A trajetória de Jacira Haickel começou cedo, por necessidade. Órfã de pai aos três anos, tornou-se ainda adolescente apoio financeiro da mãe. Aos 13, ingressou como menor aprendiz no Banco do Nordeste do Brasil e, desde então, nunca deixou de trabalhar. Hoje, aos 56 anos, soma 43 anos de empreendedorismo e ocupa a diretoria de um dos principais hotéis do Maranhão.
Entre o início precoce e o cargo de liderança que ocupa hoje, há uma história atravessada por pertencimentos, rupturas e reconstruções. Jacira se casou aos 15 anos e viveu por 23 anos sob a ideia de que pertencer também era uma forma de segurança. Durante quase duas décadas, ajudou a construir uma empresa que precisou deixar para trás com o fim do casamento. A perda material foi significativa, mas a transformação interna foi ainda maior.
Ela conta que houve um momento em que se cansou de tentar corresponder às expectativas externas. “Chegou uma hora em que eu parei de me explicar e de tentar ser a versão que esperavam de mim. Quando percebi que viver para corresponder me afastava da minha verdade, algo virou. Deixar de agradar não foi perda. Foi liberdade”, afirma.
A reconstrução veio acompanhada de estudo e estratégia. Voltou à sala de aula, fez faculdade, formou-se corretora de imóveis pelo Sindimóveis, abriu uma nova empresa, concluiu uma pós-graduação e um MBA em Gestão Financeira. Mais tarde, integrou uma sociedade com sete investidores homens, experiência que consolidou sua presença em ambientes tradicionalmente masculinos. Hoje, à frente de um dos hotéis mais reconhecidos do estado, fala de liderança sem dramatização e sem euforia.

Com postura firme e presença serena, Jacira Haickel construiu sua trajetória entre rupturas, estudo e reinvenção profissional (Foto: Divulgação)
Ao revisitar a própria história, observa que muitas mulheres relativizam o que constroem. Trabalham desde cedo, sustentam famílias, atravessam perdas e recomeçam, mas raramente reconhecem a dimensão da própria trajetória. “Nós nos acostumamos a achar que é normal dar conta de tudo. E não é pequeno o que fazemos”, diz.
O tempo, que antes parecia cobrança constante, tornou-se aliado. “Durante muito tempo eu lutei contra ele. Queria apressar as coisas, controlar. Até entender que o tempo não me tirou nada, ele me trouxe clareza”, conta. Hoje, diz que aprendeu a respeitar o ritmo do corpo, das escolhas e da vida.
Ela reconhece que precisou deixar para trás a versão que acreditava ter que provar o tempo todo que era suficiente. Em seu lugar, construiu outra, mais consciente e menos exausta. “Eu me permito o silêncio, o descanso, o não. Cuidar de mim sem culpa não é egoísmo. É sobrevivência emocional”, diz.
Se tivesse que resumir o momento atual em uma palavra, escolheria plenitude. “Eu vivo com menos ruído externo e mais verdade interna. Sei quem sou e sigo em paz com a mulher que me tornei”, afirma.
Para quem atravessa mudanças, sua mensagem é simples. Reinventar-se não apaga o passado. Amplia. E maturidade pode ser a forma mais sofisticada de liberdade.


