Quando comecei a estudar envelhecimento, saúde feminina e longevidade, percebi algo desconfortável: quase tudo que nos ensinaram sobre envelhecer estava incompleto. Foi nesse caminho que conheci duas mulheres que mudaram definitivamente a minha forma de enxergar o corpo humano, o tempo e as escolhas diárias: Elizabeth Blackburn e Elissa Epel.
Elas não apenas escreveram um livro. Elas ligaram a ciência de laboratório à vida real, algo raro, necessário e profundamente transformador.
Elizabeth Blackburn: a mulher por trás de um Nobel que mudou a biologia do envelhecimento

Elizabeth Blackburn, bióloga molecular e vencedora do Prêmio Nobel de Medicina/Fisiologia, liderou descobertas fundamentais sobre telômeros e telomerase, que transformaram a compreensão científica do envelhecimento celular (Foto: WikiCommons)
Elizabeth Blackburn é bióloga molecular. Mas dizer apenas isso é pouco.
Ela é a cientista que ajudou o mundo a compreender por que nossas células envelhecem e, mais importante, como esse processo pode ser influenciado.
Foi ela quem participou da descoberta dos telômeros e da enzima telomerase, estruturas fundamentais que protegem nossos cromossomos. Até então, o envelhecimento era visto quase como um desgaste inevitável. O trabalho de Blackburn mostrou que existe regulação, proteção e falha celular mensurável.
Em 2009, ela recebeu o Prêmio Nobel de Medicina/Fisiologia, o reconhecimento máximo da ciência. Esse Nobel não foi apenas um prêmio acadêmico. Ele mudou a forma como a medicina e a biologia entendem envelhecimento, câncer e doenças crônicas.
Além do Nobel, Elizabeth Blackburn recebeu os prêmios Lasker de Pesquisa Médica Básica, o Prêmio Heineken, o Prêmio Harvey e o reconhecimento das principais academias científicas do mundo. Ela também ocupou cargos de liderança em instituições como a University of California, San Francisco (UCSF) e o Salk Institute, algo que historicamente sempre foi difícil para mulheres na ciência.
Elissa Epel: a cientista que provou que o estresse envelhece células

Elissa Epel, psicóloga e pesquisadora da Universidade da Califórnia em San Francisco (UCSF), demonstrou como o estresse crônico e fatores emocionais influenciam diretamente o envelhecimento das células (Foto: Divulgação)
Se Blackburn explicou o mecanismo, Elissa Epel mostrou o impacto da vida real sobre esse mecanismo.
Elissa Epel é psicóloga clínica e de saúde, professora e pesquisadora na UCSF. Seu trabalho uniu psicologia, biologia e medicina de forma clara e, para muitos, desconfortável: nossas emoções deixam marcas físicas nas células.
Ela demonstrou, com dados robustos, que o estresse crônico, o excesso de cortisol e a sensação prolongada de ameaça estão associados ao encurtamento dos telômeros, ou seja, ao envelhecimento celular acelerado.
Por esse trabalho, tornou-se membro da National Academy of Medicine, uma das maiores honrarias na área da saúde.
O livro: quando ciência de Nobel encontra a vida cotidiana

The Telomere Effect (O Segredo Está nos Telômeros) traduz descobertas científicas sobre envelhecimento celular para a vida prática (Foto: Divulgação)
O livro The Telomere Effect (O Segredo Está nos Telômeros) nasceu do encontro entre uma cientista vencedora do Nobel e uma pesquisadora do impacto do estresse na vida real.cA proposta nunca foi vender milagre. Foi traduzir ciência complexa em consciência prática.
O que são telômeros
Telômeros são estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomos, dentro do núcleo de todas as nossas células. Se os cromossomos carregam o DNA, que é o “manual de instruções” do corpo, os telômeros funcionam como capas protetoras desse manual.
Gosto de usar o seguinte exemplo: os telômeros são como a ponta plástica do cadarço. Enquanto essa ponta está intacta, o cadarço não desfia. Quando ela se desgasta, tudo começa a se perder.
Os telômeros estão dentro do núcleo da célula, nas pontas de cada cromossomo, presentes em praticamente todas as células do corpo.
Como funcionam os telômeros

Os telômeros são estruturas que protegem os cromossomos e têm papel central no processo de envelhecimento celular (Foto: Adobe Stock)
Toda vez que uma célula se divide, algo que acontece milhões de vezes ao longo da vida, o DNA precisa ser copiado.
Nesse processo, os telômeros encurtam um pouco. Isso é natural. O problema começa quando o encurtamento acontece rápido demais, deixando a célula exposta à inflamação, ao estresse oxidativo e ao estresse mental contínuo. Isso ocorre quando existe excesso de cortisol, má alimentação e privação do sono.
Quando os telômeros ficam curtos demais, a célula perde eficiência, entra em modo inflamatório, para de se dividir e pode morrer. Ocorre, então, o envelhecimento de tecidos e de todo o organismo.
Esse processo está ligado ao envelhecimento precoce, a doenças cardiovasculares, declínio cognitivo, doenças metabólicas, maior vulnerabilidade ao câncer e inflamação crônica.
E a telomerase
A telomerase é a enzima capaz de reparar ou manter os telômeros.
Ela é mais ativa em fases iniciais da vida e em algumas células específicas.
O trabalho de Blackburn mostrou que esse sistema existe, mas é profundamente influenciado pelo ambiente interno do corpo.
A mensagem mais importante do livro
Envelhecer não é apenas contar anos.
O livro mostra que os telômeros respondem diretamente ao estresse emocional crônico, noites mal dormidas, alimentação inflamatória, sedentarismo ou excesso de esforço, isolamento emocional e à sensação de falta de controle sobre a própria vida.
Por outro lado, são protegidos por sono de qualidade, atividade física moderada e constante, alimentação anti-inflamatória, vínculos afetivos estáveis, manejo consciente do estresse e a sensação de propósito e segurança emocional.
Ou seja: o corpo escuta o ambiente que você cria para ele, todos os dias.
Por que essas duas mulheres importam tanto?
Elizabeth Blackburn provou, com um Nobel, que o envelhecimento tem base biológica mensurável.
Elissa Epel provou que nossas escolhas emocionais e comportamentais moldam essa biologia.
Juntas, elas desmontaram a ideia de que envelhecer é apenas “aceitar”.
Elas mostraram que cuidar da saúde é também cuidar do tempo que vive dentro das células.
Como mulher, como profissional da saúde e como alguém que acredita em ciência aplicada à vida real, eu vejo nelas um marco: mulheres que não apenas entraram para a história da ciência, mas mudaram o rumo dela.
E, para mim, essa talvez seja a descoberta mais importante de todas.


