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Nina Ploger e o agro como estratégia de país

Por
Surama de Castro

2/17/2026

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Retrato de Nina Ploger, economista e presidente do Grupo Forbes Mulheres Agro (Foto: Divulgação) (Foto: Divulgação)

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À frente do Grupo Forbes Mulheres Agro, Nina Ploger articula economia, governança e geopolítica a partir do agronegócio brasileiro

Antes de se tornar uma voz presente nos debates sobre agronegócio, investimentos e governança, Nina Ploger construiu uma trajetória marcada pela circulação entre diferentes campos do poder econômico. Economista de formação, com atuação em conselhos e fóruns internacionais e no fortalecimento da liderança feminina no agro, ela passou a ocupar um espaço estratégico na discussão sobre o papel do Brasil no cenário global.

A trajetória profissional de Nina não cabe em uma única área. Economia, agronegócio, relações internacionais e análise de cenários formam um percurso que reflete tanto escolhas pessoais quanto as transformações estruturais do país nas últimas décadas.

“Mulheres da minha geração precisaram se formar muito bem, mas sem qualquer indicação de uma carreira pré-definida. Não havia trilho pronto. A preparação era a única forma de não ficar para trás. Estar bem preparada passou a ser uma estratégia de autonomia”, afirma.

Essa visão multidisciplinar se mostra especialmente relevante quando o tema é o agronegócio brasileiro, ainda frequentemente tratado de forma simplificada no debate público. Para Nina, o agro é uma vocação estrutural do Brasil. “O Brasil não é competitivo por acaso. É escala, clima, ciência e capacidade produtiva combinadas”, diz.

O país reúne território continental, localização tropical e alta capacidade de fotossíntese, o que permite até três colheitas por ano e níveis de produtividade sem paralelo. Enquanto o Brasil colhe eucalipto em cerca de sete anos, em regiões da Europa esse ciclo pode levar mais de duas décadas.

Os números confirmam esse avanço. Desde 1975, a produção de grãos cresceu mais de 800%, enquanto a área cultivada aumentou cerca de 200%, evidenciando ganhos consistentes de eficiência. Na pecuária, o rebanho bovino ultrapassa 230 milhões de cabeças, consolidando o Brasil como o maior produtor comercial do mundo.

Potencial, no entanto, não se sustenta sem estratégia. Para Nina, o país precisa de liderança capaz de pensar o setor no longo prazo. “Sem segurança jurídica, o investimento vira risco, não oportunidade”, afirma. Ela defende políticas públicas coerentes, combate efetivo aos crimes florestais e proteção aos produtores responsáveis. “É isso que garante um mercado competitivo e justo”, diz.

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Nina Ploger durante participação em evento do setor agro, onde debateu governança, investimentos e o papel estratégico do Brasil no cenário global (Foto: Divulgação)

Essa lógica também orienta sua atuação como presidente do Grupo Forbes Mulheres Agro, onde acompanha de perto a ampliação da presença feminina nos espaços de decisão. Hoje, cerca de um milhão das cinco milhões de propriedades rurais brasileiras têm mulheres na gestão. No Nordeste, elas são maioria na direção das propriedades.

“Estamos ocupando espaços que antes nem eram considerados possíveis. Não é um movimento simbólico. É gestão real. Ainda há um caminho longo a percorrer, mas uma nova liderança está em formação e ela está preparada”, afirma.

A experiência com Investimentos Estrangeiros Diretos colocou Nina diante da forma como o Brasil é percebido no exterior. Para ela, a questão da segurança jurídica segue como um dos principais entraves ao desenvolvimento econômico. Leis trabalhistas excessivamente burocráticas e um sistema fiscal complexo elevam o chamado Custo Brasil e afastam investidores.

“O Brasil tem empresas fortes e gente muito competente. Mas poderia gerar muito mais emprego e renda com um ambiente menos hostil a quem produz”, diz. Segundo ela, o movimento recente de empresas e capitais para países como Uruguai e Paraguai reflete a busca por estruturas mais simples e previsíveis.

A participação em conselhos e fóruns internacionais, como os diálogos Brasil–Alemanha e Brasil–Israel, amplia esse olhar comparativo. Nina acredita que o Brasil pode aprender muito nesses espaços, mas também tem muito a oferecer. “Nossos diplomatas são bem preparados, e a sociedade brasileira é aberta à inovação”, diz.

Ela destaca que mais de 95% da população utiliza a internet regularmente e que a maioria das indústrias já adota tecnologias digitais avançadas. O desafio, segundo ela, está no acesso. “Inovar ainda é caro para pequenas e médias empresas. Crédito e políticas adequadas são fundamentais para modernizar sem sufocar”, afirma.

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Nina Ploger no Forbes Agro 100, evento que reúne lideranças do agronegócio brasileiro para discutir inovação, produtividade e futuro do setor (Foto: Divulgação)

Como cofundadora do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Estratégico, Nina atua na análise de cenários e identifica tendências decisivas para o futuro do país. Uma delas é a transformação do agronegócio em uma plataforma não apenas alimentar, mas também energética e industrial.

“O agro brasileiro não é só parte do futuro alimentar. É parte da transição energética e climática. Nos próximos anos, uma parcela significativa da produção deve estar ligada a produtos não alimentares, com a substituição de insumos fósseis por matérias-primas como algodão, celulose, borracha e etanol”, diz.

Ela aponta duas frentes complementares de transformação. De um lado, grandes mudanças no cultivo, baseadas na observação da natureza e na maior precisão climática. De outro, avanços em genética, bioinsumos e enriquecimento do solo. “São movimentos que exigem escala, ciência e cooperação internacional”, afirma.

Em empresas centenárias, como a Companhia Melhoramentos, Nina vê tradição e inovação como forças complementares. “Tradição não é obstáculo. É base”, diz. Para ela, a sustentabilidade preserva valor no longo prazo, enquanto a gestão com governança assegura perenidade e relevância contínua.

Ao falar de legado, relativiza cargos e títulos. “Cargos passam. O que fica são as pessoas, os processos e a cultura que ajudamos a construir. Meu impacto não será medido pelas posições que ocupei, mas pelas transformações que ajudei a promover. Espero deixar um mundo melhor, com mais esperança para as próximas gerações”, afirma.