Comportamento

Meu Nome é Farah: o amor que protege sem aprisionar

02/11/2026

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Demet Özdemir e Engin Akyürek interpretam Farah e Tahir, protagonistas da série turca Meu Nome é Farah (Foto: Divulgação)

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Entre o romantismo e as relações de poder, a série turca provoca uma reflexão sobre proteção, controle e a liberdade feminina de escolher quem amar

“O amor é a preocupação ativa pela vida e pelo crescimento daquilo que amamos.” — Erich Fromm, A Arte de Amar

Por que a série turca virou sucesso de audiência no Brasil e no mundo? A resposta cabe em uma palavra: romantismo. O resgate do homem que muda a própria história e enfrenta o mundo pela mulher amada. Mas, entre a paixão e o poder, a série também nos lembra de algo precioso: a liberdade de escolher quem queremos ao nosso lado.

O amor conquistado, tão diferente do afeto fugaz de hoje. Curiosamente, essa forma romântica de amar foi, consciente ou inconscientemente, apedrejada pela sociedade atual, considerada conservadora e ultrapassada. A armadilha foi justamente essa: desconstruir relações reais em nome da modernidade e da liberdade. Mas liberdade é, antes de tudo, o poder de escolher estar e ficar numa relação recíproca, em que se é legitimamente bem tratada e também se trata bem o parceiro.

O sucesso dessa série está, sem dúvida, nos olhares demorados, nos gestos de cavalheirismo, nos encontros carregados de expectativa, nos beijos que levam episódios para acontecer e em homens que parecem dispostos a enfrentar o mundo pela mulher amada.

Há outro ponto interessante. Ao contrário das cenas de sexo tão frequentes nas produções hollywoodianas, essas histórias apostam na construção do desejo, na intensidade dos sentimentos e naquele romantismo quase antigo que, convenhamos, continua fazendo muitas mulheres suspirarem. Em 1912, Freud já observava que é preciso algum obstáculo para que o desejo alcance sua máxima intensidade: o que demora a chegar ganha valor. As séries turcas também carregam marcas da cultura do país. Meu Nome é Farah é um exemplo desse fenômeno.

Na primeira temporada, conhecemos Farah, interpretada pela belíssima Demet Özdemir: uma médica iraniana que vive em situação irregular em Istambul, trabalha como faxineira e luta para sobreviver e cuidar do filho doente. Sua vida se cruza com a de Tahir, homem envolvido com o mundo do crime, aparentemente bruto, mas capaz de uma delicadeza surpreendente diante da mulher por quem se apaixona. Vivido pelo também belíssimo Engin Akyürek, Tahir reúne os atributos que explicam o fascínio do personagem: é forte, decidido, corajoso, leal e profundamente protetor.

Mas não é apenas a beleza que conquista. É a maneira como ele ama. Tahir enfrenta perigos, desafia adversários e parece disposto a sacrificar a própria vida por Farah. Sua proteção não é só uma promessa romântica: ela aparece em atitudes, presença e gestos concretos. É claro que estamos diante de uma novela, com os exageros que tornam a ficção tão envolvente e com aquele prolongamento de capítulos às vezes cansativo. Ainda assim, a série merece reflexão.

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A relação entre Farah e Tahir desperta reflexões sobre amor, proteção e liberdade de escolha (Foto: Divulgação)

Por que a figura do homem protetor continua tão atraente para mulheres que conquistaram sua independência?

Talvez porque liberdade e proteção nunca tenham sido sentimentos incompatíveis. Para a mulher, presença, segurança e proteção são o melhor termômetro do romantismo verdadeiro. Tradicionalmente, o homem protetor foi associado à figura de quem defendia a mulher dos perigos externos: o cavalheiro que oferecia o braço, abria a porta, conduzia com firmeza e transmitia segurança. Esses gestos continuam encantadores.

Mas a verdadeira segurança em um relacionamento é muito mais ampla. Não está apenas no homem que nos acompanha durante uma noite ou nos protege em uma situação de perigo. Está naquele que cumpre a palavra. Que oferece presença quando está ao lado e continua presente mesmo à distância. Que tomou a decisão de estar e não procura fórmulas mágicas. Que não desaparece quando surgem dificuldades. Que tem maturidade para ser verdadeiro. Que sabe conversar, ouvir, assumir responsabilidades e demonstrar, no cotidiano, aquilo que afirma sentir.

Simone Weil escreveu que “a atenção é a forma mais rara e mais pura de generosidade”. Segurança está na coerência.

Para a mulher, segurança está na tranquilidade de não precisar interpretar silêncios, decifrar comportamentos ou viver tentando descobrir qual é o seu lugar na vida de alguém. Um homem pode ser forte fisicamente e emocionalmente ausente. Pode fazer grandes declarações de amor e falhar nas pequenas atitudes. Pode oferecer uma noite inesquecível e não conseguir construir uma relação de confiança.

A independência feminina não eliminou o desejo de um amor maduro

Ao contrário. Quando a mulher conduz a própria vida, a presença de um companheiro deixa de ser uma necessidade imposta pelas circunstâncias e passa a ser uma escolha. Não precisamos de um homem para nos sustentar. Mas podemos desejar profundamente um homem que nos sustente emocionalmente nos momentos difíceis, assim como desejamos estar ao lado dele quando ele precisar de nós. Erich Fromm resumiu essa diferença com precisão: o amor imaturo diz “eu te amo porque preciso de você”; o amor maduro diz “preciso de você porque te amo”.

Há beleza nessa reciprocidade. Há beleza na força masculina que acolhe, no cavalheirismo que permanece e no amor que se traduz em atitudes. E há uma beleza ainda maior em poder escolher livremente viver esse amor.

Por isso, a proteção mais valiosa não é necessariamente a que nos defende do mundo, mas a que nos permite viver o amor com tranquilidade e leveza. E a reciprocidade existe: a mulher, com seu soft power, demonstra elegância e firmeza nas próprias decisões, sobretudo ao valorizar o par genuíno, com plena liberdade e convicção da sua escolha.

Como lembrava Jung, “o encontro de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas: se houver alguma reação, ambas se transformam”. Isso é a verdadeira alquimia entre duas almas.

Quando o homem deixa de proteger e passa a dominar

Se a primeira temporada de Meu Nome é Farah desperta nosso lado mais romântico, a segunda provoca uma sensação muito diferente. Com a entrada da poderosa família iraniana de Behnam, homem ligado ao passado de Farah e pai de seu filho, a trama apresenta um ambiente familiar marcado por hierarquias rígidas e pela submissão das mulheres à autoridade masculina, sustentada por uma interpretação severa das regras religiosas e imposta, por vezes, com violência.

Naquela família, as mulheres não participam das conversas. Suas opiniões têm pouco valor. Decisões sobre suas vidas são tomadas pelos homens, como se sua existência dependesse da vontade masculina. A mulher se torna a criança no jantar dos adultos. É perturbador assistir a mulheres tratadas como personagens secundárias da própria história.

O contraste entre os dois protagonistas masculinos é especialmente interessante. Tahir e Behnam são homens fortes. Ambos têm determinação e capacidade de enfrentar obstáculos. Mas há entre eles uma diferença fundamental, que muitas vezes encontramos na nossa própria trajetória: Tahir deseja proteger Farah; Behnam pretende controlá-la.

Um encontra no amor uma razão para cuidar. O outro transforma a relação em disputa de poder e posse. Jung descreveu esse dilema com rara clareza: “onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, falta o amor”.

A mesma força masculina, tão admirável quando associada à responsabilidade e ao respeito, torna-se assustadora quando usada para silenciar, subjugar e impor vontades. É nesse momento que a novela ultrapassa o romantismo e nos convida a olhar para uma realidade muito mais dura.

O Irã e a liberdade que pode custar a própria vida

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Manifestantes com bandeiras iranianas em ato público (Foto: Adobe Stock)

Ao retratar a família de Behnam, a série abre espaço para uma reflexão sobre a condição das mulheres no Irã, marcada por severas restrições legais e políticas, além de pressões sociais e religiosas que limitam sua autonomia.

No Irã, o regime teocrático adota uma interpretação rigorosa da sharia como parte de sua legislação. A sharia, que reúne princípios religiosos e jurídicos islâmicos e admite diferentes interpretações, é aplicada pelo Estado iraniano de modo a impor severas limitações à autonomia das mulheres. As restrições vão da obrigatoriedade do véu a desigualdades no direito de família, além da repressão a quem desafia determinadas normas religiosas e políticas.

Não estamos falando simplesmente de costumes diferentes dos nossos. Estamos falando de direitos fundamentais. Em setembro de 2022, o mundo acompanhou a morte de Mahsa Amini, jovem iraniana de 22 anos, após ser detida pela chamada polícia da moralidade por supostamente descumprir as regras de vestimenta feminina. Sua morte desencadeou protestos que ecoaram pelo mundo, sob o lema “Mulher, Vida, Liberdade”.

Quatro anos depois, um novo caso voltou a expor a severidade do sistema iraniano. Em outubro de 2026, organizações de direitos humanos denunciaram a condenação à morte de Najmeh Amini, estudante de Contabilidade de apenas 23 anos, acusada de blasfêmia por uma publicação nas redes sociais. A sentença, ainda sujeita a revisão pela Suprema Corte do país, foi contestada por uma agência de notícias próxima ao governo iraniano.

Najmeh enfrenta a possibilidade de perder a vida por palavras consideradas ofensivas à religião. Vinte e três anos. A idade em que tantas jovens estão concluindo os estudos, iniciando a carreira, descobrindo o amor, fazendo planos e construindo seus sonhos.

Para Najmeh, porém, o futuro está ameaçado pela possibilidade de uma execução que mostra até onde pode chegar a repressão à liberdade de expressão. É impossível não se perguntar como, em pleno século XXI, uma mulher pode enfrentar a pena de morte por manifestar pensamentos considerados incompatíveis com as normas religiosas impostas pelo Estado. A questão ultrapassa qualquer debate sobre costumes, tradições ou preferências pessoais.

Nenhuma convicção religiosa deveria servir de justificativa para retirar de alguém o direito à vida, à dignidade e à liberdade de consciência. Talvez seja esse o maior impacto da segunda temporada de Meu Nome é Farah: lembrar que aquilo que consideramos tão natural em nossa vida cotidiana ainda é negado a tantas mulheres.

O privilégio de escolher quem amar

Existe algo extraordinário na liberdade que nem sempre percebemos: poder escolher onde queremos estar, como queremos viver e com quem desejamos compartilhar a vida. E, curiosamente, poder escolher também um homem que goste de proteger, cuidar, conduzir e oferecer segurança.

A liberdade não exige que a mulher rejeite o romantismo, a delicadeza ou o cavalheirismo. Não exige que deixe de admirar a força masculina nem que transforme sua independência em competição com os homens. A regra é escolher quem desperta o nosso melhor lado.

Podemos ser fortes e desejar acolhimento. Podemos ser decididas e prestigiar um homem que tome a iniciativa. Podemos ser independentes e sentir prazer em ter alguém com quem dividir responsabilidades. Podemos, inclusive, escolher uma vida mais tradicional, desde que essa escolha seja verdadeiramente nossa.

A beleza não está em seguir um modelo de relacionamento considerado moderno ou antigo. Está em ter liberdade para escolher o que faz sentido para nós: onde, de fato, queremos estar e com quem ficar.

Talvez Meu Nome é Farah nos encante justamente por apresentar, em uma mesma história, duas maneiras tão diferentes de compreender o masculino. De um lado, o homem cuja força se transforma em proteção, cuidado e entrega. De outro, aquele que confunde autoridade com domínio e amor com posse. Entre os dois, uma mulher que luta pelo direito de decidir o próprio destino, valorizando tanto o romantismo quanto a liberdade.

O homem protetor continua sendo admirável. O cavalheirismo continua encantador e não sai de moda. E a segurança continua sendo uma das qualidades que a mulher mais deseja em um relacionamento. No fim, talvez seja essa a lição de Farah: o amor que vale a pena não é o que aprisiona, mas o que cuida e que escolhemos, livremente, todos os dias.