editora: Caravana Grupo Editorial
195 páginas