Um escritor que começa um de seus livros, brilhante por sinal, com a frase “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas” não está para brincadeira, não é mesmo?
A frase, claro, não está em Dom Casmurro, mas em Memórias Póstumas de Brás Cubas. E eu começo por ela porque resume um pouco do que Machado de Assis representa para mim: um escritor que nunca esteve para brincadeira. Costumo chamá-lo de “o Bruxo”, alcunha que faz jus ao mago das palavras e, diria até, dos enigmas.
Enigmas que nos fazem duvidar da nossa própria sanidade. E, por falar em sanidade, ou na falta dela, temos um personagem: Bentinho.
Sim, claro. Porque, até hoje, esta é uma das perguntas mais ouvidas em clubes do livro ou em qualquer conversa entre amantes dos clássicos. Fico tão feliz que a pergunta “Quem matou Odete Roitman?” venha sendo substituída por “Capitu traiu ou não traiu?”.
Mas, muito além desse mistério, nosso ponto de destaque aqui é outro: como pode um livro escrito no final do século XIX continuar sendo tema de debate até hoje? Inclusive enquanto escrevo este texto, nós continuamos debatendo o assunto.
Machadística que sou, já li Dom Casmurro pelo menos cinco vezes e, a cada leitura, encontro uma interpretação diferente. Esse é um dos aspectos que nos fazem pensar sobre a maturidade com que chegamos a cada leitura. Assim como não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, também não se lê o mesmo livro da mesma maneira duas vezes. Nós mudamos, amadurecemos, e a interpretação de um texto pode mudar conosco.
Um narrador pouco confiável

Diferentes edições e interpretações de Dom Casmurro ajudam a renovar o debate em torno de Capitu, Bentinho e Escobar. Na imagem, capa de uma edição publicada pela Editora Ática (Reprodução/Editora Ática)
Outro ponto fascinante é a profundidade da obra. Temos apenas um narrador, um único ponto de vista. E esse ponto de vista é inteiramente parcial, movido por um ciúme doentio e fortemente influenciado por uma criação superprotegida.
Bentinho nos conta a história, mas será que podemos confiar nele? Essa é uma das grandes genialidades de Machado de Assis. O narrador-personagem nos conduz pela história enquanto deixa pistas de que talvez não seja confiável em praticamente nenhum aspecto. É paranoico, ciumento e mimado ao extremo por Dona Glória, que, precisamos confessar, não criou exatamente um homem. Superprotegeu um menino. E agora, quem está sendo parcial?
As teorias que não acabam
Além da clássica pergunta sobre a traição de Capitu, existem diversas teorias que nos fazem querer reler o livro, prestando atenção a cada nova possibilidade.
A minha preferida, com certeza, é a de que Bentinho seria completamente apaixonado por Escobar e de que seu ciúme de Capitu seria uma espécie de projeção da vida que ele nunca teria ao lado do amigo.
Existe também a teoria de que Machado teria sido amante de Georgiana de Alencar, esposa de José de Alencar, e de que Capitu teria sido inspirada nela. Provas? Nenhuma. Apenas rumores que circularam posteriormente no meio literário.
E jamais saberemos. Há uma frase atribuída ao próprio Bruxo: “Ninguém é mais reservado nessa matéria do que eu”. Se havia algum segredo, Machado o levou para o túmulo.
Por que reler?

O Rio de Janeiro no final do século XIX, cenário das lembranças e suspeitas narradas por Bentinho em Dom Casmurro (Foro: Adobe Stock)
Porque Dom Casmurro também é uma viagem pelo Rio de Janeiro do final do século XIX. Machado descreve lugares, pessoas, costumes e personalidades de uma maneira que nos transporta para aquele cenário.
Ao mesmo tempo, nos coloca diante de um narrador que consegue nos deixar indignados, desconfiados e, em alguns momentos, até com vontade de entrar no livro para discutir com ele.
É um livro sobre ciúme, memória, amor, obsessão, aparência e, principalmente, sobre a dificuldade de conhecer uma história quando só temos acesso à versão de quem a conta.
Vale a releitura? Claro que vale. E provavelmente valerá daqui a mais cem anos.
Dom Casmurro é épico. É clássico. É daqueles livros que não terminam quando chegamos à última página, porque continuam existindo nas perguntas que deixam.
Sem dúvida, é um dos maiores livros da literatura brasileira. Da sua autora totalmente imparcial.



