Comportamento

O peso invisível da sensibilidade

Por
Surama de Castro

1/14/2026

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Jéssica Sensitiva atua há mais de 20 anos no campo da espiritualidade e é autora do Guia da Sabedoria. Para ela, sensibilidade é disciplina, limite e responsabilidade diária (Foto: Divulgação)

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Guia espiritual há mais de 20 anos, Jéssica Sensitiva fala sobre exaustão emocional, limites éticos e o custo silencioso de viver em permanente estado de percepção

Se pudesse, Jéssica Sensitiva apertaria um botão de desligar. Não por descrença, mas por exaustão. A sensibilidade que a conecta às pessoas também a afasta de festas, viagens, encontros familiares e de uma rotina comum. “É cansativo. Na maioria das vezes, eu preciso me abster de coisas pessoais”, diz.

Autora do Guia da Sabedoria e reconhecida por uma clientela que inclui nomes como Luciana Gimenez, Adriane Galisteu, Nicole Bahls, Maya Massafera e Wanessa Camargo, Jéssica atua há mais de 20 anos no campo da espiritualidade. A visibilidade, no entanto, não traduz o cotidiano do seu trabalho. Para ela, a mediunidade não é escolha pontual nem espetáculo, é um compromisso inadiável com a espiritualidade.

O custo desse compromisso aparece na rotina. Jéssica dorme pouco, em média entre cinco e seis horas por noite. Grande parte do trabalho acontece enquanto outras pessoas descansam. “Muitas vezes, durante a madrugada, eu estou realizando os trabalhos delas enquanto elas estão tendo uma ótima noite de sono”, conta. É um esforço silencioso, que raramente é percebido por quem busca orientação.

Quando tenta traduzir sua sensibilidade em som, não pensa em algo grandioso. O que a representa é o mar e o vento, forças que tranquilizam a mente e, paradoxalmente, reduzem o fluxo intuitivo. “São sons que acalmam a mente e a sensibilidade”, explica. Para quem sente demais, o silêncio também é proteção.

Essa proteção é levada a sério. Ao final das consultas, especialmente das mais pesadas, Jéssica fecha sua energia, faz defumações com ervas, usa alfazema e recorre a orações em voz alta. Em alguns casos, utiliza alho no corpo para afastar possíveis obsessores. “Mesmo à distância, mesmo por telefone, eu acabo observando a coisa ruim da pessoa”, afirma. O cuidado não é excesso, é necessidade.

Com o tempo, ela aprendeu a impor limites claros. Há perguntas que se recusa a responder. Consultas insistentes, especialmente sobre o mesmo tema, são interrompidas sem hesitação. “Nem me pergunta”, afirma. Para ela, esse tipo de busca vira vício. “O meu trabalho é tirar vocês do vício”, diz. Por isso, evita atendimentos focados exclusivamente no campo afetivo. “Eu sou muito fã do amor, faço porque conheço, mas não é a minha praia”, afirma.

Também há informações que ela escolhe não compartilhar por ética. Questões relacionadas à morte ou traição, muitas vezes, são silenciadas. “Não adianta eu falar o que eu não posso mudar”, diz. A responsabilidade, para Jéssica, está justamente em saber o limite entre orientar e interferir.

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Entre ética, proteção energética e silêncio, Jéssica Sensitiva construiu uma trajetória marcada pelo cuidado com o outro e pelos limites que esse ofício exige (Foto: Divulgação)

Receber informações sensitivas sobre outras pessoas já não a afeta emocionalmente como no início da carreira. A experiência ensinou a lidar com isso com naturalidade. Ainda assim, alguns casos causam abalo, não pelo sofrimento em si, mas pela constatação de que certos padrões de violência, manipulação e perturbação ainda persistem. “Às vezes a gente fica incrédula”, admite.

Para Jéssica, os maiores bloqueios energéticos estão no comportamento humano cotidiano: escassez, reclamação constante, conflitos, autossabotagem e a recusa em enxergar a própria verdade. Ela diferencia ignorância de escolha consciente. “Não é falta de estudo. É burrice humana”, diz, referindo-se à insistência em fazer mal aos outros ou a si mesmo.

Ao falar sobre 2026, evita previsões espetaculares. No campo político, não enxerga grandes rupturas em relação a 2025. O que muda, segundo ela, está menos no cenário externo e mais na postura individual. O ano traz influências de Ogum e Oxóssi, associadas à coragem, ação, abertura de caminhos e visão ampliada. É um tempo de foco, boas escolhas, cura emocional e fortalecimento de projetos já existentes. Mais continuidade do que recomeços radicais. “Criar uma identidade e renascer dela mesma”, resume.

Se pudesse conversar com alguém da história, Jéssica escolheria Jesus. Não para pedir respostas fáceis, mas para questionar o sofrimento. Gostaria de entender por que ele se permitiu sofrer tanto, sabendo da ingratidão humana. Aos orixás, faria perguntas semelhantes: por que ainda não conseguimos acessar os últimos mistérios da espiritualidade? Por que o sofrimento se prolonga por tantos anos na experiência humana?

O que quase ninguém vê, e que mudaria a forma como muitos enxergam seu trabalho, é o custo material e emocional envolvido. Os gastos com insumos, a falta de reconhecimento, pessoas que atrasam pagamentos ou tentam reduzir o valor da mão de obra espiritual. “Se as pessoas tivessem noção, muitas não estariam me devendo”, observa, com franqueza.

Em mais de duas décadas de atuação, Jéssica já presenciou histórias extremas. Casos que revelam o lado mais sombrio das relações humanas e exigem não apenas sensibilidade, mas firmeza, ética e preparo. Não é a dramaticidade que a marca, mas a responsabilidade de lidar com aquilo que poucos querem ver.

Sensibilidade, para Jéssica Sensitiva, não é dom leve nem caminho fácil. É disciplina, limite, renúncia e trabalho constante. Um ofício que exige silêncio, proteção e, sobretudo, a coragem de dizer não, mesmo quando todos esperam respostas.