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Pressão, sobrecarga e assédio também são riscos do trabalho

09/10/2026

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A nova NR-1 amplia o olhar das empresas sobre fatores da organização do trabalho que podem afetar a saúde mental dos profissionais (Foto: Adobe Stock)

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Com a nova NR-1, empresas precisam identificar fatores da própria organização do trabalho que podem afetar a saúde mental. Para profissionais e lideranças, a mudança amplia o olhar sobre o que torna um ambiente profissional saudável

Saúde mental no trabalho deixou de ser um assunto restrito a programas de bem-estar, palestras ou ações pontuais das empresas. Desde 26 de maio de 2026, a Norma Regulamentadora nº 1, a NR-1, passou a incluir expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, o GRO.

Na prática, isso significa olhar para aspectos da própria organização do trabalho que podem colocar a saúde dos profissionais em risco. Sobrecarga, excesso de demandas, assédio e falta de suporte estão entre os exemplos citados pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

A mudança chega em um momento em que os afastamentos relacionados à saúde mental vêm crescendo no país. Dados preliminares de 2025 divulgados pela Previdência Social e analisados pela Fundacentro apontam a concessão de 546.254 benefícios por transtornos mentais e comportamentais, 15,66% a mais que em 2024, quando foram registrados 472.328. Os números, porém, não significam que todos esses casos tenham sido provocados pelo trabalho.

É justamente essa distinção que ajuda a entender o alcance da NR-1. “Nem todo problema de saúde mental tem origem no trabalho. Ansiedade, depressão e outros transtornos podem envolver diversos fatores pessoais, sociais e profissionais. A obrigação da empresa é identificar e atuar sobre os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho que estejam presentes na sua realidade”, explica a advogada Maura Rodrigues, da Cavalcanti Advogados Associados.

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Sobrecarga, falta de suporte, conflitos e problemas na organização do trabalho estão entre os fatores que podem entrar na avaliação dos riscos psicossociais (Foto: Adobe Stock)

A responsabilidade das empresas pela segurança e pela saúde dos trabalhadores não começou agora. O que a atualização da norma faz é incluir de maneira explícita os fatores psicossociais no processo de identificação, avaliação e prevenção dos riscos ocupacionais.

Isso muda também a forma de olhar para algumas práticas corporativas. Uma empresa pode oferecer programas de qualidade de vida e, ainda assim, manter uma rotina marcada por excesso de trabalho, pouca autonomia, conflitos constantes ou ausência de apoio das lideranças. Pela lógica da nova NR-1, é a organização e as condições em que o trabalho acontece que precisam entrar na análise.

A Fundacentro, ao publicar diretrizes para a aplicação da norma, chama atenção justamente para a necessidade de avaliar a organização e a gestão do trabalho, além das relações existentes dentro dele.

Para os profissionais, isso também amplia a discussão sobre saúde mental dentro das empresas. Problemas relacionados à forma como o trabalho é organizado não precisam ser tratados exclusivamente como uma dificuldade individual de quem não consegue lidar com pressão ou administrar a própria rotina.

Ao mesmo tempo, reconhecer a responsabilidade da organização não significa retirar do profissional qualquer participação no cuidado com a própria saúde.

“Compreender que não existe saúde sem saúde mental é fundamental para que cada um saiba reconhecer e identificar sinais de alerta físicos, emocionais, comportamentais, bem como nas relações sociais e de trabalho”, afirma a psicóloga Alexandra Pedersen Wenczenovicz, especialista em Psicologia Organizacional.

Ela também chama atenção para a importância de o profissional ter clareza sobre seus limites, objetivos e escolhas de carreira. Quando houver problemas relacionados ao ambiente de trabalho, canais internos como RH, liderança ou estruturas confidenciais de denúncia podem ser caminhos para registrar a situação, especialmente em casos de assédio ou conflitos recorrentes.

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A atualização da NR-1 não atribui às empresas a responsabilidade por todo problema de saúde mental, mas exige atenção aos fatores relacionados ao trabalho (Foto: Adobe Stock)

E as multas?

A atualização da NR-1 está em vigor desde maio. O que está temporariamente suspenso é a aplicação de sanções relacionadas a alguns dos dispositivos que tratam dos riscos psicossociais.

Em 25 de junho, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, suspendeu por 90 dias multas e outras medidas coercitivas relacionadas a esses dispositivos, enquanto governo e entidades empresariais buscavam uma solução consensual sobre a aplicação da norma. A decisão foi posteriormente confirmada por unanimidade pelo Plenário do STF.

Em 24 de setembro, Mendonça prorrogou a suspensão por mais 90 dias para permitir a continuidade das negociações. A decisão não retirou a NR-1 de vigor nem eliminou a necessidade de as empresas incorporarem os fatores psicossociais ao gerenciamento de riscos ocupacionais.

Para as organizações, portanto, a discussão não deveria se limitar à possibilidade de multa. O ponto central da mudança é outro. Pressão excessiva, sobrecarga, relações deterioradas e problemas na gestão deixaram ainda mais claro que saúde e segurança no trabalho não dizem respeito apenas a acidentes ou riscos físicos.

E isso coloca uma pergunta bastante objetiva para empresas, lideranças e profissionais: como o trabalho está sendo organizado e que efeitos essa organização produz sobre quem o realiza?