O Candeal não é um bairro conhecido apenas pelos shows que abriga. Ele se revela no cotidiano: nos sons que escapam das casas, nas pessoas que se reconhecem, na memória coletiva que se renova a cada encontro. Às margens da avenida Juracy Magalhães Júnior, em Salvador, esse território reúne uma das experiências mais consistentes de construção cultural comunitária do país, impulsionada por alguém que nunca se desconectou de sua origem: Carlinhos Brown.
Nascido e criado no Candeal, Brown transformou sua relação com o bairro em um projeto contínuo de desenvolvimento humano. Música, espiritualidade, educação e convivência sempre caminharam juntas ali. Não como áreas separadas, mas como partes de uma mesma prática cotidiana.
Foi desse entendimento que surgiu o Candyall Guetho Square, espaço que se consolidou como ponto de encontro, ensaio e celebração. Em períodos como o Carnaval, quando Salvador ganha escala ampliada, o Candyall reafirma sua importância por representar a raiz comunitária de uma cultura que hoje circula pelo mundo.

Área de convivência do Candyall Guetho Square, pensada como extensão da vida do bairro: encontro, permanência e circulação de pessoas (Foto: Márcio Antônio da Silva/Tidelli, Divulgação)
“O Candeal é um organismo vivo feito de batuques de gente e de esperança”, diz Brown. A frase não soa como metáfora, mas como descrição direta de um território que se organiza a partir da liberdade, do cuidado e de uma espiritualidade que antecede rótulos religiosos.
Com o tempo, o Candyall também se tornou um espaço de confiança. Quem chega sabe de onde vem, onde está e como será recebido. Parte da renda gerada nos eventos retorna ao próprio bairro, em melhorias e ações que sustentam o ciclo comunitário. Uma lógica de colaboração que existe muito antes de termos palavras como “economia criativa” para explicá-la.

Espaços internos do Candyall Guetho Square passam por melhorias que ampliam o conforto e qualificam a experiência do público, sem descaracterizar o ambiente (Foto: Márcio Antônio da Silva/Tidelli, Divulgação)
É nesse contexto que as parcerias ganham sentido. Não como interferência, mas como continuidade. O apoio da Tidelli ao Candyall Guetho Square, hoje em seu segundo ano, nasce dessa escuta. As melhorias estruturais realizadas no espaço ampliam o conforto e a experiência do público sem descaracterizar o lugar, porque respeitam sua identidade e seu ritmo.
“Poucas pessoas sabem que, quando vêm ao ensaio ou pagam um show, estão também colaborando socialmente”, conta Brown. O camarim, o acolhimento e a forma como as pessoas são recebidas fazem parte dessa experiência menos visível, mas decisiva para a sustentabilidade do projeto.
Para mim, apoiar iniciativas como o Candyall é reconhecer que design, assim como música e arte, só existe plenamente quando está a serviço das pessoas. O mobiliário, nesse caso, não é cenário: é ferramenta de convivência. Sustenta encontros, permanências e trocas. Explorar contextos como eventos culturais e territórios vivos também amplia o entendimento sobre o papel do design fora das vitrines.

Carlinhos Brown no pátio do Candyall Guetho Square, espaço simbólico que abriga ensaios, encontros e celebrações ao longo do ano (Foto: Márcio Antônio da Silva/Tidelli, Divulgação)
A partir da música, o Candeal estruturou ações que impactaram educação, urbanização, saneamento e formação cultural. O Candyall surge como extensão natural dessa vida comunitária. “Se a gente tem uma casa legal e uma escola legal, onde vai ser nossa área de atuação? Aqui mesmo no bairro”, resume Brown.
Em uma cidade onde o Carnaval nasce das ruas e das relações, o Candeal lembra que a festa não é um evento isolado, mas o resultado de uma construção cotidiana, um trabalho constante de produção humana, memória ativa e futuro possível.


