Que dia é mesmo o Ano Novo?
Quando o papa Gregório XIII instituiu o calendário gregoriano, em 1582, incorporou aos festejos de Natal e Ano Novo muitos rituais de povos antigos. Os celtas, por exemplo, celebravam a virada no festival de Yule, realizado no solstício de inverno do hemisfério norte. Após a noite mais longa do ano, o sol voltaria lentamente a brilhar, trazendo calor e fartura.
Os romanos, por sua vez, comemoravam a Saturnália, também em dezembro, uma festividade dedicada a Saturno, deus da abundância e da renovação. Vale lembrar que, na antiguidade, o inverno era um período de grandes perdas de plantação e animais, e o ano novo representava esperança, prosperidade e renascimento. Já os chineses, até hoje, seguem outra referência, celebrando o ano novo na segunda lua nova após o solstício de inverno.
Para muitos povos, o ano novo não acontece em dezembro. Os judeus seguem seu próprio calendário e festejam o Rosh Hashaná, que marca dez dias de introspecção e meditação. Persas e fenícios celebravam o novo ano no equinócio da primavera. Egípcios e maias consideravam que ele começava em 26 de julho, quando a Estrela Sírius se aproximava ao máximo do Sol.

O Rosh Hashaná marca o início de um período de introspecção e renovação espiritual no calendário judaico (Foto: Adobe Stock)
Em 1987, o historiador norte-americano José Argüelles propôs abolir o calendário gregoriano e adotar o calendário maia das treze luas, em seu livro O fator Maia. Se tivesse sido ouvido, a data do nosso Ano Novo seria outra. Quando perguntaram à filósofa Lúcia Helena Galvão o que achava da proposta, ela respondeu: “Não adianta mudar o calendário se as pessoas não mudarem”.
Da mesma forma, digo que não adianta mudar o ano se as pessoas não mudarem.
Com tantas versões, fica claro que o Réveillon não é um fato universal, mas uma construção cultural. E não há mágica nele, embora exista uma mística. Se você acredita que vai acordar amanhã com tudo diferente, talvez precise mesmo é acordar para a vida. Sou grata simplesmente por acordar e estar viva. O resto, a gente administra.
Primeiro de janeiro é apenas mais um dia. Talvez mais legal porque é feriado e você está cercado de pessoas queridas. Se mora no Brasil, há boas chances de ser um dia ensolarado de verão. No mais, tudo segue igual: seu emprego ou desemprego, sua saúde ou a falta dela, seus bons e maus hábitos.

Quando a mudança vem de dentro, qualquer dia pode ser o primeiro do ano (Foto: Envato)
Então, nesta noite, o “nosso ano novo”, tente não se iludir com mudanças que não vão acontecer por decreto. Evite promessas que você sabe que não vai cumprir. Mas, se quiser, mantenha o ritual: agradecer, pedir desculpas, fazer um balanço da vida e se perguntar como ser alguém melhor para si, para os outros e para o mundo.
Isso, sim, é bonito na “passagem de ano”, independentemente do calendário. Essa é a mística: todos juntos na mesma egrégora, vibrando amor, fé e esperança.
Desculpe se, neste artigo, não desejei um “feliz ano novo”. Mas quis provocar, como faz a professora Lúcia Helena: se formos pessoas melhores, teremos sempre um feliz ano todo.


