Durante a adolescência, eu carregava uma vergonha silenciosa do meu próprio corpo. Aquela fase em que a gente se compara demais, quer ser perfeita, mede tudo pela régua das amigas e acredita que intimidade é algo que só acontece depois de atingir um padrão invisível, mas muito exigente. Eu ainda estava ocupada demais tentando caber.
Foi nessa época que, vasculhando a biblioteca pública da minha cidade e pegando qualquer livro que me chamasse atenção, me deparei com Na minha cadeira ou na tua?, de Juliana Carvalho. Cadeirante desde os 19 anos, ela escreveu sobre intimidade e prazer com um humor tão natural que me desarmou. Minha reação foi quase ingênua: ela escreveu sobre isso mesmo? Assim, com essa facilidade? Coisas desse tipo só existiam no meu imaginário mais secreto, naquele lugar onde a culpa costuma morar.

Capa do livro “Na minha cadeira ou na tua”, livro de estreia da publicitária e ativista Juliana Carvalho, publicado em 2010 (Foto: Divulgação)
O que mais me marcou não foi o tema em si, mas a forma. Juliana falava de intimidade rindo, e isso foi completamente novo para mim. Rir de si mesma, do próprio corpo, dos próprios desejos. Naquele momento, eu ainda não tinha maturidade para entender, mas hoje vejo que aprender a rir da própria humanidade é uma das maiores viradas da vida adulta.
Anos depois, percebo como o humor virou uma chave importante. Primeiro como estranhamento, depois como libertação. O riso, muitas vezes, é o jeito mais elegante que o inconsciente encontra de tocar em assuntos que antes pareciam proibidos. Tudo isso, claro, vem com o tempo. Com maturidade. Intimidade não floresce sob cobrança, nem sob receitas prontas. Ela precisa de espaço, de curiosidade e de um pouco menos de violência consigo mesma.

Permitir-se sentir também é uma forma de liberdade (Foto: Adobe Stock)
Talvez seja por isso que Samantha Jones tenha se tornado a personagem favorita de tantas mulheres em Sex and the City. Samantha representa aquilo que desejamos ser no imaginário: livre, segura, curiosa, dona do próprio prazer. Mas que, no mundo real, sabemos que não é tão simples assim sustentar. Ela não é um manual de comportamento, é um símbolo. Uma fantasia honesta de liberdade.
A diferença é que, enquanto Samantha parece ter nascido pronta, nós vamos nos construindo aos poucos. Errando, recuando, avançando. E tudo bem. Intimidade, prazer e escolha caminham juntos quando deixamos de nos cobrar tanto, de nos comparar tanto, de seguir roteiros que não respeitam nosso tempo.
No fim, talvez a maior forma de liberdade seja essa: permitir-se explorar a própria intimidade sem culpa. Confiar que tudo flui quando a gente cria raízes em solos mais férteis. Sem pressa.


