Comportamento

Seu filho conversa com a inteligência artificial sobre o que sente?

13/10/2026

Article banner

Adolescentes já recorrem à inteligência artificial não apenas para estudar, mas também para falar sobre problemas pessoais e emoções (Foto: Adobe Stock)

X logo

Pesquisa mostra que crianças e adolescentes brasileiros já recorrem à IA para falar de problemas pessoais e emoções. O que muda quando uma tecnologia que ajuda na lição de casa também começa a ocupar o lugar de confidente?

Talvez você já tenha perguntado ao seu filho se ele usou inteligência artificial para fazer um trabalho da escola. Mas existe outra pergunta, bem menos óbvia, que começa a entrar na vida das famílias: ele já conversou com uma IA sobre alguma coisa que estava sentindo?

No Brasil, isso já acontece. A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, realizada pelo Cetic.br, mostrou que 65% dos usuários de internet entre 9 e 17 anos já utilizam inteligência artificial generativa para pelo menos uma das atividades investigadas. A mais comum é estudar ou fazer pesquisas escolares, citada por 59%. Mas um dado chama a atenção: 10% usam essas ferramentas para conversar sobre problemas pessoais ou sobre suas emoções.

O percentual cresce com a idade. Entre crianças de 9 e 10 anos, são 4%. Dos 11 aos 12, 7%. Dos 13 aos 14, 12%. Entre adolescentes de 15 a 17 anos, chega a 16%.  Ainda é uma minoria. Mas estamos falando de uma forma de relação que praticamente não existia há poucos anos.

Post image

A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025 mostra que o estudo é o principal uso da inteligência artificial entre crianças e adolescentes (Foto: Adobe Stock)

Uma conversa sempre disponível

É fácil entender parte do apelo. Uma inteligência artificial está disponível a qualquer hora. Não parece ocupada, não interrompe, não demonstra impaciência e responde quase imediatamente. É possível fazer uma pergunta constrangedora sem precisar olhar ninguém nos olhos. Também é possível escrever, apagar, reformular e tentar de novo.

Para uma criança ou um adolescente, especialmente em assuntos difíceis de conversar com adultos, essa disponibilidade pode ser atraente. E a relação com a tecnologia está mudando rapidamente. Sistemas criados inicialmente para responder perguntas, escrever textos ou procurar informações conseguem manter diálogos longos, adaptar a linguagem ao usuário e produzir respostas que soam acolhedoras.

É justamente aí que aparece uma questão nova: uma conversa que parece empática não significa que exista alguém do outro lado compreendendo o que aquela criança sente.

O UNICEF vem chamando atenção para essa diferença. Em suas orientações mais recentes sobre inteligência artificial e infância, a organização reconhece possibilidades positivas da tecnologia, inclusive na aprendizagem e na acessibilidade, mas alerta para riscos relacionados à dependência emocional, à exposição de informações privadas e à criação de relações que imitam vínculos humanos. O próprio UNICEF ressalta que ainda sabemos pouco sobre os efeitos de longo prazo dessas interações no desenvolvimento social, emocional e cognitivo das crianças.

Quando a IA deixa de ser ferramenta

Existe também uma diferença importante entre perguntar a uma IA “como posso me acalmar antes de uma prova?” e passar a considerá-la uma amiga. Nos Estados Unidos, uma pesquisa da organização Common Sense Media, realizada em 2025 com 1.060 adolescentes de 13 a 17 anos, investigou especificamente os chamados companheiros de inteligência artificial, sistemas desenvolvidos ou utilizados para manter conversas pessoais e criar sensação de vínculo.

Quase três em cada quatro adolescentes entrevistados disseram já ter usado esse tipo de ferramenta. Um terço afirmou ter escolhido conversar com um companheiro de IA, em vez de uma pessoa, sobre algum assunto sério, e cerca de um quarto relatou ter compartilhado informações pessoais nessas conversas. Os números são norte-americanos e não podem ser transportados diretamente para a realidade brasileira, mas ajudam a dimensionar um comportamento que começa a ser observado em diferentes países.

O problema não está necessariamente em conversar com uma máquina. Uma criança pode usar a tecnologia para organizar uma ideia, entender melhor uma situação ou até encontrar palavras para algo que depois queira contar aos pais. A questão aparece quando a ferramenta passa a substituir relações humanas ou quando a criança acredita que aquela resposta tem compreensão, julgamento e responsabilidade comparáveis aos de uma pessoa. Não tem.

Uma IA pode produzir informações erradas. Pode interpretar mal uma situação. Pode oferecer uma resposta inadequada para a idade ou para a gravidade do problema. E a maneira como esses sistemas utilizam e protegem informações pessoais também precisa fazer parte da conversa dentro de casa.

Proibir talvez não seja a melhor saída 

Post image

Acompanhar como crianças e adolescentes usam a tecnologia pode ser mais efetivo do que simplesmente proibir o acesso (Foto: Adobe Stock)

Diante de uma tecnologia tão nova, a reação mais imediata pode ser simplesmente impedir seu uso. Mas há uma dificuldade prática nessa estratégia: a inteligência artificial já está integrada a ferramentas de busca, aplicativos, plataformas educacionais e serviços que fazem parte da rotina das crianças.

Talvez seja mais útil descobrir como elas estão usando. Perguntar o que costumam conversar com a IA. Pedir para ver uma resposta que acharam interessante. Discutir situações em que uma máquina pode ajudar e outras em que é melhor procurar uma pessoa. Explicar que uma resposta escrita em tom seguro e convincente pode estar errada.

E, principalmente, deixar claro que certos assuntos continuam precisando de gente. Medo, sofrimento, violência, bullying, problemas de saúde, conflitos familiares ou qualquer situação que coloque a criança em risco não deveriam ficar restritos a uma conversa com um chatbot.

A alfabetização digital agora inclui uma habilidade que poucos pais precisaram aprender na própria infância: perceber a diferença entre uma máquina que sabe conversar e uma pessoa capaz de compreender, cuidar e se responsabilizar.

Talvez valha acrescentar uma pergunta àquelas que já fazemos todos os dias. Em vez de apenas “como foi a escola?”, experimentar também: “E com quem você tem conversado quando alguma coisa te preocupa?” A resposta pode ser mais surpreendente do que imaginamos.