Comportamento

O fim do ano e a coragem de não pertencer

Por
Daniela Escobar

1/28/2026

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Momentos de pausa que revelam o que já não nos pertence mais  (Foto: Envato)

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Uma reflexão sobre pertencimento, limites afetivos e a liberdade de seguir o próprio ritmo quando um ciclo chega ao fim

Mais um final de ano…
Tempo das promessas de mudança, de revisitar tudo o que nos fez acelerar, procrastinar, despertar ou dramatizar a vida.

Quando enfim nos permitimos desacelerar, percebemos como usamos o nosso precioso tempo — se o desperdiçamos ou se o honramos.

Às vezes, nos sentimos como um peixe fora d’água entre amigos, no trabalho ou até mesmo dentro da própria família.
Já se sentiu assim?
Aquela sensação de estar presente, mas não necessariamente pertencendo.
De enxergar dinâmicas que parecem invisíveis aos outros.
De perceber que, por mais que tentemos nos ajustar, algo simplesmente já não se encaixa ali.

Já esteve em rodas de conversa onde nenhum assunto te alcança?
Em um trabalho onde sua visão parece “demais”?
Ou quando sua sensibilidade é interpretada como exagero?

E o cansaço que surge ao tentar despertar pessoas acorrentadas a ilusões que elas mesmas alimentam?
Correntes confortáveis, familiares, autoimpostas — que as mantêm presas a dramas que se recusam a deixar para trás.

Há também aqueles momentos em que, ao tentar dialogar, nossa opinião é tratada como interrupção incômoda, e não como oportunidade de troca.
Você tenta mostrar o que vê, tenta abrir possibilidades… e vai se exaustando, até perceber que despertar a lucidez alheia não precisa ser uma missão sua.

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Entre o que já foi e o que ainda pode ser, mora o intervalo onde escolhemos nossos próximos passos (Foto: Envato)

E o que dizer das pessoas que gritam quando sua opinião não coincide com a delas?
Tão sedentas por validação que mal conseguem ouvir antes de reagir.
Como se discordar fosse um ataque; pensar diferente, uma ameaça.
Como se o volume da voz pudesse substituir a profundidade.

Essas situações nos confundem.
Não pela intensidade do outro, mas pelo fato de que nossa verdade não encontrou espaço para existir.
E isso afeta o nosso equilíbrio.

Quando chega o fim do ano, esse intervalo silencioso entre o que já foi e o que ainda desejamos realizar, somos conduzidos a repensar caminhos e crenças.

Percebemos que, em ambientes que preferem a superfície, a profundidade incomoda.
Em relações movidas pelo ego, a autenticidade assusta.
Em conversas rasas, a clareza vira ameaça.

Mas também existem aquelas pessoas que surgem como presentes enviados por uma força maior — para nos lembrar de não duvidar do nosso novo caminho, das escolhas que estamos aprendendo a sustentar.

Porque a vida não foi feita para nos manter no mesmo lugar; se fosse assim, teríamos nascido árvores.
A vida existe para nos desafiar, impulsionar, refinar, ensinar — se estivermos dispostos a aprender.

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A serenidade que nasce quando deixamos de buscar aprovação e passamos a buscar alinhamento (Foto: Canva)

Às vezes, o desconforto que sentimos não é sinal de inadequação, mas de evolução.
Talvez a reflexão mais honesta seja reconhecer que não precisamos nos encaixar, nem ter razão, nem a última palavra.

O próximo ciclo não exige que voltemos ao que éramos, mas que nos alinhemos ao que somos agora.
Sem culpas.
Sem medos.
Com a consciência de que desafios continuarão existindo — ano após ano — enquanto estivermos vivos.

Happy Holidays, minhas queridas e meus queridos.
Que venham muitos anos pela frente.