A transformação digital deixou de ser uma promessa distante. A inteligência artificial já impacta rotinas corporativas, cadeias produtivas e modelos de negócio. Mas os efeitos dessa transição não são neutros. Dados recentes indicam que a automação tende a afetar de forma desproporcional o trabalho feminino, ao mesmo tempo em que as mulheres seguem sub-representadas nas áreas mais estratégicas da nova economia tecnológica.
Levantamento global da Organização Internacional do Trabalho aponta que 9,6% dos empregos ocupados por mulheres estão sujeitos à automação, frente a 3,5% dos ocupados por homens. No Brasil, o cenário é ainda mais desafiador. Estudo da FGV Ibre, com base em dados do Stanford AI Index 2025 e do LinkedIn, mostra que o país ocupa a última posição entre 48 nações analisadas em participação feminina em inteligência artificial.
O contraste expõe um duplo risco. De um lado, mulheres concentradas em funções administrativas e operacionais, mais facilmente automatizáveis. De outro, baixa presença nos campos de tecnologia, ciência de dados e desenvolvimento de sistemas - áreas que concentram poder decisório e valorização salarial na economia digital.
Para a estrategista de carreiras Thaís Roque, esse cenário exige uma mudança de postura diante da tecnologia. “A nova vantagem competitiva não é apenas saber operar ferramentas, mas entender como integrá-las à tomada de decisão, à criatividade e à gestão de pessoas”, afirma. Segundo ela, a inteligência artificial executa tarefas, mas a direção estratégica continua sendo humana.

O desafio não é apenas acompanhar a tecnologia, mas ocupar os espaços onde as decisões são tomadas (Foto: Adobe Stock)
O ponto central não está apenas na substituição de funções, mas na redefinição de valor no mercado de trabalho. Profissionais capazes de interpretar dados, conectar inovação a resultados e liderar processos de transformação tendem a ocupar posições mais estratégicas. Nesse contexto, habilidades como pensamento crítico, negociação, comunicação e visão sistêmica ganham peso adicional.
A discussão ultrapassa o campo individual. Trata-se de uma questão estrutural. Se a transição digital ocorrer sem políticas de inclusão e formação tecnológica voltadas para mulheres, o risco é aprofundar desigualdades já existentes. Por outro lado, a ampliação do acesso a capacitação em IA, dados e tecnologia pode representar uma inflexão histórica na ocupação de espaços de liderança.
“O momento não é de temer a inteligência artificial, mas de se apropriar dela”, diz Thaís. Para ela, a presença feminina nas discussões sobre inovação, impacto e futuro do trabalho será determinante para definir quem ocupará as posições de influência na próxima década.
A economia orientada por dados está em construção. E, como toda construção social, ela reflete quem participa de sua arquitetura. A questão que se impõe não é apenas quantos empregos serão transformados pela IA, mas quem estará preparado para moldar as decisões que virão com ela.


