A bióloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Tatiana Coelho de Sampaio está à frente de uma pesquisa que chamou atenção fora do ambiente universitário. O foco do trabalho é a polilaminina, uma substância experimental estudada como possível apoio à regeneração da medula espinhal.
Para entender a proposta, é preciso voltar ao ponto de partida da pesquisa. Tatiana dedica sua carreira ao estudo de proteínas que ajudam a sustentar e organizar os tecidos do corpo. Essas proteínas fazem parte do que a biologia chama de matriz extracelular - uma espécie de “estrutura de apoio” que envolve as células e influencia como elas crescem, se conectam e se regeneram.
Entre essas proteínas estão as lamininas, fundamentais para a organização dos tecidos e para a comunicação entre células. A polilaminina é uma forma modificada dessa proteína. A hipótese investigada pelo grupo da UFRJ é que, ao ser aplicada em áreas lesionadas da medula, essa substância possa criar um ambiente mais favorável para que as fibras nervosas, chamadas axônios, voltem a crescer e se reconectar.
Em lesões graves da medula espinhal, o maior desafio não é apenas o dano inicial, mas a dificuldade de regeneração. O corpo tende a formar cicatrizes que impedem o crescimento dos nervos, o que limita a recuperação de movimentos e sensações. Pesquisas em medicina regenerativa tentam encontrar formas de reduzir esse bloqueio biológico.

O desenvolvimento de biomateriais para lesões medulares depende de protocolos rigorosos e avaliação contínua (Foto: Adobe Stock)
Como ocorre em qualquer pesquisa biomédica, o processo envolve etapas progressivas de validação, avaliação de segurança e acompanhamento regulatório. Resultados preliminares precisam ser replicados e analisados antes que qualquer hipótese possa se transformar em tratamento consolidado.
Nos últimos meses, relatos associados à pesquisa passaram a circular na imprensa e nas redes sociais, ampliando a visibilidade do tema. Em entrevistas anteriores, Tatiana Sampaio mencionou que, em um estudo acadêmico com oito pacientes com lesão medular completa, a equipe observou recuperação de função motora em 75% dos participantes, índice superior ao percentual de recuperação espontânea descrito em parte da literatura médica, estimado em cerca de 10%.
Entre os pacientes citados publicamente está Bruno Drummond de Freitas, que sofreu um acidente automobilístico e ficou tetraplégico. Após participar do estudo, ele relatou retomada progressiva de movimentos ao longo de meses de acompanhamento clínico e reabilitação. Em publicações nas redes sociais, Bruno mostrou a volta às atividades físicas, ainda com limitações, mas com evolução funcional gradual.

Bruno Drummond de Freitas, participante de estudo acadêmico com a polilaminina, relata recuperação gradual de movimentos ao longo do processo de reabilitação. Em uma das publicações, ele aparece realizando exercícios com cerca de 20 kg. (Foto: Reprodução / Instagram)
Lesões medulares têm impacto profundo na vida de pacientes e familiares, o que faz com que qualquer avanço potencial desperte interesse imediato. Ao mesmo tempo, a exposição pública traz questionamentos e debate sobre protocolos, estágio de desenvolvimento e regulação.
A trajetória de Tatiana Sampaio também dialoga com uma discussão mais ampla sobre o lugar das mulheres na ciência brasileira. Embora representem parcela significativa da formação acadêmica nas áreas da saúde e biomedicina, mulheres ainda enfrentam desafios para ocupar posições de liderança e obter financiamento em projetos de grande escala. Pesquisas que ganham visibilidade nacional evidenciam tanto a presença dessas lideranças quanto a complexidade do ambiente científico no país.
Mais do que uma promessa ou uma controvérsia, a pesquisa sobre a polilaminina expõe uma questão central: como a sociedade acompanha o desenvolvimento da ciência. Em áreas sensíveis como a regeneração neural, o avanço não ocorre em linha reta. Ele depende de testes, validações independentes, aprovação regulatória e tempo.
Entre expectativa pública e método científico, o trabalho segue seu curso. O futuro da regeneração medular será definido por dados, protocolos e resultados consistentes. E é esse processo, menos visível que as manchetes, mas fundamental, que determina se uma hipótese científica poderá, de fato, transformar-se em alternativa terapêutica.


